Por Marcos Valenzi, gerente corporativo de saúde, segurança e meio ambiente na Aeris Energy
A transição energética global costuma ser debatida a partir de grandes números ligados à expansão da infraestrutura renovável, aos investimentos bilionários anunciados por governos e empresas e às metas de descarbonização assumidas por diferentes países. Existe, porém, uma dimensão menos visível e talvez ainda mais decisiva para sustentar essa transformação no longo prazo, que é a formação de pessoas preparadas para operar a nova indústria verde. Assim, nos próximos anos, a disponibilidade de mão de obra qualificada pode se tornar um dos principais gargalos para o avanço da economia de baixo carbono no Brasil e no mundo.
Os sinais desse movimento já começaram a aparecer. Segundo o relatório World Energy Employment 2025, da Agência Internacional de Energia (IEA), o setor global de energia alcançou 76 milhões de empregos em 2024, com crescimento de 2,2%, em um ritmo quase duas vezes superior ao da economia mundial. O estudo também mostra que a escassez de profissionais qualificados já começa a pressionar a velocidade de expansão da infraestrutura energética em diferentes mercados.
O debate sobre energia limpa ainda permanece excessivamente concentrado na construção de parques, linhas de transmissão e novos projetos de geração, enquanto pouco se discute sobre quem irá operar, reparar, monitorar e sustentar toda essa estrutura nas próximas décadas. A nova indústria verde exigirá profissionais especializados em manutenção industrial, automação, logística, segurança operacional, análise de dados, gestão ambiental e serviços técnicos cada vez mais sofisticados, em um ambiente produtivo que se torna mais tecnológico e mais exigente a cada ciclo.
Ao mesmo tempo, a velocidade da transformação tecnológica faz com que parte das formações tradicionais já não seja suficiente para atender às novas demandas industriais. A transição energética cria, assim, um paradoxo importante. Enquanto o mundo acelera investimentos em infraestrutura verde, muitas regiões ainda não conseguem formar trabalhadores na mesma velocidade em que a cadeia produtiva se expande.
No Brasil, esse cenário ganha uma complexidade adicional porque a transição energética acontece paralelamente a um desafio histórico de formação técnica e industrial. O país possui vantagens competitivas relevantes na agenda verde, especialmente em energia eólica, solar e biocombustíveis, mas precisará desenvolver capacidade humana na mesma intensidade em que amplia sua infraestrutura energética e fortalece sua posição dentro das cadeias globais de transição energética.
Esse movimento se torna ainda mais relevante diante das projeções de crescimento do setor renovável. Dados da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica) mostram que o Brasil encerrou 2025 com mais de 33 GW de capacidade instalada em energia eólica, mantendo-se entre os principais mercados do mundo. Ao mesmo tempo, a expansão da cadeia produtiva aumenta a demanda por profissionais técnicos preparados para atuar desde a fabricação de componentes até manutenção, operação e serviços especializados ligados ao setor.
Diante desse cenário, a formação profissional passa a ocupar uma posição estratégica dentro da competitividade industrial. Cada vez mais, empresas precisarão atuar como agentes ativos na preparação de profissionais, aproximando educação, indústria e desenvolvimento regional em um esforço contínuo de qualificação.
Na prática, a disputa por talentos técnicos já começa a impactar setores ligados à transição energética. Funções antes pouco conhecidas passam a exigir alta especialização, enquanto operações industriais demandam profissionais preparados para atuar sob rigorosos protocolos de segurança, padrões ambientais mais avançados e processos produtivos altamente tecnológicos. Em muitos casos, a mão de obra simplesmente ainda não está disponível no mercado.
Esse processo também transforma profundamente as regiões industriais. O desenvolvimento da nova economia verde dependerá da capacidade de criar ecossistemas locais de qualificação, conectando empresas, instituições de ensino, poder público e comunidades em torno de uma estratégia de longo prazo. Não será suficiente instalar operações industriais em determinados territórios sem desenvolver, ao redor delas, uma estrutura permanente de formação e geração de oportunidades.
No Ceará, esse movimento ganha relevância diante da consolidação do estado como um dos polos brasileiros da cadeia de energia renovável. O crescimento da indústria ligada à transição energética trouxe consigo novas demandas por formação técnica, especialização industrial e desenvolvimento de talentos capazes de atender às exigências de um setor cada vez mais competitivo e tecnológico.
Ao mesmo tempo, essa transformação abre espaço para um impacto social relevante. A indústria verde pode representar uma oportunidade concreta de inclusão produtiva, geração de emprego qualificado e desenvolvimento regional, especialmente em áreas historicamente afastadas dos grandes centros econômicos. Mas isso só será possível se a formação profissional acompanhar a velocidade da transformação industrial.
Existe ainda uma dimensão ambiental pouco discutida nesse debate. A sustentabilidade da transição energética também depende da capacidade de construir cadeias produtivas mais resilientes, locais e preparadas para operar com eficiência no longo prazo. Sem profissionais qualificados, até mesmo ganhos ambientais podem perder escala, eficiência e continuidade.
Logo, o futuro da transição energética será definido pela capacidade de investimento dos países ou pela expansão da infraestrutura renovável, mas principalmente pela formação de pessoas capazes de transformar essa infraestrutura em desenvolvimento econômico, eficiência industrial e impacto social duradouro.



