Nova etapa do Move Brasil amplia crédito para caminhões e ônibus com padrão Proconve P-8, fortalece eletrificação urbana e abre novas oportunidades para o setor elétrico
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) abriu uma nova frente de financiamento voltada à modernização do transporte rodoviário brasileiro com forte impacto sobre a agenda de descarbonização e eletrificação da mobilidade. A instituição inicia nesta sexta-feira (29) o recebimento de propostas para o programa BNDES Mais Mobilidade, linha de crédito que disponibiliza R$ 21,2 bilhões para renovação de frotas de caminhões, ônibus e implementos rodoviários.
A iniciativa operacionaliza a segunda fase do programa Move Brasil, Caminhões e Ônibus (Move Brasil 2), coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), e surge em um momento de aceleração das políticas públicas voltadas à redução de emissões no transporte pesado.
A nova etapa do programa exige que os veículos financiados atendam aos padrões da fase Proconve P-8, equivalente ao Euro 6, elevando o nível de eficiência energética e controle de emissões da frota nacional. O desenho também amplia espaço para ônibus elétricos, biocombustíveis avançados e novas soluções energéticas associadas à mobilidade urbana.
A estrutura financeira combina R$ 14,5 bilhões oriundos do Tesouro Nacional com até R$ 6,7 bilhões aportados pelo próprio BNDES. Os recursos serão operados de forma indireta por meio da rede de instituições financeiras credenciadas pelo banco.
Eletrificação de ônibus amplia oportunidades no setor elétrico
O principal vetor energético da nova linha está na reserva de R$ 2 bilhões exclusivamente destinada à aquisição de ônibus e micro-ônibus urbanos. O movimento ocorre em meio à pressão crescente sobre grandes cidades brasileiras para reduzir emissões no transporte público e acelerar metas de descarbonização das frotas municipais.
Na prática, o avanço dos ônibus elétricos altera profundamente a dinâmica de consumo energético urbano. Operações de recarga em garagens demandam infraestrutura elétrica de alta potência, expansão de redes de distribuição e contratos estruturados de fornecimento de energia renovável no Ambiente de Contratação Livre (ACL).
O setor elétrico também acompanha com atenção o potencial de integração futura das frotas eletrificadas a tecnologias Vehicle-to-Grid (V2G), nas quais os veículos funcionam como ativos móveis de armazenamento energético, contribuindo para flexibilidade e estabilidade do sistema.
Ao detalhar os objetivos estratégicos do programa, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destacou o papel da iniciativa na modernização da infraestrutura logística e no estímulo à indústria nacional: “O programa vai modernizar a frota brasileira, reduzir o custo logístico, melhorar o transporte de cargas e passageiros, aumentar da segurança nas estradas e estimular a indústria nacional. Estamos combinando eficiência econômica, sustentabilidade e inclusão produtiva, com atenção especial aos transportadores autônomos e cooperados.”
Proconve P-8 acelera eficiência energética e uso de combustíveis de menor emissão
Além da eletrificação, a nova linha de financiamento deve acelerar a adoção de motores mais eficientes e combustíveis com menor intensidade de carbono. O enquadramento obrigatório no Proconve P-8 restringe o acesso ao crédito a veículos com padrões avançados de controle de emissões atmosféricas, aproximando o Brasil das exigências ambientais internacionais aplicadas ao transporte pesado.
O movimento beneficia diretamente mercados associados ao diesel verde, biodiesel de maior mistura e combustíveis renováveis utilizados como solução intermediária enquanto a eletrificação integral do transporte rodoviário de longa distância ainda enfrenta limitações operacionais e econômicas.
A renovação da frota também tende a reduzir o consumo específico de combustível por tonelada transportada, diminuindo custos operacionais e emissões associadas à logística nacional.
O programa prevê ainda R$ 2 bilhões específicos para transportadores autônomos e cooperados, ampliando o alcance da política de renovação de ativos. No caso de caminhões seminovos, os veículos elegíveis devem ter fabricação a partir de 2012 e conformidade com a fase P-7 do Proconve.
Mercado reage à expansão do crédito para mobilidade
O governo federal avalia que o programa deve gerar impactos relevantes sobre toda a cadeia automotiva, incluindo fabricantes, concessionárias, operadores logísticos e fornecedores de tecnologia.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que a ampliação do escopo do Move Brasil fortalece simultaneamente os objetivos industriais, ambientais e econômicos da política pública: “Essa nova fase do Move Brasil incorpora ônibus e implementos rodoviários, além de caminhões, incentivando a renovação de frota, a sustentabilidade e os investimentos. É fruto do acerto das recentes medidas definidas pelo presidente Lula. É um programa extremamente exitoso, com muitos efeitos positivos não só para o beneficiário final, mas ao longo de toda a cadeia automotiva, aumentando a produção da indústria, as vendas nas concessionárias e, com isso, fortalecendo também os empregos nesse setor.”
A expectativa do mercado é de forte demanda pela nova linha, impulsionada pelo desempenho acelerado da etapa anterior do programa. Entre dezembro de 2025 e maio de 2026, o Move Brasil 1 movimentou mais de R$ 9,7 bilhões em 8.444 operações de crédito, financiando aproximadamente 15,6 mil caminhões.
O segmento corporativo liderou as contratações, concentrando R$ 9,4 bilhões, enquanto transportadores autônomos responderam por R$ 337 milhões.
Estrutura de crédito busca ampliar liquidez do setor
As condições financeiras do programa foram estruturadas para ampliar a capacidade de investimento de diferentes perfis de operadores de transporte. As taxas giram em torno de 13% ao ano, patamar considerado competitivo para financiamento de bens de capital diante do atual cenário macroeconômico.
O limite de crédito por cliente foi fixado em R$ 50 milhões, sem exigência de valor mínimo de contratação. Os prazos variam conforme o perfil operacional:
- Transportadores autônomos e cooperados poderão acessar financiamento com prazo total de até 120 meses e carência de até 12 meses;
- Empresas de transporte de passageiros terão prazo de até 120 meses e carência máxima de seis meses;
- Empresas de transporte de cargas contarão com prazo de até 60 meses e carência de até seis meses.
O programa também permite financiamento de despesas acessórias, incluindo seguros e taxas vinculadas a fundos garantidores, para empresas com receita operacional bruta anual de até R$ 300 milhões.
A percepção no mercado é de que a nova rodada de crédito pode acelerar uma transformação estrutural da mobilidade rodoviária brasileira, com impactos diretos sobre emissões corporativas de Escopo 3, demanda elétrica urbana, expansão da infraestrutura de recarga e crescimento do mercado de energia renovável associado ao transporte pesado.



