Parceria estratégica une gigantes do agronegócio, refino e distribuição para produzir combustível sustentável de aviação com certificação internacional ISCC CORSIA PLUS e potencial de reduzir emissões em até 70%.
A rota rumo à descarbonização do setor de transporte aéreo global registrou um marco histórico com o protagonismo da matriz energética e agrícola brasileira. Em uma cooperação inédita de mercado anunciada nesta quarta-feira (17/06/2026), as companhias Bunge, Petrobras e Vibra consolidaram a primeira operação comercial do mundo de Combustível Sustentável de Aviação (SAF, na sigla em inglês) produzido a partir de óleo de soja nacional com a rigorosa certificação internacional ISCC CORSIA PLUS Low-LUC Risk.
O projeto estruturante prevê, nesta fase inicial, a produção e comercialização de um lote piloto de 4 mil m³ de combustível de aviação com mistura de 1% de conteúdo renovável. De acordo com as métricas logísticas das empresas, o volume é suficiente para abastecer a operação de até 1,6 mil voos comerciais na ponte aérea Rio-São Paulo, estabelecendo uma base técnica sólida para o atendimento dos mandatos compulsórios de descarbonização doméstica programados para entrar em vigor no país a partir de 2027.
Logística Integrada e Rastreabilidade do Campo ao Aeroporto
A viabilização do combustível renovável apoia-se em uma complexa engenharia de suprimentos e infraestrutura de rede fracionada entre os três elos da cadeia produtiva:
- Originação e Esmagamento: A Bunge responde pela originação, pelo monitoramento socioambiental dos produtores parceiros e pelo esmagamento da oleaginosa para a produção do óleo vegetal bruto em sua planta industrial de Rondonópolis (MT).
- Coprocessamento e Refino: A Petrobras, primeira produtora de SAF da América Latina a obter a chancela internacional CORSIA, executa o coprocessamento do óleo vegetal com carga de hidrocarbonetos de origem mineral nas unidades da Refinaria de Duque de Caxias (Reduc), no Rio de Janeiro.
- Distribuição e Logística: A Vibra Energia, por meio de sua unidade de negócios BR Aviation, assume a infraestrutura de transporte, controle de qualidade e abastecimento das aeronaves. O produto será ofertado inicialmente no Aeroporto Internacional do Galeão (GIG), onde a base de armazenamento da distribuidora detém as certificações ISCC EU e ISCC CORSIA, assegurando blindagem regulatória e rastreabilidade total do biocombustível.
Certificação de Baixo Risco e Mitigação de Gases Estufa
O grande diferencial competitivo do biocombustível brasileiro reside no atendimento aos critérios ESG definidos pela Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO). A outorga do selo Low-LUC Risk (baixo risco de mudança do uso da terra) atesta cientificamente que a commodity agrícola provém de fazendas que registraram ganhos consistentes de produtividade por hectare ao longo dos anos, comprovando que o insumo não possui qualquer associação com o desmatamento ou abertura de novas fronteiras de plantio após o marco temporal de 2008.
Por meio de metodologias padronizadas de análise de ciclo de vida (ACV), constatou-se que o SAF oriundo desse arranjo tecnológico possui capacidade para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em aproximadamente 70% na comparação com o querosene de aviação fóssil tradicional (QAV).
Ao detalhar os parâmetros de produtividade que viabilizaram a conformidade do grão brasileiro perante os auditores internacionais independentes, a diretora de Soluções para Combustíveis Renováveis da Bunge na América do Sul, Christini Kubo, destacou o avanço técnico do manejo no campo: “Os dados oficiais de lavouras brasileiras publicados pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) demonstram que o ganho de produtividade da soja ao longo da última década foi maior que 20%, fruto de um extenso trabalho de desenvolvimento das melhores práticas no campo. Agora, por meio desta iniciativa inédita, a Bunge é pioneira em comprovar e certificar essa realidade, cumprindo os mais rígidos padrões internacionais de sustentabilidade para a soja.”
A executiva complementou a análise apontando como as exigências corporativas globais por metas climáticas auditáveis impulsionaram o desenvolvimento dessa nova cadeia de valor na América do Sul: “A sustentabilidade é o pilar central da estratégia da Bunge. Fomos a primeira trader a assumir o compromisso voluntário de ter nossas cadeias de valor livres de desmatamento e conversão de vegetação nativa; somos a primeira exportadora global de commodities a alcançar 100% de rastreabilidade e monitoramento de nossas compras diretas e indiretas de soja em regiões prioritárias do Cerrado; possuímos fortes políticas ambientais e investimos consistentemente na promoção de práticas de agricultura regenerativa junto a nossos parceiros. Nossos clientes estão cada vez mais exigentes em termos de sustentabilidade e nos provamos eficientes em traduzir estas demandas para os nossos produtores agrícolas parceiros. Ao nos tornarmos a primeira esmagadora a fornecer soja certificada sem impacto documentado no uso da terra para a produção de SAF, estamos materializando um trabalho consistente e transparente que se desenvolveu ao longo de anos. Essa certificação reforça o posicionamento da Bunge como líder em integração e inovação no desenvolvimento de soluções de matérias-primas de baixa emissão para os mercados de renováveis.”
Compromisso Institucional com a Transição Energética Justa
A introdução do SAF no parque de refino nacional faz parte do plano de diversificação de portfólio de produtos de baixo carbono das estatais e operadoras de infraestrutura do país.
Ao contextualizar o pioneirismo do refino nacional em ambiente global e a indução de práticas sustentáveis ao longo da rede de fornecedores da companhia, a diretora de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobras, Angélica Laureano, pontuou o posicionamento estratégico do negócio: “A comercialização do primeiro SAF do mundo com soja certificada com baixo risco ILUC demonstra o compromisso da Petrobras com a sustentabilidade, a transição energética e com o desenvolvimento de produtos alinhados às demandas do mercado e da sociedade. Mais que isso, também reflete nosso firme propósito de incentivar a cadeia produtiva de nossos fornecedores a adotarem práticas sustentáveis verificáveis.”
Logística de Abastecimento e Preparação para o Mandato de 2027
Como principal distribuidora de combustíveis de aviação do país, responsável pelo atendimento de 60% dos voos nacionais, a Vibra redesenhou seus processos logísticos para absorver o biocombustível sem gerar ineficiências de custos operacionais. O foco da companhia está em integrar o SAF à infraestrutura aeroportuária existente, garantindo a integridade física do produto e a segurança operacional do abastecimento de aeronaves de grande porte.
Evidenciando o papel de coordenação de ponta a ponta exercido pela distribuidora para mitigar custos de atrito e preparar as companhias aéreas para o cenário regulatório compulsório, o vice-presidente de Operações da Vibra, Daniel Drumond, avaliou o peso da infraestrutura logística nesse mercado emergente: “A Vibra está, mais uma vez, na linha de frente da construção do mercado de SAF no Brasil, como parte essencial da cadeia, demonstrando sua força na distribuição e transformando iniciativas inovadoras como esta, em parceria com Bunge e Petrobras, em soluções concretas para nossos clientes. Este projeto reforça nosso compromisso em fornecer as ferramentas necessárias para a transição energética no setor aéreo, impulsionando o desenvolvimento de uma cadeia nacional sustentável e preparando o mercado para o futuro do combustível sustentável de aviação no país.”
Indução de Práticas via Agricultura Regenerativa
A consolidação do ciclo comercial do SAF também impulsiona investimentos diretos no manejo de campo. Através de seu Programa de Agricultura Regenerativa, a Bunge oferece suporte técnico e ferramentas aos agricultores para aprimorar a fertilidade do solo, elevar o potencial de sequestro de carbono biológico, otimizar a infiltração de recursos hídricos e racionalizar o consumo de defensivos e insumos químicos.
Dessa forma, o programa fomenta ganhos de produtividade verticalizados, permitindo que a agricultura brasileira atenda de forma concomitante os mercados globais de segurança alimentar e a crescente demanda por insumos de baixa emissão voltados aos biocombustíveis avançados.



