Por Marcelo Figueiredo CEO da Fractal Networks
O avanço da digitalização e da descentralização da matriz elétrica vem transformando o papel do consumidor de energia.
Se antes o foco era apenas no fornecimento centralizado pelas distribuidoras, hoje a gestão energética no nível da carga ganha protagonismo.
Nesse contexto, surgem os sistemas behind the meter (BTM), que atuam no lado interno da instalação do consumidor, após o medidor da distribuidora, permitindo medições, controles e estratégias avançadas de uso da energia.
Essas soluções vêm ganhando espaço no Brasil e no mundo, especialmente em setores com alto consumo, como saneamento, indústrias eletrointensivas, comércio de grande porte e até em edificações residenciais inteligentes.
O que são Sistemas Behind the Meter
Sistemas BTM compreendem dispositivos e softwares que operam após o ponto de conexão com a rede elétrica.
Em vez de apenas registrar o consumo global de uma unidade, permitem medir, monitorar e controlar cargas, geração própria (fotovoltaica, biogás, eólica) e sistemas de armazenamento (BESS – Battery Energy Storage Systems).
Entre suas funções destacam-se:
- Otimização do uso de energia por setor ou equipamento;
- Controle de demanda e redução de picos tarifários;
- Maior aproveitamento de fontes renováveis locais;
- Garantia de qualidade e continuidade de energia em processos críticos;
- Criação de bases de dados detalhadas para análise de eficiência e planejamento.
Exemplos Práticos
- Brasil: companhias de saneamento estudam soluções para integrar geração a biogás e solar em estações de elevação e tratamento, usando medições internas e dados de processo para otimizar o uso de energia. Grandes shopping centers também vêm adotando plataformas BTM para reduzir custos com demanda contratada e horários de ponta;
- Estados Unidos: empresas como Stem e Sonnen oferecem soluções behind the meter com baterias inteligentes que equilibram consumo, geração solar e contratos de demanda, inclusive participando de mercados de flexibilidade;
- Europa: iniciativas em países como Alemanha e Reino Unido mostram consumidores industriais e comerciais sendo remunerados por serviços de resposta à demanda, com sistemas BTM que permitem controlar cargas internas em tempo real.
Desafios
- Tecnológicos: desenvolvimento de hardware confiável e de baixo custo para medição e controle em tempo real; integração de diferentes protocolos de comunicação e sistemas legados.
- Operacionais: necessidade de treinamento das equipes de operação e manutenção, além da mudança de cultura organizacional no uso de energia.
- Econômicos: alto investimento inicial em sensores, controladores e sistemas de análise pode ser um limitador em alguns setores.
- Regulatórios: ainda há indefinição no Brasil quanto à participação de sistemas BTM em mercados de serviços ancilares ou de flexibilidade, dificultando a monetização de benefícios além da simples economia de conta.
Oportunidades
- Redução direta de custos energéticos por otimização de consumo e autoconsumo;
- Aumento da confiabilidade e resiliência das operações críticas;
- Possibilidade de participação futura em mercados de flexibilidade e resposta à demanda;
- Sinergia com iniciativas de digitalização e descarbonização, pilares da transição energética global.
Status Regulatório
No Brasil, a Lei 14.300/2022 e a regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) ainda tratam de forma limitada os sistemas BTM, com foco em geração distribuída até o ponto de conexão.
A remuneração por serviços de flexibilidade, já consolidada em mercados maduros, ainda carece de marcos específicos.
Contudo, a própria ANEEL, em seu plano de inovação regulatória, reconhece a necessidade de evoluir o tratamento regulatório para incorporar tecnologias BTM como ativos relevantes para a modernização da rede.
Além disso, recentemente foi divulgada pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em conjunto com o Ministério de Minas e Energia (MME) o relatório “Geração Distribuída e Armazenamento Behind-the-Meter no PDE 2035”, em 22 de setembro de 2025.
Esse estudo projeta que os sistemas de armazenamento behind the meter poderão tornar-se um componente relevante da rede elétrica brasileira, com estimativas que indicam um crescente papel dos BESS em unidades consumidoras. EPE+1
Visão Futura
A tendência é que os sistemas behind the meter se consolidem como peça-chave da gestão inteligente de energia.
A combinação de controladores distribuídos, digital twins e inteligência artificial permitirá que consumidores gerenciem de forma autônoma suas fontes e cargas, reduzindo custos e agregando valor ao sistema elétrico como um todo.
O avanço regulatório será determinante para destravar novos modelos de negócio, incluindo BESS as a Service e mercados de flexibilidade.
Conclusão
Os sistemas behind the meter representam uma das fronteiras mais promissoras da transição energética.
Ao integrar medição detalhada, controle distribuído e plataformas de otimização, possibilitam ganhos econômicos e operacionais imediatos para os consumidores, ao mesmo tempo em que preparam o caminho para a inserção em novos mercados de energia.
No Brasil, o amadurecimento tecnológico já avança, e o próximo passo depende de uma regulação que reconheça o papel ativo do consumidor na rede elétrica do futuro.



