Gigantes dos caminhões atrasam eletrificação e abrem espaço para avanço chinês, aponta relatório

Com mais de 80% do mercado global, Daimler Truck, Traton e Grupo Volvo enfrentam pressão para acelerar produção de caminhões elétricos diante da expansão de concorrentes asiáticos

A eletrificação do transporte pesado entrou definitivamente na agenda global, mas o ritmo dessa transformação ainda levanta preocupações. Um novo relatório da iniciativa Idle Giants indica que as principais montadoras de caminhões do mundo podem estar atrasando a transição energética e, com isso, abrindo espaço para a rápida ascensão de fabricantes chinesas.

As líderes globais Daimler Truck, Traton e Grupo Volvo concentram mais de 80% do mercado mundial de caminhões. Esse domínio lhes confere papel decisivo na eletrificação do setor. No entanto, o estudo aponta que o avanço ainda é insuficiente diante da urgência climática e das mudanças tecnológicas em curso.

Fabricantes chinesas aceleram e ganham competitividade

Enquanto as montadoras tradicionais avançam de forma gradual, empresas chinesas vêm adotando uma estratégia agressiva de escala e preço. Esse movimento já começa a impactar mercados emergentes, incluindo o Brasil.

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A SANY, por exemplo, iniciou operações no país no fim de 2025 com caminhões elétricos na faixa de R$ 1,8 milhão a R$ 1,9 milhão, valores significativamente inferiores aos praticados por concorrentes tradicionais, como a Scania, cujos modelos equivalentes giram em torno de R$ 2,5 milhões.

Outros players também ampliam presença global. A XCMG lançou uma linha completa de caminhões elétricos, reforçando a estratégia de expansão internacional.

O avanço segue uma tendência já consolidada no segmento de ônibus elétricos na América Latina. A BYD lidera com cerca de 44% da frota regional, seguida por Foton e Yutong. No total, fabricantes chinesas respondem por aproximadamente 85% dos ônibus elétricos em operação na região.

Atraso tecnológico e desafio estrutural

Apesar de já oferecerem modelos elétricos em seus portfólios, as montadoras europeias ainda enfrentam desafios relevantes para escalar a produção. O segmento de caminhões pesados apresenta maior complexidade tecnológica, principalmente devido à alta demanda energética e às exigências operacionais.

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Esse cenário explica parte do atraso: a eletrificação de veículos pesados ocorre, em média, entre seis e oito anos depois do observado em veículos leves. Ainda assim, o gap em relação à China se amplia, já que o país asiático consolidou produção em larga escala e segue expandindo sua presença global.

Pressão por mudança estratégica nas montadoras tradicionais

A necessidade de aceleração na transição energética é destacada por Clemente Gauer, membro da coalizão Gigantes Elétricos. O especialista aponta riscos claros para as montadoras que mantêm foco em tecnologias convencionais:

“alguns grandes fabricantes europeus ainda estão avançando muito lentamente na transição energética em países em desenvolvimento, mantendo o foco na produção de veículos pesados com motor de combustão interna. Ao mesmo tempo, ao adiarem a descarbonização, essas empresas correm o risco de perder participação de mercado para novas empresas, que já demonstram liderança na eletrificação do setor. Esse cenário ressalta a necessidade de uma mudança estratégica, focada na redução de preços para expandir o mercado, no aumento do investimento em veículos elétricos e no apoio a regulamentações capazes de viabilizar a transição em larga escala”.

A análise reforça que preço, escala produtiva e ambiente regulatório serão determinantes para o futuro do setor.

Brasil surge como mercado estratégico para caminhões elétricos

O Brasil desponta como uma das principais oportunidades para expansão da eletromobilidade pesada. Apesar de ainda estar em estágio inicial, o perfil logístico nacional favorece a adoção: grande parte das rotas de transporte se concentra em distâncias entre 100 e 600 km, já compatíveis com a autonomia dos caminhões elétricos disponíveis atualmente.

Projetos estruturantes começam a ganhar forma. Um dos principais exemplos é o corredor verde e-Dutra, que prevê infraestrutura de recarga e a operação de mil caminhões elétricos entre Rio de Janeiro e São Paulo até 2030.

O próprio Clemente Gauer destaca o papel da indústria nesse processo: “A infraestrutura já está avançando e a tecnologia de caminhões elétricos já permite percorrer grandes distâncias, mas ainda falta um passo decisivo das próprias montadoras, que concentram a maior parte do mercado: ampliar a produção no Brasil. A escala é o fator determinante nessa transição, pois volumes maiores reduzem os custos por veículo e garantem vantagens competitivas difíceis de replicar. Ao desbloquear esse volume, os fabricantes podem viabilizar economias de escala e se posicionar para atender aos padrões de emissão”.

Impacto ambiental e econômico reforça urgência da transição

Embora representem apenas 3% da frota, os caminhões pesados são responsáveis por cerca de 30% das emissões de CO₂ do transporte rodoviário. O impacto vai além do clima: o relatório estima que essas emissões podem gerar até US$ 1,4 trilhão em custos globais de saúde ao longo de uma década.

Nesse contexto, os caminhões elétricos oferecem benefícios duplos. Além de reduzirem significativamente a poluição associada ao diesel, apresentam custos operacionais mais baixos e maior eficiência energética.

Outro fator estratégico é a proteção contra a volatilidade dos preços dos combustíveis, um tema cada vez mais relevante em cenários de instabilidade geopolítica.

Mercado em expansão e disputa global por liderança

A demanda por caminhões elétricos já mostra sinais claros de aceleração. Em 2024, as vendas globais cresceram quase 80%, e apenas no primeiro semestre de 2025 foram comercializadas cerca de 90 mil unidades, com forte concentração na China.

O desempenho reforça a liderança do país na transição energética do transporte pesado e explica a ofensiva de suas fabricantes nos mercados internacionais. Para as montadoras tradicionais, o cenário impõe uma escolha estratégica: acelerar investimentos e produção ou correr o risco de perder protagonismo em um dos segmentos mais relevantes da descarbonização global.

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