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Da universalização à geração distribuída: como o setor elétrico brasileiro mudou nas últimas duas décadas

Da universalização à geração distribuída - como o setor elétrico brasileiro mudou nas últimas duas décadas

Com 99,8% de cobertura nacional e mais de 70 GW em energia solar, o desafio do país migrou da expansão de redes para a democratização do acesso à energia limpa

Quando a Seleção Brasileira conquistou o pentacampeonato mundial, em 2002, cerca de 10 milhões de brasileiros ainda viviam sem acesso à energia elétrica. Passadas mais de duas décadas, o cenário é completamente diferente: a eletricidade alcança 99,8% dos domicílios do país, enquanto a matriz elétrica se torna cada vez mais descentralizada com a expansão da geração solar e da micro e minigeração distribuída (MMGD).

A evolução do setor elétrico brasileiro nesse período vai além da ampliação da infraestrutura. O país passou por uma profunda transformação regulatória, tecnológica e operacional, marcada pela universalização do acesso à energia, pela modernização das redes de distribuição e pelo crescimento acelerado das fontes renováveis. Agora, o debate se desloca da expansão do atendimento para a democratização do acesso à energia limpa e de menor custo.

Esse movimento ocorre em um contexto de forte crescimento da geração distribuída, impulsionada por mudanças regulatórias, redução dos custos dos sistemas fotovoltaicos e novos modelos de negócios que permitem aos consumidores acessar energia renovável sem necessidade de instalar equipamentos próprios.

Universalização do acesso muda o panorama do setor elétrico

O início dos anos 2000 marcou uma das principais políticas públicas do setor elétrico brasileiro: o Programa Luz para Todos, criado em 2003 para ampliar o atendimento em áreas rurais e localidades isoladas.

Ao longo de duas décadas, a iniciativa levou eletricidade a aproximadamente 18 milhões de pessoas, reduzindo significativamente o déficit de atendimento identificado pelo Censo 2000. Atualmente, a parcela da população ainda sem acesso à rede elétrica concentra-se, sobretudo, em regiões remotas da Amazônia Legal, onde fatores geográficos tornam a expansão da infraestrutura mais complexa.

A universalização representou um avanço social relevante, mas também criou as bases para uma nova etapa do desenvolvimento do setor: ampliar a eficiência do consumo e expandir o acesso às fontes renováveis.

Energia solar impulsiona uma nova dinâmica de mercado

Paralelamente à expansão da rede elétrica, o Brasil consolidou uma das trajetórias mais rápidas de crescimento da energia solar no mundo. Em pouco mais de uma década, a fonte passou de participação praticamente inexistente para uma capacidade instalada superior a 70 GW, posicionando o país entre os maiores mercados globais de geração fotovoltaica.

O avanço foi impulsionado tanto por grandes usinas quanto pela expansão da micro e minigeração distribuída, modalidade que já reúne milhões de sistemas instalados em residências, empresas, propriedades rurais e edifícios comerciais.

Para Rafael Vignoli, CEO da Lemon Energia, o desafio atual não está apenas em ampliar a capacidade instalada, mas em garantir que os benefícios econômicos da transição energética cheguem aos consumidores: “Não adianta o Brasil ter uma das maiores capacidades solares do mundo se isso não chega no bolso de quem paga a conta de luz. O crescimento da capacidade instalada é uma vitória do setor, mas a vitória do consumidor só acontece quando ele consegue acessar essa energia sem depender de obra ou investimento.”

Essa mudança de perspectiva acompanha a evolução do mercado livre de energia, da geração distribuída e de modelos que ampliam as possibilidades de acesso à energia renovável.

Geração distribuída compartilhada amplia acesso à energia renovável

Entre as modalidades que ganharam espaço nos últimos anos está a geração distribuída compartilhada, regulamentada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

O modelo permite que consumidores recebam créditos de energia provenientes de usinas renováveis, principalmente solares, sem a necessidade de instalar painéis fotovoltaicos em seus imóveis. A energia gerada é injetada na rede de distribuição e os créditos são compensados diretamente na fatura da unidade consumidora.

Na avaliação de Vignoli, esse formato amplia significativamente o alcance da transição energética ao reduzir barreiras financeiras e estruturais para a adoção da energia limpa: “O Brasil levou décadas para universalizar o acesso à energia elétrica. A próxima etapa é garantir que essa energia seja limpa e acessível para quem já tem luz. É isso que a geração distribuída compartilhada faz. O consumidor não precisa instalar nada, não precisa ter telhado, não precisa de capital. Assina, recebe os créditos e paga menos na conta. O que levou décadas na eletrificação pode ser acelerado na transição para energia limpa.”

Além de consumidores residenciais, o modelo tem atraído pequenas empresas, comércios e condomínios que buscam reduzir custos com eletricidade sem realizar investimentos em infraestrutura própria.

Setor projeta expansão da energia solar até 2030

As perspectivas para os próximos anos indicam que a energia solar continuará ocupando papel central na expansão da matriz elétrica brasileira. Estimativas do setor apontam que a capacidade instalada deverá superar 120 GW até 2030, praticamente dobrando o volume atualmente em operação. Parte desse crescimento deverá ocorrer por meio da geração distribuída, segmento que segue registrando forte expansão em todo o país.

O avanço da eletrificação, a digitalização das redes, o aumento da demanda por fontes renováveis e a busca por maior eficiência energética devem consolidar um ambiente cada vez mais descentralizado, no qual consumidores assumem papel mais ativo na gestão de seu consumo.

Ao projetar esse cenário, Rafael Vignoli avalia que a próxima etapa da evolução do setor será marcada pela ampliação do acesso econômico à energia renovável: “Se em 2002 a discussão era levar energia para quem não tinha, em 2030 a discussão vai ser garantir que essa energia seja limpa e mais barata para quem já tem. O Brasil deve dobrar a capacidade solar instalada até lá, e a geração distribuída compartilhada é o que vai permitir que empresas e condomínios acessem essa energia sem obra, sem investimento e sem depender de decisão de governo.”

A trajetória do setor elétrico brasileiro nas últimas duas décadas demonstra que a universalização do acesso foi apenas o primeiro passo. O desafio que se desenha para os próximos anos será combinar expansão da infraestrutura, modernização tecnológica e democratização do acesso à energia renovável, permitindo que os benefícios da transição energética alcancem um número cada vez maior de consumidores.