Níveis de armazenamento acima de 70% garantem segurança operacional no início do período seco, enquanto projeções climáticas indicam temperaturas extremas, mudanças no regime de chuvas e maior volatilidade para o Sistema Interligado Nacional
O inverno começa oficialmente no Brasil em 21 de junho com um cenário hidrológico mais favorável para o setor elétrico do que o observado nos últimos anos. Com os reservatórios do Sistema Interligado Nacional (SIN) operando acima de 70% da capacidade de armazenamento, o país inicia o período seco com uma margem de segurança relevante para o atendimento da demanda.
A combinação entre a recuperação das principais bacias hidrográficas ao longo do primeiro trimestre de 2026, a expectativa de chuvas regulares na região Sul e o fortalecimento antecipado da geração eólica contribui para sustentar uma perspectiva operacional equilibrada no curto prazo.
Apesar desse quadro positivo, agentes do mercado, geradores, comercializadores e grandes consumidores monitoram com atenção a evolução do El Niño, que já apresenta sinais consolidados na atmosfera e tende a ganhar intensidade ao longo do segundo semestre.
Análises da consultoria meteorológica Nottus, baseadas em modelos do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), indicam que o fenômeno deve permanecer ativo pelo menos até o primeiro semestre de 2027, com potencial para atingir intensidade muito forte no fim deste ano.
Reservatórios robustos garantem maior resiliência ao sistema
Os dados mais recentes do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) reforçam a melhora do quadro hidrológico. O armazenamento equivalente do SIN passou de 46% no início de 2026 para 71% em meados de abril, mantendo-se em 72% em 8 de junho.
A recuperação foi impulsionada principalmente pelas afluências registradas nos subsistemas Norte e Nordeste, enquanto o Sudeste/Centro-Oeste reverteu as perdas acumuladas em 2025. A região Sul, embora mais suscetível à volatilidade hidrológica, também contribuiu para a recomposição dos estoques energéticos.
Ao analisar as condições climáticas previstas para o inverno, o sócio-diretor e meteorologista da Nottus, Alexandre Nascimento, destaca os fatores que favorecem a operação do sistema nos próximos meses: “A combinação entre chuvas frequentes no Sul e no sul do Subsistema Sudeste/Centro-Oeste, além do início antecipado e vigoroso da safra dos ventos, contribui para manter as afluências elevadas e retardar a redução dos níveis de armazenamento dos reservatórios ao longo do período seco. Também esperamos boa geração solar em grande parte do centro-norte do país.”
O cenário atual reduz as preocupações herdadas do fim de 2025, quando o início do período úmido registrou precipitações abaixo da média histórica. Naquele momento, temperaturas mais amenas contribuíram para limitar o crescimento da carga e evitar um maior estresse sobre o sistema.
El Niño deve alterar o padrão climático a partir de agosto
As projeções da Nottus apontam para uma mudança gradual das condições meteorológicas ao longo do segundo semestre.
A partir de agosto, o fortalecimento do El Niño deve favorecer a ocorrência de períodos secos na faixa central do país, intensificar a atuação de ventos de quadrante norte e dificultar o avanço de frentes frias, elevando as temperaturas em grande parte do território nacional. Para o setor elétrico, esse movimento pode alterar simultaneamente as condições de oferta e demanda de energia, exigindo maior atenção dos modelos de planejamento e despacho.
Nascimento ressalta que a percepção da população sobre o comportamento climático poderá divergir do padrão tradicional do inverno brasileiro: “É bastante provável que a percepção da população seja de que o outono e o início do inverno tenham sido mais frios do que o inverno de forma geral. O segundo semestre deve apresentar temperaturas acima da média em grande parte do país.”
As projeções indicam maior concentração de chuvas na região Sul, enquanto o Nordeste e o Tocantins devem enfrentar precipitações abaixo da média. O Sudeste/Centro-Oeste e importantes bacias amazônicas, como as dos rios Madeira e Xingu, tendem a registrar maior irregularidade hídrica.
Fontes renováveis ganham protagonismo no estágio inicial do fenômeno
No curto prazo, os efeitos do El Niño podem beneficiar a operação do SIN. A combinação entre melhores condições hidrológicas no centro-sul, ventos mais intensos no Nordeste e elevada incidência solar cria um ambiente favorável para a geração renovável, ampliando a complementaridade entre as diferentes fontes. O aumento da produção eólica e solar tende a reduzir a necessidade de despacho térmico, preservando os níveis dos reservatórios durante a estiagem.
Ao avaliar esse momento inicial do fenômeno, Alexandre Nascimento enfatiza o papel estratégico das fontes renováveis para a segurança energética: “Antes de representar um desafio, o El Niño pode ajudar o sistema. A melhora das condições hidrológicas no centro-sul do país e o fortalecimento das fontes eólica e solar são fatores positivos para o SIN neste estágio inicial do fenômeno.”
Ondas de calor e eventos extremos elevam riscos para o próximo verão
Os benefícios observados no curto prazo não eliminam os riscos associados à intensificação do El Niño. O avanço do fenômeno pode provocar ondas de calor mais frequentes e persistentes entre o fim de 2026 e o início de 2027, elevando a demanda por climatização e pressionando a curva de carga do sistema.
Esse cenário exigirá maior flexibilidade operativa, alta disponibilidade do parque termelétrico e monitoramento permanente das condições hidrológicas. Além do impacto sobre o consumo, o aumento da frequência de eventos climáticos extremos poderá ampliar os desafios para a operação da rede elétrica.
Tempestades severas, vendavais e episódios de chuva intensa concentrada em curtos períodos representam riscos adicionais para ativos de geração e transmissão, especialmente nas bacias dos rios Paranapanema, Paraná, Tietê e Madeira.
Mudança climática impõe nova lógica ao planejamento energético
A principal preocupação dos agentes do setor reside na interação entre um El Niño potencialmente intenso e um cenário global de temperaturas recordes. Essa combinação reduz a previsibilidade dos modelos climáticos tradicionais e aumenta a complexidade do planejamento energético.
Ao avaliar os desafios impostos pela nova dinâmica climática, Alexandre Nascimento alerta para a necessidade de incorporar variáveis meteorológicas com maior profundidade às estratégias de operação e comercialização de energia: “Estamos diante da possibilidade de um El Niño muito forte atuando em um planeta que já apresenta temperaturas excepcionalmente elevadas. É uma combinação ainda sem precedentes recentes e que exige acompanhamento constante dos possíveis impactos sobre o setor elétrico e a disponibilidade dos recursos energéticos do país.”
Com reservatórios em níveis confortáveis, o setor elétrico brasileiro atravessa o início do inverno com maior segurança operacional. No entanto, a formação de preços no mercado livre, as estratégias de contratação e o planejamento do Operador Nacional do Sistema precisarão considerar uma variável cada vez mais determinante: o risco climático.
Em um contexto de crescente volatilidade meteorológica, o desafio deixa de ser apenas garantir o equilíbrio entre oferta e demanda e passa a incorporar a capacidade de antecipar eventos extremos e seus impactos sobre a disponibilidade de recursos energéticos.



