Projeto da Embrapii impulsiona eletrificação de vans e posiciona retrofit como vetor estratégico da mobilidade sustentável no Brasil

Parceria entre USP e startup EcoSave comprova viabilidade técnica e econômica da conversão elétrica de veículos comerciais com tecnologia nacional

A eletrificação da frota de veículos comerciais leves começa a ganhar contornos mais concretos no Brasil, não apenas pela entrada de novos modelos elétricos no mercado, mas também pela consolidação de soluções de retrofit capazes de acelerar a transição energética no transporte. Um projeto desenvolvido pela Unidade Embrapii Powertrain da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Alpha 6, por meio da startup EcoSave, demonstra na prática que a conversão de vans a combustão para tração elétrica pode ser tecnicamente robusta, economicamente competitiva e alinhada às metas de descarbonização do país.

O foco da iniciativa é a eletrificação da van Renault Master, um dos veículos comerciais mais utilizados no Brasil. O projeto, estruturado em duas fases e apoiado pela Embrapii, resultou no desenvolvimento de um powertrain elétrico completo, com componentes majoritariamente nacionais e integração realizada por engenharia brasileira. Mais do que um protótipo isolado, o trabalho se posiciona como um caso de validação para um novo modelo de negócios em mobilidade sustentável.

Engenharia nacional como base do projeto

A iniciativa marcou um ponto de inflexão para a própria Unidade Embrapii Powertrain da USP. Segundo Bruno Angélico, pesquisador da unidade, o projeto representou um aprendizado relevante para a consolidação da eletrificação veicular no ambiente acadêmico-industrial brasileiro.

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“Foi o primeiro projeto nosso, da nossa Unidade Embrapii, com eletrificação de veículos. Acho que a gente aprendeu muito”, avalia.

A fala é contextualizada por um esforço inédito de integração entre pesquisa aplicada, testes laboratoriais e demandas reais do mercado. Diferentemente de projetos puramente conceituais, a proposta partiu da operação cotidiana do veículo, com foco em aplicações urbanas intensivas, como logística, transporte escolar e serviços.

Da simulação à validação em bancada

Na primeira fase do projeto, a equipe técnica se dedicou a um estudo detalhado de viabilidade. Foram mapeados percursos reais realizados pela van na zona sul da cidade de São Paulo, permitindo a construção de um ambiente de simulação que reproduzisse fielmente as condições de uso, topografia, ciclos de aceleração e frenagem.

A partir desses dados, foram especificados os principais componentes do powertrain elétrico, motor, inversor e conjunto de baterias, de forma a atender às exigências operacionais sem comprometer autonomia, desempenho ou segurança. A abordagem evitou o superdimensionamento, fator crítico para manter a competitividade econômica do retrofit.

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Na etapa seguinte, o foco recaiu sobre o desenvolvimento da lógica de controle do sistema, considerada o “cérebro” do powertrain elétrico. Angélico detalha que o desafio foi equilibrar eficiência energética e experiência do usuário.

“O que eu me refiro à lógica de controle é você controlar, por exemplo, quando a gente pisa no acelerador, qual é o torque que vai ser transferido para o sistema. Também buscamos deixar a resposta do sistema mais próximo do motor a combustão, pois quem vai dirigir essa van é o mesmo funcionário e a resposta do sistema não pode ser tão diferente”, explica.

Testes rigorosos e componentes nacionais

Os testes de validação foram realizados no Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, um dos poucos centros no país homologados para ensaios com máquinas elétricas. Componentes-chave, como motor e inversor fornecidos pela WEG, passaram por avaliações em bancada que simularam condições extremas de operação, garantindo confiabilidade e durabilidade do sistema.

O uso de tecnologia nacional não apenas reduz a dependência de soluções importadas, como também fortalece a cadeia produtiva local, abrindo espaço para escala industrial futura.

Escolha estratégica do modelo e viabilidade econômica

A seleção da Renault Master como plataforma de conversão reflete uma decisão estratégica baseada em mercado. Leandro Zillig, diretor da Alpha 6, contextualiza a escolha a partir da relevância do modelo no país.

“A Renault Master é líder no Brasil em venda de vans há nove anos. Então, a gente pegou um dos carros que as pessoas mais usam no Brasil hoje, e, por consequência, tem maior oportunidade de transformação. São quase 200 mil carros desse modelo rodando no Brasil”, afirma.

O kit de conversão desenvolvido substitui integralmente o motor a combustão por um sistema elétrico, preservando a estrutura do veículo e diversos periféricos originais. Essa abordagem reduz custos, tempo de adaptação e impacto ambiental associado à substituição completa da frota.

Do ponto de vista econômico, o retrofit se mostra altamente competitivo. A conversão permite reduzir entre 30% e 40% o custo em relação à aquisição de um veículo elétrico novo, além de prolongar a vida útil de ativos já existentes, fator decisivo para operadores de frota.

Alinhamento regulatório e metas ESG

O projeto se insere em um contexto regulatório cada vez mais favorável à eletrificação. Em cidades como São Paulo, a Lei Municipal nº 16.802 estabelece metas progressivas de eletrificação das frotas, exigindo que 50% dos veículos sejam elétricos até 2028. Nesse cenário, o retrofit surge como uma alternativa viável para cumprimento das exigências sem comprometer a sustentabilidade financeira das operações.

Além disso, empresas pressionadas por compromissos ESG encontram na conversão elétrica uma solução de rápida implementação para redução de emissões e custos operacionais.

Testes de rua e próximos passos

O protótipo da van elétrica já se encontra na fase final de preparação para testes em condições reais.

“O carro está pronto, a gente agora está na fase de teste de rua. Está previsto para rodar aproximadamente cinco mil quilômetros, para a gente realmente ver até a robustez de tudo aquilo que foi feito até aqui”, explica Zillig.

Os resultados preliminares indicam desempenho superior ao inicialmente projetado. A autonomia, estimada em 200 quilômetros, já alcança cerca de 250 quilômetros, impulsionada pela eficiência do sistema de regeneração de energia. Esse alcance supera com folga a média diária de uso de operadores como transporte escolar, que percorrem cerca de 120 quilômetros por dia.

Caminho aberto para a eletromobilidade no Brasil

A conclusão bem-sucedida do projeto evidencia que a eletrificação veicular no Brasil pode avançar por caminhos complementares à venda de veículos novos. Ao combinar engenharia nacional, redução de custos e alinhamento regulatório, o retrofit se consolida como uma alternativa estratégica para acelerar a descarbonização do transporte leve.

Mais do que uma solução pontual, a iniciativa da Embrapii, da USP e da EcoSave sinaliza um novo paradigma para a mobilidade sustentável no país, conectando inovação tecnológica, política industrial e transição energética.

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