Alta do PLD e avanço dos encargos elevam pressão sobre gestão de risco nas empresas

Volatilidade do mercado livre, crescimento da CDE e desafios das renováveis reforçam necessidade de tratar energia como ativo estratégico e não apenas como custo operacional

A combinação entre juros elevados, margens corporativas pressionadas e aumento dos custos do setor elétrico está levando empresas brasileiras a reverem a forma como administram sua exposição ao mercado de energia. O movimento marca uma mudança de paradigma no ambiente corporativo: a energia deixa de ser tratada apenas como despesa operacional para assumir posição cada vez mais relevante nas estratégias de gestão financeira e mitigação de riscos.

A transformação é impulsionada por um cenário de maior volatilidade no mercado livre de energia, crescimento dos encargos setoriais e novas incertezas associadas à expansão acelerada das fontes renováveis. Para segmentos eletrointensivos, como mineração, química, papel e celulose, siderurgia e alimentos, a previsibilidade do custo energético passou a ter impacto direto sobre competitividade, geração de caixa e rentabilidade. Em muitos desses setores, a energia representa entre 8% e 25% da receita líquida. Em empresas com margens EBITDA mais apertadas, oscilações abruptas nos preços podem comprometer resultados financeiros em questão de semanas.

Ao analisar a evolução do tema dentro das organizações, o diretor de Operações Estruturadas do Grupo Bolt, Philipe Kilzer, avalia que ainda existe uma distância significativa entre a gestão financeira tradicional e a administração dos riscos energéticos: “O contraste no ambiente corporativo ainda é evidente. Empresas que monitoram de forma rigorosa sua exposição cambial, hedge de commodities e estrutura de dívida, muitas vezes deixam o custo energético fora da lógica financeira de gestão de risco”

- Advertisement -

PLD expõe vulnerabilidades de consumidores desprotegidos

A volatilidade observada recentemente no mercado de curto prazo reforçou a necessidade de uma abordagem mais sofisticada para contratação e gestão de energia. O Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), principal referência para a contabilização das exposições no mercado de curto prazo, saiu de níveis próximos a R$ 61/MWh para mais de R$ 280/MWh em poucos meses ao longo de 2024. O movimento evidenciou a sensibilidade financeira das empresas que operam sem instrumentos adequados de proteção.

Na prática, uma unidade industrial com consumo médio de 10 MWm pode registrar um impacto adicional da ordem de R$ 1,6 milhão por mês quando permanece exposta às oscilações do mercado sem contratos ou mecanismos de hedge capazes de absorver parte dessa volatilidade.

Para especialistas do setor, a experiência reforça uma percepção cada vez mais presente entre grandes consumidores: economias obtidas em períodos de preços baixos podem ser rapidamente anuladas quando ocorrem mudanças bruscas nas condições hidrológicas, operativas ou regulatórias.

Encargos setoriais ampliam pressão sobre os custos

Além dos riscos associados aos preços de mercado, os consumidores enfrentam uma escalada dos custos regulatórios. A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), principal encargo cobrado na tarifa de energia elétrica brasileira, alcançou R$ 49,2 bilhões em 2025.

- Advertisement -

O crescimento de 32% em relação ao ano anterior amplia a pressão sobre consumidores cativos e agentes do Ambiente de Contratação Livre (ACL), impactando diretamente o planejamento financeiro das empresas. Embora o mercado livre continue oferecendo oportunidades de redução de custos e flexibilidade contratual, o aumento dos encargos reforça a necessidade de uma visão mais abrangente da gestão energética, incorporando aspectos regulatórios, tributários e financeiros à tomada de decisão.

Lições da crise energética europeia

O debate sobre proteção energética ganhou relevância internacional após a crise enfrentada pela Europa em 2022. A disparada dos preços do gás natural provocou aumentos históricos nos custos de energia, levando diversas indústrias intensivas em consumo energético a reduzir ou interromper operações por inviabilidade econômica.

Setores como fertilizantes, alumínio e produtos químicos foram alguns dos mais afetados. Ao mesmo tempo, empresas que possuíam contratos de longo prazo vinculados a fontes renováveis ou estruturas de proteção mais robustas conseguiram preservar competitividade e manter maior estabilidade financeira.

O episódio ampliou a participação dos conselhos de administração e das áreas de tesouraria nas decisões relacionadas à contratação de energia, movimento que começa a ganhar força também no mercado brasileiro.

Mercado livre amadurece e incorpora novas camadas de risco

O crescimento acelerado do Ambiente de Contratação Livre transformou profundamente a dinâmica de consumo de energia no país. Atualmente, mais de 85 mil consumidores já atuam no ACL, respondendo por aproximadamente 40% de toda a energia consumida no Brasil. Apesar da expansão, especialistas observam que grande parte das migrações recentes ainda foi motivada principalmente pela busca de economia imediata, sem uma estratégia estruturada de gestão de exposição de longo prazo.

A tendência é que esse debate ganhe ainda mais relevância com a ampliação gradual da abertura do mercado e a entrada de consumidores de menor porte no ambiente livre. Ao mesmo tempo, a crescente participação das fontes solar e eólica na matriz elétrica adiciona novas variáveis à gestão dos contratos. Entre elas está o curtailment, fenômeno que ocorre quando usinas renováveis precisam reduzir ou interromper a geração devido a restrições na rede de transmissão.

Esse cenário pode gerar impactos sobre garantias físicas, cumprimento contratual e gestão de portfólio, exigindo mecanismos mais sofisticados de mitigação de riscos por parte de consumidores, comercializadoras e investidores.

Da redução de custos para a proteção de caixa

A evolução do mercado livre sinaliza uma mudança de foco para os próximos anos. Mais do que buscar energia mais barata, as empresas deverão concentrar esforços em construir estruturas capazes de reduzir volatilidade e proteger resultados financeiros. Nesse contexto, contratos de longo prazo, autoprodução, geração renovável dedicada e instrumentos de hedge tendem a ganhar protagonismo nas estratégias corporativas.

Ao abordar essa mudança de mentalidade, Philipe Kilzer destaca que a principal preocupação das empresas não deve estar restrita ao preço da energia, mas à exposição financeira decorrente das oscilações do mercado: “A pergunta que os conselhos de administração devem se fazer hoje não é mais ‘quanto custa a nossa energia’, mas sim qual é o tamanho da nossa exposição e o real impacto disso na nossa geração de caixa”

A mensagem reflete uma tendência observada em mercados mais maduros: energia deixa de ser uma variável exclusivamente operacional para ocupar espaço crescente nas decisões estratégicas relacionadas à gestão de riscos, competitividade e sustentabilidade financeira das organizações.

Destaques da Semana

TCU Chancela Acordo da MEZ Energia e Cria Marco para Soluções Consensuais em Concessões de Transmissão

Decisão unânime permite reequilíbrio econômico de lote estratégico em...

TRF1 mantém indenização da RBSE, mas corta remuneração de capital e pressiona transmissoras

Decisão da 7ª Turma determina devolução tarifária de valores...

Além do SIN: B4 atinge R$ 12 bi em ativos e estrutura estreia do carbono azul no Brasil

Com 4,5 milhões de toneladas negociadas em 2026, plataforma...

Climatempo alerta: Combinação de El Niño e queimadas eleva risco de desligamentos no SIN

NOAA aponta probabilidade superior a 80% para a instalação...

Artigos

Últimas Notícias