O MW como Ativo Imobiliário: A Nova Fronteira dos Data Centers no Brasil

Especialistas da Capacity analisam por que o custo da infraestrutura elétrica já supera a construção civil e como tecnologias de resfriamento líquido estão moldando o futuro dos ativos digitais no Brasil.

No atual estágio da economia global, o metro quadrado deixou de ser a unidade de medida principal para o sucesso do setor de Real Estate digital. Com a explosão da Inteligência Artificial (IA) e o apetite voraz dos hyperscalers por capacidade de processamento, o Megawatt (MW) assumiu o papel de protagonista. Nesse cenário, o Brasil, dono de uma das matrizes elétricas mais limpas e resilientes do planeta, encontra-se em uma posição de vantagem estratégica sem precedentes.

Mas a abundância de recursos naturais é apenas metade da equação. Para transformar vento e sol em bits e inteligência, o setor enfrenta desafios complexos: da saturação da rede básica em polos saturados à necessidade de novas tecnologias de resfriamento líquido para suportar racks de alta densidade.

Para entender como a energia deixou de ser um custo operacional para se tornar o fator determinante no funding e na localização de novos empreendimentos, o Cenário Energia conversou com dois especialistas da Capacity, plataforma líder global em infraestrutura de conectividade: Vanessa Barbe (especialista em tendências e infraestrutura) e Jin Cheng (focado em investimentos e IA).

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Nesta entrevista exclusiva, eles detalham por que o “custo da subestação” já rivaliza com o custo da construção civil e como a estratégia de suprimento renovável tornou-se o principal critério de bancabilidade para o capital internacional que mira a América Latina em 2026.

Cenário Energia – Historicamente, o setor de Telecom focava em latência e conectividade. Hoje, vemos que o “combustível” (energia) é o que define onde um Data Center será construído. Como a Capacity vê o papel do Brasil nesse cenário, dado que possuímos uma das matrizes mais limpas do mundo?

Vanessa Barbe – Na perspectiva da Capacity, essa mudança joga diretamente a favor dos pontos fortes do Brasil. Com uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, o Brasil está deixando de ser apenas um mercado de conectividade para se tornar um destino de infraestrutura digital orientado pela energia.

Dito isso, energia não existe de forma isolada. A conectividade, tanto por cabos submarinos quanto por fibra terrestre, é o facilitador essencial que transforma energia em capacidade utilizável e escalável. Energia sem conectividade gera ativos ociosos; conectividade sem energia limita o crescimento.

A vantagem única do Brasil é que possui ambos: energia renovável abundante, menor saturação da rede elétrica em comparação com os EUA e a Europa, e um ecossistema de fibra e cabos submarinos em rápida expansão. Essa convergência é exatamente o motivo pelo qual o Capacity LATAM desempenha um papel tão importante, reunindo energia, data centers, conectividade e investimento para posicionar o Brasil — e a América Latina de forma mais ampla — como um polo confiável para a próxima geração de infraestrutura digital sustentável e preparada para IA.

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Cenário Energia – O Capacity LATAM trará discussões sobre eficiência energética. Quais são as tecnologias de resiliência operacional que estão sendo mais adotadas globalmente para reduzir o consumo de refrigeração em ambientes de IA?

Vanessa Barbe – O Capacity LATAM dará grande destaque à eficiência energética e à resiliência operacional, especialmente à medida que as cargas de trabalho de IA elevam as densidades por rack e os requisitos de resfriamento a novos extremos.

Nossas pesquisas com operadores de data centers, hyperscalers e fornecedores mostram que o resfriamento líquido direto ao chip tornou-se a solução mais amplamente implantada para ambientes de IA em nível global, pois remove o calor na fonte, reduz a demanda geral de resfriamento e suporta densidades de potência muito mais altas do que o resfriamento tradicional a ar.

Também estamos vendo o resfriamento por imersão avançar decisivamente do estágio de prova de conceito para implantação comercial, especialmente em ambientes com forte carga de IA e em climas mais quentes, onde sistemas baseados em ar rapidamente atingem seus limites.

Além disso, arquiteturas de resfriamento em circuito fechado estão surgindo como uma tecnologia-chave de resiliência, particularmente em regiões com estresse hídrico, permitindo que operadores minimizem o consumo de água enquanto mantêm a confiabilidade em escala.

Essas tecnologias refletem uma mudança mais ampla na indústria: sair do modelo de projeto para carga máxima e avançar para um modelo orientado por eficiência, flexibilidade e resiliência de longo prazo. Muitas dessas implementações reais e aprendizados serão explorados em profundidade durante o painel Energy & Data Centre Keynote, em 18 de março, no Capacity LATAM, quando discutiremos como os operadores estão preparando a infraestrutura de IA para o futuro sem comprometer a sustentabilidade.

Cenário Energia – Grandes hyperscalers têm metas net-zero agressivas. O Brasil pode se tornar o principal hub de “Green Data Centers” da América Latina devido ao nosso potencial eólico e solar?

Vanessa Barbe – O Brasil está se tornando rapidamente o “hub verde” de data centers da América Latina, mas o potencial renovável, por si só, não é suficiente.

Os recursos eólicos e solares do Brasil, o mercado ativo de PPAs e os investimentos em hyperscale oferecem uma vantagem estrutural. No entanto, restrições na rede elétrica, licenciamento, estresse hídrico e execução da conectividade são fatores limitantes.

A vantagem renovável do Brasil precisa ser acompanhada por investimentos em transmissão e modernização da rede, caso contrário os projetos correm risco de atrasos.

Com a execução adequada da infraestrutura, o Brasil tem uma oportunidade real de transformar sua abundância renovável em liderança de longo prazo em data centers verdes na América Latina — e essa é exatamente a conversa que o Capacity LATAM foi desenhado para impulsionar.

Cenário Energia – A Inteligência Artificial exige uma densidade de potência por rack muito superior à computação tradicional. Do ponto de vista de investimento, o custo da infraestrutura elétrica (subestações, redundância) já supera o custo da construção civil nos novos projetos?

Jin Cheng – A comparação não é tão simples.

Em muitos projetos voltados para IA e alta densidade, na minha opinião — e acredito que muitos especialistas do setor concordariam — a parte mais difícil já não é o concreto e a estrutura metálica. O desafio agora é garantir e entregar megawatts confiáveis.

À medida que os racks alcançam densidades muito mais altas, o caminho crítico da maioria dos projetos e uma parcela crescente do risco de Capex migram para o acesso à rede elétrica, subestações, transformadores, quadros de distribuição, projetos de redundância e as obras de transmissão necessárias para que a energia esteja disponível no prazo e com capacidade de manutenção adequada.

Do ponto de vista do investidor, isso tem duas implicações:

  • A entrega de energia está se tornando a principal variável de análise, principalmente em termos de prazo e previsibilidade, e não apenas de execução da construção.
  • Projetos ao redor do mundo precisam cada vez mais de planos de energia sólidos — compostos por compromisso da concessionária + estratégia de backup/redudância + faseamento claro. Caso contrário, o custo da construção torna-se quase irrelevante, pois o ativo não pode ser locado sem energia.

Isso está alinhado com o que profissionais de financiamento e analistas de infraestrutura vêm destacando: os data centers estão evoluindo para campi de centenas de MW, e as estruturas de financiamento giram cada vez mais em torno da estratégia de energia, incluindo co-localização com geração ou contratação dedicada de fornecimento.

Cenário Energia – Onde está o maior desafio hoje para o investidor de Data Centers no Brasil: na disponibilidade de fibra óptica ou na viabilidade de conexão com a Rede Básica de energia?

Jin Cheng – Minha resposta honesta é: a fibra é muito importante, mas a viabilidade de energia é o fator determinante para a próxima onda de grandes implantações de IA no Brasil, especialmente projetos hyperscale ou em formato de campus.

Embora eu não me considere especialista no mercado brasileiro, falando de uma perspectiva comparável globalmente, acredito que nos principais mercados Tier-1 do Brasil — especialmente São Paulo — a fibra geralmente não é a principal restrição. A malha de fibra terrestre do Brasil é ampla, e os grandes hubs possuem ecossistemas de conectividade profundos.

O desafio mais decisivo para investimento costuma ser a energia:

  • Se é possível garantir capacidade firme na localização adequada
  • Quanto tempo levarão as conexões ou atualizações da rede
  • Qual nível de redundância é viável sem comprometer prazo e custo

É por isso que vemos o Brasil se posicionando em torno da oferta renovável e de projetos já “energizados”, e por que os maiores desenvolvimentos novos cada vez mais combinam o plano do data center com expansão dedicada de energia ou estratégia explícita de suprimento elétrico.

Cenário Energia – Como o mercado de capitais está avaliando projetos de infraestrutura digital que não possuem contratos de longo prazo (PPAs) de energia renovável atrelados? Isso já é um pré-requisito para o funding?

Jin Cheng – Não é um pré-requisito rígido universal, mas tornou-se um forte fator de aumento de bancabilidade. Para algumas bases de investidores institucionais com mandatos ESG, está cada vez mais próximo de ser uma exigência implícita.

Como os investidores estão analisando atualmente:

  • Se a base de clientes (hyperscalers / grandes usuários de IA) exige atributos renováveis, o projeto precisa de uma rota crível: PPA de longo prazo, tarifa verde da concessionária, certificados de energia renovável ou geração co-localizada.
  • Credores e assessores esperam cada vez mais que a estratégia de suprimento energético seja contratualmente visível, às vezes até refletida nos contratos de locação — por exemplo, quando o locatário especifica coordenação de PPA ou estratégia de fornecimento.
  • A direção do mercado é clara: grandes compradores estão firmando acordos substanciais de energia renovável vinculados ao crescimento da carga dos data centers, e os PPAs continuam sendo um mecanismo comum para apoiar metas de sustentabilidade e estabilidade de preços.

Na prática:

  • Para projetos menores de colocation empresarial: às vezes é possível financiar sem PPAs longos, se houver receitas contratadas fortes e uma postura ESG crível.
  • Para grandes projetos de IA / hyperscale: não ter uma estratégia renovável tende a resultar em maior percepção de risco, potencialmente maior custo de capital e aprovações mais difíceis em comitês de investimento, especialmente quando há capital internacional envolvido.

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