ONS defende retomada de hidrelétricas com reservatório e alerta: “O sistema precisa de mais flexibilidade”

Durante audiência sobre a MP 1304, o Operador Nacional do Sistema Elétrico reforçou a necessidade de integrar armazenamento às novas fontes renováveis e de ampliar a coordenação entre geração distribuída e rede elétrica para evitar riscos à estabilidade do sistema

A transição energética brasileira está em pleno curso, marcada pela expansão acelerada das fontes solar e eólica. No entanto, a base hidráulica, que historicamente garantiu estabilidade ao sistema, vem perdendo protagonismo. Essa mudança, embora positiva sob o ponto de vista ambiental, traz novos desafios para o equilíbrio e a segurança da matriz elétrica nacional.

Durante a audiência pública da Comissão Mista da Medida Provisória (MP) 1304, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) alertou para a necessidade de recuperar a capacidade de regularização das usinas hidrelétricas e de retomar a construção de empreendimentos com reservatórios. Segundo o órgão, o armazenamento de energia é essencial para garantir previsibilidade e estabilidade, especialmente em períodos de baixa geração renovável.

“É necessário reforçar o armazenamento de energia e adotar soluções complementares que assegurem estabilidade à matriz elétrica e previsibilidade ao suprimento em períodos de baixa geração renovável”, destacou o ONS.

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A fala reforça um ponto central do debate energético atual: a descarbonização da matriz não pode ocorrer em detrimento da confiabilidade.

Hidrelétricas com reservatório: um pilar esquecido da estabilidade

Nos últimos anos, o Brasil reduziu significativamente a construção de hidrelétricas com grandes reservatórios, priorizando projetos de menor impacto ambiental e de implantação mais rápida. Entretanto, essa mudança gerou uma queda na capacidade de regularização do sistema, ou seja, na possibilidade de armazenar água e equilibrar oferta e demanda ao longo do tempo.

Com o crescimento das fontes intermitentes, como solar e eólica, o papel das hidrelétricas com reservatório se torna ainda mais relevante. Elas funcionam como uma “bateria natural”, armazenando energia em períodos de abundância e liberando-a quando há escassez.

De acordo com o ONS, retomar a construção de hidrelétricas com reservatório não significa retroceder na agenda ambiental, mas restaurar o equilíbrio entre sustentabilidade e segurança energética.

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Expansão renovável precisa vir acompanhada de armazenamento

Durante a segunda audiência pública da MP 1304, o diretor do ONS, Christiano Vieira, ressaltou que a expansão das fontes renováveis não hídricas, especialmente solar e eólica, deve estar atrelada a sistemas de armazenamento de energia.

“O país precisa pensar na expansão das fontes renováveis não hídricas de forma integrada a sistemas de armazenamento. A medida é essencial para garantir flexibilidade e segurança diante do aumento da geração solar e eólica e da redução de usinas com reservatórios, que antes equilibravam oferta e demanda de energia no sistema”, afirmou Vieira.

O posicionamento do ONS reforça a importância de planejamento sistêmico na transição energética. Sem armazenamento adequado, seja hidráulico, em baterias ou outras tecnologias, o risco de instabilidade e oscilações de frequência aumenta, comprometendo a operação segura do sistema interligado nacional.

Micro e minigeração distribuída: o novo desafio da coordenação energética

Outro ponto destacado por Christiano Vieira foi o avanço da micro e minigeração distribuída (MMGD), impulsionada pela popularização dos sistemas fotovoltaicos residenciais e empresariais. Apesar dos benefícios, o rápido crescimento dessa modalidade traz desafios operacionais.

“O desafio é coordenar a entrada da micro e minigeração distribuída com o crescimento da rede e da carga. É necessário que o Operador e as distribuidoras atuem de forma integrada no controle da rede, para evitar riscos de instabilidade e garantir maior segurança na operação do sistema elétrico”, pontuou o diretor de Operação do ONS.

A declaração evidencia uma preocupação crescente no setor elétrico: a descentralização da geração precisa vir acompanhada de modernização da gestão da rede. Sem uma coordenação eficaz, o excesso de geração em determinados horários, especialmente durante o pico solar, pode causar sobretensões e desequilíbrios regionais.

O caminho para uma transição segura e sustentável

As falas do ONS durante a audiência da MP 1304 revelam um consenso técnico: o futuro da energia brasileira exige equilíbrio entre expansão renovável e segurança operativa. A diversificação da matriz é um avanço inegável, mas precisa estar alicerçada em infraestrutura de armazenamento, modernização da rede e integração institucional entre agentes do setor.

Com a demanda elétrica em crescimento e o aumento da dependência de fontes intermitentes, a flexibilidade do sistema se torna o novo ativo estratégico. Reforçar o papel das hidrelétricas com reservatório, investir em baterias e aprimorar o controle da geração distribuída são passos essenciais para assegurar um suprimento energético estável, previsível e sustentável.

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