Relator adia parecer após novo pedido do governo, enquanto debate sobre intervenção estatal e modelo de exploração redefine rumos da transição energética no Brasil
O avanço do marco legal dos minerais críticos e estratégicos no Brasil ganhou novos contornos políticos e econômicos nesta semana. O deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), relator do Projeto de Lei 2.780/2024, decidiu adiar a apresentação de seu parecer final para o dia 4 de maio, atendendo a um pedido do Poder Executivo para ampliar o prazo de contribuições ao texto.
A postergação ocorre em um momento sensível para a agenda de transição energética, em que o país busca estruturar uma política robusta para exploração de minerais essenciais como lítio e terras raras, insumos estratégicos para baterias, eletrificação e tecnologias de baixo carbono.
A decisão sinaliza que o governo pretende influenciar de forma mais direta o desenho final do marco regulatório, elevando o nível de negociação política em torno de um tema considerado crítico para a competitividade industrial brasileira.
Transição energética pressiona definição de regras
A criação de um marco regulatório para minerais críticos é vista como peça-chave para o posicionamento do Brasil na cadeia global da transição energética. A crescente demanda por esses insumos, impulsionada pela expansão de energias renováveis, mobilidade elétrica e armazenamento de energia, exige regras claras para exploração, processamento e comercialização.
Nesse contexto, o adiamento do relatório revela uma tentativa de alinhar interesses entre governo, Congresso e mercado, evitando ruídos que possam comprometer a atração de investimentos.
Ao comentar a prorrogação do prazo, o relator Arnaldo Jardim destacou o esforço de construção de consenso: “Protocolarei meu parecer na próxima segunda-feira, dia 4 de maio. Espero que este texto já reflita o amadurecimento dessas conversas e os aperfeiçoamentos que estão por vir.”
A sinalização reforça que o texto final deverá incorporar ajustes relevantes, refletindo uma convergência entre política industrial, segurança energética e agenda climática.
Debate sobre estatal e partilha perde força
Um dos pontos mais controversos do debate recente envolvia propostas de maior intervenção estatal no setor mineral. Entre elas, a criação da Terrabras, uma empresa pública voltada à exploração de terras raras, e a adoção de um regime de partilha semelhante ao aplicado no pré-sal.
Essas ideias geraram forte reação no mercado, sobretudo por potenciais impactos sobre segurança jurídica e previsibilidade regulatória. Investidores e agentes da cadeia mineral demonstraram preocupação com o risco de aumento da intervenção estatal em um setor altamente intensivo em capital.
Nos bastidores, a resistência do relator e de lideranças políticas foi decisiva para esfriar essas iniciativas. Após interlocuções com o Ministério de Minas e Energia, a tendência é que o texto final abandone esses modelos, priorizando uma abordagem mais alinhada à lógica de mercado.
Ao explicar a decisão de adiar o relatório, Arnaldo Jardim destacou a necessidade de aprofundar o diálogo institucional: “Optamos por esse adiamento para intensificar o diálogo com o governo e garantir que suas sugestões sejam formalizadas em uma proposta robusta.”
Segurança jurídica e atração de investimentos no centro da agenda
A expectativa do setor é que o novo marco legal entregue previsibilidade regulatória, especialmente em temas como licenciamento ambiental, incentivos à pesquisa mineral e estímulos ao processamento local de minerais estratégicos.
A ausência de regras claras tem sido apontada como um dos principais entraves para o avanço de projetos no Brasil, mesmo diante do potencial geológico relevante do país. Nesse sentido, o PL 2.780/2024 é visto como uma oportunidade para reposicionar o Brasil como protagonista na cadeia global de valor da transição energética.
A tendência é que o texto priorize mecanismos de parceria com o setor privado, evitando modelos considerados intervencionistas e reforçando a competitividade internacional.
Próximos passos e impacto para o setor elétrico
O protocolo do parecer no início de maio marcará o início de uma tramitação acelerada na Câmara dos Deputados, sob a liderança do presidente Hugo Motta (Republicanos-PB), que tem priorizado pautas ligadas à agenda de desenvolvimento sustentável.
Para o setor elétrico, o desfecho desse debate é estratégico. Minerais críticos são insumos fundamentais para tecnologias como baterias, redes inteligentes e sistemas de armazenamento, que sustentam a expansão das energias renováveis e a modernização do sistema elétrico.
A definição do marco regulatório poderá, portanto, influenciar diretamente a capacidade do país de avançar em projetos de eletrificação, armazenamento e descarbonização, pilares centrais da transição energética brasileira.



