Volume financeiro cresce 15,4% frente a 2024, apesar da queda no número de contratos e na energia negociada; alta reflete volatilidade, riscos climáticos e valorização dos ativos
Em meio a um cenário de incertezas hidrológicas, riscos de curtailment e maior sensibilidade dos modelos de precificação, o mercado livre de energia elétrica registrou o maior volume financeiro de sua história no primeiro semestre de 2025. De acordo com dados da BBCE (Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia), foram transacionados R$ 49 bilhões em contratos de energia, representando uma alta de 15,4% em comparação ao mesmo período de 2024.
O desempenho expressivo se deu mesmo com a queda de 34,8% no volume físico de energia negociado, que totalizou 221 TWh no semestre. O número de operações também caiu: foram fechadas 41 mil transações, uma retração de 18,6% frente ao primeiro semestre do ano passado.
“Os valores transacionados com ativos físicos de energia na BBCE chegaram a patamares históricos e vimos uma redução na quantidade de negócios fechados”, afirma Eduardo Rossetti, diretor-executivo Comercial, de Produtos, Comunicação Externa e Marketing da BBCE. “Os agentes têm realizado menos operações, mas com maior volume financeiro devido ao preço dos ativos”, explica.
Alta nos preços e menor liquidez explicam novo recorde do mercado livre
O crescimento financeiro observado no semestre, segundo Rossetti, está diretamente relacionado à elevação dos preços médios dos contratos, motivada por maior volatilidade e incertezas no horizonte de curto prazo — especialmente relacionadas à previsão de chuvas abaixo da média histórica e aos riscos de limitação na geração renovável.
“Com a sensibilidade do modelo e preocupações com curtailment e risco de crédito, os preços estão mais voláteis e os desafios da negociação mais complexos no curto prazo”, avalia o executivo.
O novo recorde superou o patamar alcançado no segundo semestre de 2024, quando o setor enfrentou intensa oscilação de preços e maior aversão ao risco. A valorização dos contratos compensou a retração no volume físico, mantendo a atratividade financeira do ambiente de contratação livre.
Energia incentivada avança e ultrapassa 25 mil GWh no semestre
Um dos principais destaques da primeira metade de 2025 foi a forte alta no volume de energia incentivada, com crescimento de 40,7% em relação ao segundo semestre de 2024 e de 11% frente ao mesmo período do ano passado. Foram negociados 25,5 mil GWh em mais de 3 mil contratos, movimentando R$ 5,8 bilhões.
“Esse movimento reflete o crescimento da matriz brasileira, em grande parte oriunda de fontes eólicas e solares”, afirma Rossetti.
A energia incentivada, proveniente de fontes renováveis como solar e eólica, vem ganhando protagonismo no mercado livre, alinhando-se à pauta de transição energética e ESG (Ambiental, Social e Governança) das grandes corporações.
BBCE registra pico de movimentação financeira em junho
O mês de junho consolidou a tendência de alta e também foi marcado por números recordes. Segundo a BBCE, foram negociados 30 mil GWh, crescimento de 1,6% sobre maio de 2025, mas retração de 38,1% em comparação a junho de 2024. Em volume financeiro, o mês alcançou R$ 7,54 bilhões, alta de 5% frente a junho do ano anterior.
Os contratos firmados no mês somaram 8.295 operações — queda de 29,7% no comparativo anual, mas alta de 56,6% frente a maio. Os destaques ficaram por conta da energia convencional com entrega para julho, que oscilou 29,54%, e dos contratos com vencimento em agosto, que chegaram a R$ 337,83/MWh.
A escalada dos preços reflete a incerteza hidrológica, com previsão de chuvas abaixo da média no segundo semestre, além de uma maior cautela dos agentes diante de possíveis intervenções no despacho e dificuldades de financiamento para novos projetos.
Ambiente de negociação mais sofisticado exige gestão de risco avançada
O desempenho do primeiro semestre reforça o papel da BBCE como principal infraestrutura de negociação do mercado livre brasileiro, oferecendo soluções digitais e transparentes para compra e venda de energia física e derivativos. Mesmo com a redução no número de contratos, o volume financeiro e o perfil mais estratégico das operações indicam maior maturidade e profissionalismo dos agentes.
Para o segundo semestre, a tendência é de continuidade da volatilidade e do foco na gestão de risco, tanto por parte de consumidores livres quanto de geradores e comercializadoras. O crescimento da energia incentivada, por sua vez, segue alinhado ao avanço da agenda de descarbonização e à busca por contratos de longo prazo com lastro em renováveis.



