Consumo nacional de energia elétrica cresce pelo segundo mês seguido e atinge 47,6 mil GWh em dezembro

Alta foi puxada pelas residências, impulsionadas por ondas de calor, enquanto indústria recuou e Sudeste foi a única região com retração

O consumo nacional de energia elétrica manteve trajetória de recuperação no fim de 2025 e registrou, em dezembro, a segunda alta consecutiva na comparação interanual. De acordo com a edição mais recente da Resenha Mensal do Mercado de Energia Elétrica, publicada em 29 de janeiro de 2026 pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo totalizou 47.616 GWh, crescimento de 0,5% em relação a dezembro de 2024.

O resultado confirma uma dinâmica de desaceleração da indústria e fortalecimento do consumo das classes residencial e comercial, em um contexto marcado por temperaturas acima da média, expansão da base de consumidores e mudanças estruturais no perfil de contratação, com avanço contínuo do mercado livre.

No acumulado dos últimos 12 meses, o consumo nacional atingiu 562.659 GWh, alta de 0,2% frente ao mesmo período anterior, sinalizando um ambiente de demanda ainda moderado, mas em processo de estabilização após ciclos de volatilidade hidrológica e econômica.

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Residências lideram alta impulsionadas pelo calor

O principal vetor de crescimento em dezembro foi o segmento residencial, que somou 15.857 GWh, alta de 4,1% na comparação com o mesmo mês de 2024. Trata-se da maior taxa mensal desde agosto e, pela terceira vez desde o início da série histórica em 2004, o consumo das residências superou o da indústria.

O avanço foi fortemente influenciado pelas temperaturas elevadas e pela ocorrência de ondas de calor, sobretudo nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que ampliaram o uso de aparelhos de climatização. A expansão da base de consumidores e a melhora nos indicadores de emprego e renda também contribuíram para o desempenho do segmento.

Regionalmente, o crescimento do consumo residencial foi disseminado, com destaque para o Sul (+6,3%) e o Centro-Oeste (+5,7%), seguidos por Sudeste (+3,8%), Nordeste (+3,0%) e Norte (+2,5%). No recorte estadual, sobressaíram Alagoas (+9,7%), Goiás (+8,9%), Rio Grande do Sul (+8,8%) e Paraíba (+8,7%).

Indústria recua e confirma perda de dinamismo

Em sentido oposto, o consumo industrial totalizou 15.754 GWh em dezembro, queda de 3,3% na comparação interanual. O recuo atingiu 24 dos 37 setores monitorados pela EPE, com destaque negativo para metalurgia e produtos químicos, dois dos segmentos mais eletrointensivos da economia brasileira.

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A metalurgia registrou retração de 8,0%, equivalente a uma redução de 335 GWh, influenciada principalmente pela queda de consumo em siderúrgicas e empresas de ferroligas em Minas Gerais. Já o setor químico apresentou a maior variação negativa percentual (-13,0%), com redução de 214 GWh, em função da hibernação de unidades eletrointensivas de cloro-soda em Alagoas, paradas de manutenção na Bahia e retração em São Paulo e Minas Gerais.

Do ponto de vista regional, o Sudeste liderou a queda industrial (-5,2%), seguido por Nordeste (-4,4%) e Norte (-1,9%). Apenas o Centro-Oeste (+2,7%) e o Sul (+0,4%) registraram expansão no consumo industrial no mês.

Comércio volta a crescer após meses de retração

O consumo de energia elétrica da classe comercial somou 9.001 GWh em dezembro, com crescimento de 0,5% na comparação com o mesmo mês de 2024, revertendo a trajetória de queda observada desde abril.

O desempenho acompanha a melhora nos indicadores de atividade econômica divulgados pelo IBGE. Em novembro de 2025, o volume de vendas do comércio varejista avançou 1,3% em termos interanuais, enquanto o setor de serviços cresceu 2,5% no mesmo período.

As temperaturas elevadas também exerceram papel relevante, ao aumentar a demanda por climatização em estabelecimentos comerciais. Regionalmente, o consumo cresceu no Centro-Oeste (+3,4%), Norte (+3,2%) e Sudeste (+2,4%), enquanto Sul (-4,2%) e Nordeste (-2,4%) registraram retração.

Centro-Oeste lidera crescimento regional

Na análise geográfica, o Centro-Oeste foi a região que apresentou o maior crescimento do consumo total, com alta de 5,5% em dezembro. Norte (+0,6%), Nordeste (+0,3%) e Sul (+0,2%) também registraram expansão, enquanto o Sudeste (-0,2%) foi a única região com retração.

O desempenho do Centro-Oeste reflete a combinação entre crescimento populacional, expansão da atividade agroindustrial e avanço do mercado livre de energia, fatores que têm alterado de forma estrutural o perfil de demanda da região.

Integração de Roraima reduz peso dos sistemas isolados

Um dos destaques estruturais da Resenha é a integração de Roraima ao Sistema Interligado Nacional (SIN), ocorrida em setembro de 2025. Com a conexão de 209 mil unidades consumidoras ao sistema, o consumo dos Sistemas Isolados caiu 48,2% em dezembro de 2025, na comparação com o mesmo mês de 2024.

Atualmente, ainda existem cerca de 449 mil unidades consumidoras atendidas por sistemas isolados no país, das quais pouco mais de 9 mil estão em Roraima. A tendência, segundo a EPE, é de redução progressiva desse contingente, com impactos relevantes sobre a eficiência do sistema elétrico e a diminuição do uso de geração térmica a diesel.

Mercado livre amplia participação e acelera migração

No recorte por ambiente de contratação, o mercado livre respondeu por 43,8% do consumo nacional em dezembro, com 20.874 GWh. O segmento apresentou crescimento de 2,7% no consumo e expressivo aumento de 28,9% no número de consumidores em relação a dezembro de 2024.

O Centro-Oeste liderou a expansão, com alta de 9,8% no consumo e crescimento de 50,4% no número de consumidores livres. O avanço reflete o efeito da abertura total do mercado para consumidores do grupo A (alta tensão), em vigor desde janeiro de 2024, conforme a Portaria MME nº 50/2022.

Somente em 2024, cerca de 26 mil consumidores migraram para o Ambiente de Contratação Livre (ACL), número que se repetiu em escala elevada em 2025, com mais 19 mil migrações.

Mercado regulado perde consumo, mas ganha clientes

Já o mercado regulado das distribuidoras respondeu por 56,2% do consumo nacional, com 26.742 GWh, e apresentou queda de 1,2% no consumo em dezembro. Em contrapartida, o número de consumidores cativos cresceu 1,7% no período.

Entre as regiões, apenas o Centro-Oeste registrou expansão do consumo no mercado regulado (+3,5%), enquanto o Norte teve o maior aumento no número de consumidores (+2,7%). O movimento reforça a tendência de migração gradual dos grandes consumidores para o mercado livre, com impactos diretos sobre o perfil de carga das distribuidoras.

Um retrato estrutural do sistema elétrico

Os dados da Resenha Mensal indicam que o consumo de energia no Brasil entra em 2026 com sinais claros de reconfiguração estrutural. O protagonismo crescente das residências, a desaceleração da indústria, a consolidação do mercado livre e a integração de sistemas isolados ao SIN redesenham o mapa da demanda elétrica no país.

Para o setor, o desafio passa a ser duplo: garantir expansão da infraestrutura para atender ao crescimento residencial e comercial, ao mesmo tempo em que se ajusta o modelo regulatório e econômico à nova realidade de consumo, marcada por maior volatilidade, descentralização e protagonismo dos consumidores.

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