Projeção do INMET aponta probabilidade de 90% para a permanência do fenômeno; especialistas cobram diversificação de fontes e planos de resiliência operativa em reservatórios e plantas industriais.
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) atualizou as projeções para o El Niño, confirmando uma probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um episódio de forte intensidade nos próximos trimestres, com permanência ativa prevista ao menos até março de 2027. O cenário mobiliza órgãos reguladores e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) no acompanhamento das afluências nos principais reservatórios do país, enquanto impõe às indústrias e agentes de energia a revisão imediata de suas matrizes de captação.
As alterações na vazão dos rios e a irregularidade pluviométrica associadas ao El Niño exigem uma análise descentralizada, que vá além das médias nacionais do Sistema Interligado Nacional (SIN). O Painel do El Niño 2026-2027, composto por entidades como a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), INMET, INPE e Cemaden, indica assimetrias regionais severas na distribuição de chuvas, elevando a vulnerabilidade de plantas industriais, geradoras hidrelétricas e sistemas de arrefecimento de térmicas situados em bacias sob estresse hídrico.
Diagnóstico de vulnerabilidade nas fontes de abastecimento
Para o segmento produtivo e os agentes de infraestrutura energética, a mitigação da crise passa pela identificação da dependência operacional de fontes únicas de água. A avaliação restrita ao volume consumido mensalmente mascara passivos operacionais que tendem a emergir durante o rebaixamento de aquíferos e corpos hídricos superficiais.
A diretora de Novos Negócios e Sustentabilidade da Engeper Ambiental e Perfurações, Lorena Zapata, aponta as variáveis críticas que devem compor a governança hídrica corporativa: “Uma empresa precisa saber de onde vem a água que utiliza, qual é a disponibilidade daquela fonte, como sua qualidade pode variar, quais restrições podem atingir a captação e quanto tempo a operação conseguiria funcionar caso essa fonte fosse comprometida. Sem essas respostas, o risco hídrico permanece escondido dentro do risco operacional e só aparece quando já começa a afetar a produção.”
Estruturação de reservas e paridade com o risco financeiro
O prolongamento do fenômeno até 2027 oferece aos agentes econômicos uma janela para o mapeamento prévio de vulnerabilidades físicas e normativas. A implementação de monitoramento contínuo em poços profundos, a instalação de infraestrutura para reúso de efluentes industriais, o incremento da capacidade de armazenamento e o licenciamento de fontes alternativas de captação figuram entre as medidas preventivas para mitigar paradas não programadas.
A executiva da Engeper Ambiental e Perfurações ressalta a necessidade de equiparar a gestão da água ao planejamento financeiro e logístico das companhias: “Esperar uma restrição no abastecimento para procurar alternativas significa tomar decisões sob pressão e com menos opções disponíveis. Se energia, câmbio e logística já são tratados como riscos financeiros porque podem interromper uma operação, a água precisa entrar na mesma lógica de planejamento, porque sua indisponibilidade também tem potencial para paralisar um negócio.”



