Estudo integra Roadmap de Resiliência do setor elétrico e alerta para impactos de eventos extremos na eficiência, logística de combustíveis e segurança do suprimento de energia no Brasil
A adaptação do setor elétrico brasileiro às mudanças climáticas entrou em uma nova fase com a publicação, pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do fact sheet “Geração Termelétrica e Mudanças Climáticas”. O documento aprofunda a análise dos riscos físicos e operacionais associados ao aumento da temperatura média global e à intensificação de eventos climáticos extremos, com foco específico sobre o parque termelétrico nacional e seus efeitos sobre a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN).
O estudo faz parte da segunda etapa do Roadmap para Fortalecimento da Resiliência do Setor Elétrico, em atendimento à ação de curto prazo CP17 do Plano de Recuperação dos Reservatórios de Regularização (PRR). A iniciativa reforça uma preocupação crescente no planejamento energético: embora a matriz brasileira seja majoritariamente renovável, a geração térmica permanece essencial como fonte de flexibilidade, potência firme e segurança energética, sobretudo em cenários de estresse hidrológico ou picos de demanda associados a ondas de calor.
O papel estratégico das termelétricas em um sistema cada vez mais pressionado
Em 2024, a geração termelétrica respondeu por cerca de 20% da eletricidade produzida no país, segundo dados consolidados no estudo da EPE. No SIN, essas usinas funcionam como um “seguro sistêmico”, acionadas em momentos de escassez hídrica ou volatilidade das fontes renováveis variáveis. Nos Sistemas Isolados, especialmente na Região Norte, o papel é ainda mais crítico: as termelétricas seguem como a principal, e em muitos casos única, fonte de atendimento para aproximadamente 2,6 milhões de consumidores.
Apesar dessa relevância, o documento deixa claro que o parque térmico não está imune aos efeitos do clima. Projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e diretrizes do Plano Clima indicam aumento da frequência e da intensidade de ondas de calor, secas prolongadas e chuvas extremas, fenômenos que afetam diretamente tanto a eficiência dos equipamentos quanto a logística de suprimento de combustíveis.
Estresse térmico e perda de eficiência operacional
Um dos pontos centrais do fact sheet é o impacto do aumento da temperatura ambiente sobre o desempenho das usinas termelétricas. Temperaturas mais elevadas reduzem a densidade do ar e comprometem os sistemas de resfriamento, o que pode resultar em perda de potência nominal e queda de eficiência dos ciclos termodinâmicos. Em um sistema que já enfrenta crescimento estrutural da demanda, especialmente em horários de pico associados ao uso intensivo de ar-condicionado, essa perda de desempenho torna-se um fator adicional de risco para a operação.
O estudo destaca que esses efeitos tendem a ser mais pronunciados em determinadas tecnologias e regiões, exigindo uma avaliação mais criteriosa no planejamento da expansão e na definição de requisitos técnicos para novos empreendimentos.
Gargalos logísticos e vulnerabilidade no suprimento de combustíveis
Além dos impactos diretos sobre a geração, a EPE chama atenção para a vulnerabilidade das cadeias logísticas de abastecimento de combustíveis. Eventos extremos como secas severas, que reduzem a navegabilidade de rios, ou chuvas intensas, que comprometem rodovias e ferrovias, podem interromper ou encarecer significativamente o transporte de óleo diesel, gás natural, carvão e biomassa.
Esses riscos são particularmente relevantes nos Sistemas Isolados, onde a dependência de rotas fluviais e a ausência de alternativas logísticas ampliam a exposição a falhas de suprimento. O documento relembra episódios recentes de seca histórica na Amazônia, que dificultaram o transporte de combustíveis e exigiram medidas emergenciais para garantir o atendimento elétrico.
Planejamento energético sob a ótica da resiliência climática
Ao consolidar essas análises, a EPE defende a incorporação sistemática de cenários climáticos adversos nos estudos de planejamento energético. A proposta é que decisões sobre localização de novas usinas, escolha de tecnologias e desenho de leilões considerem não apenas critérios econômicos e ambientais tradicionais, mas também a capacidade de adaptação dos ativos a condições de estresse térmico, escassez hídrica e eventos extremos.
O fact sheet dialoga diretamente com instrumentos estruturantes do setor, como o Plano Decenal de Energia (PDE), o Plano Nacional de Energia (PNE 2050) e os estudos voltados aos Sistemas Isolados. Ao integrar o tema da resiliência climática a essas ferramentas, a EPE busca reduzir incertezas, mitigar riscos operacionais e fortalecer a segurança do suprimento em um contexto de mudanças climáticas irreversíveis.
Diretrizes para um parque térmico mais resiliente
Entre as recomendações apresentadas estão o incentivo ao desenvolvimento de tecnologias de resfriamento menos dependentes de água, o aprimoramento do monitoramento climático, a diversificação das rotas e fontes de suprimento de combustíveis e a adoção de critérios de resiliência no licenciamento e na regulação setorial. O estudo também aponta a necessidade de uma gestão de riscos cada vez mais quantitativa, capaz de traduzir ameaças climáticas em parâmetros técnicos e econômicos para a tomada de decisão.
Ao publicar o documento, a EPE sinaliza que a discussão sobre mudanças climáticas no setor elétrico brasileiro ultrapassa o debate sobre fontes renováveis e emissões. Trata-se, cada vez mais, de garantir que todos os elos da cadeia, inclusive a geração termelétrica, estejam preparados para operar de forma segura e eficiente em um ambiente climático mais volátil e imprevisível.



