Em nota oficial, Cofecon alerta para vulnerabilidade no suprimento de diesel e impacto do Estreito de Ormuz nas cadeias globais; matriz renovável e reservas cambiais atuam como amortecedores de crise
A escalada dos conflitos no Oriente Médio projeta sombras sobre a trajetória de recuperação econômica do Brasil em 2026. Em nota oficial divulgada nesta segunda-feira (23/03), o Conselho Federal de Economia (Cofecon) traçou um diagnóstico contundente sobre os reflexos da instabilidade geopolítica nacional.
O documento destaca que, embora a Selic tenha sido ajustada para 14,75% ao ano, o país ainda convive com uma taxa de juros real superior a 10%, um dos patamares mais elevados do mundo frente a uma inflação controlada em 3,8%.
O epicentro da crise energética global reside no Estreito de Ormuz. Por este corredor logístico transita parcela vital da produção mundial de petróleo, e as restrições de tráfego na região têm gerado um efeito cascata: elevação nos custos de frete, lentidão na entrega de insumos e pressão direta sobre a produção de fertilizantes, componente essencial para o agronegócio brasileiro.
Política Monetária e o “Freio” do Federal Reserve
O cenário externo forçou uma mudança de postura das autoridades monetárias. Em 18 de março, o Federal Reserve (Fed) interrompeu o ciclo de flexibilização, mantendo os juros americanos entre 3,5% e 3,75% ao ano, citando a volatilidade de preços decorrente dos ataques armados. No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) seguiu a cautela global com um corte de apenas 0,25 ponto percentual.
Ao avaliar o impacto desse ambiente restritivo sobre o financiamento de projetos e o consumo, o Cofecon aponta que a manutenção de juros elevados compromete a capacidade produtiva: “O nível atual da Selic significa uma taxa real de juros superior a 10% ao ano, o que encarece o financiamento das empresas e das famílias.”
Energia: A Dualidade entre a Dependência do Diesel e a Força das Renováveis
O setor energético brasileiro encontra-se em uma posição híbrida. Se por um lado o país celebra a autonomia na produção de petróleo bruto, por outro, o relatório expõe uma ferida exposta: a dependência de 25% na importação de óleo diesel. Essa exposição torna o frete interno e a logística nacional reféns das cotações internacionais de Brent.
Entretanto, a configuração da matriz energética brasileira, com 50% de fontes renováveis (hídrica, biomassa, solar e eólica), oferece uma resiliência rara em comparação a outras economias. O Cofecon sugere que a crise pode acelerar a substituição de combustíveis fósseis, visto que a valorização do petróleo amplia a viabilidade econômica do etanol no mercado doméstico.
Resiliência Externa e o Papel do Estado
Diferente dos choques do petróleo do século XX, o Brasil de 2026 possui defesas robustas. Com reservas cambiais na casa dos US$ 365 bilhões, o país tem instrumentos para mitigar fugas de capital e volatilidade extrema no câmbio. Contudo, o Conselho defende que a proteção financeira deve vir acompanhada de coordenação estratégica entre os setores público e privado.
A autarquia enfatiza que o momento exige uma articulação fina para que programas como o Plano Nova Indústria Brasil não sejam asfixiados pelos custos de produção: “O cenário geopolítico-econômico impõe desafios que exigem o aprimoramento do papel do Estado, das políticas públicas e dos bancos estatais.”
O desfecho de 2026 dependerá da “recalibragem” dos juros e da evolução do conflito no Oriente Médio. Enquanto o Estreito de Ormuz permanecer como a variável central de risco, o mercado de energia brasileiro deverá equilibrar a gestão de custos do diesel com a aceleração estratégica de sua matriz limpa para garantir o crescimento do PIB.



