Projeções para o futuro energético do Brasil destacam o país como pioneiro na neutralidade de carbono, com potencial para exportar créditos de carbono e impulsionar economia verde
O Brasil pode se tornar um dos primeiros países do mundo a alcançar emissões zero até 2040, um feito que colocaria o país como líder na transição global para a neutralidade de carbono. A previsão faz parte do relatório “Cenários Shell 2024”, apresentado pela Shell na Conferência de Pesquisa e Inovação em Transição Energética (ETRI) da Universidade de São Paulo (USP), realizada na última quarta-feira (6). O estudo busca oferecer subsídios para decisões políticas estratégicas no contexto das próximas reuniões do G20 e da COP30, em 2025, no Brasil.
O relatório da Shell explora dois cenários distintos para 2050: o “Sky”, um modelo mais otimista, e o “Arquipélagos”, um cenário mais conservador. O cenário Sky prevê uma cooperação global sólida que possibilitaria limitar o aumento da temperatura média global a 1,2ºC acima dos níveis pré-industriais. Já o cenário Arquipélagos antevê um mundo fragmentado, onde cada país prioriza seu próprio interesse, levando a uma elevação de até 2,2ºC. Embora as trajetórias sejam distintas, ambos os cenários apontam para um papel de destaque do Brasil como líder global em emissões zero e um importante fornecedor de energia sustentável.
“Em qualquer cenário, o Brasil tem potencial para liderar o mundo em emissões zero, com destaque como fornecedor global de energia”, afirmou Cleusa Araújo, gerente do Programa de Transição Energética da Shell Brasil e uma das patrocinadoras do evento. Araújo ressaltou que fatores como segurança energética, desenvolvimento econômico e social, controle do aumento de temperatura e aceleração tecnológica são fundamentais para se alcançar esse futuro.
Redução de Emissões e Potencial de Exportação de Créditos de Carbono
Uma das principais preocupações do estudo da Shell é o controle das emissões de carbono relacionadas ao uso da terra, que ainda são elevadas no Brasil. Segundo Araújo, a redução do desmatamento, o aumento do reflorestamento e a diminuição das emissões da agropecuária são fundamentais para que o Brasil atinja suas metas de emissões zero. Além disso, com uma abordagem correta, o país pode ir além da simples neutralidade e se tornar um “sequestrador de carbono”, ou seja, capturar mais CO₂ do que emite.
Esse potencial coloca o Brasil em posição estratégica para o mercado de créditos de carbono, previsto no artigo 6 do Acordo de Paris. Dessa forma, o Brasil poderia exportar créditos de carbono, transformando a sustentabilidade em um ativo econômico relevante. “Se o Brasil conseguir estruturar um mercado eficiente para esses créditos, poderá aproveitar seu papel como sequestrador de carbono, contribuindo para uma economia verde e gerando oportunidades de renda para o país”, acrescentou Araújo.
O Papel do Petróleo Brasileiro na Transição Energética
Embora o Brasil esteja focado em uma transição energética sustentável, o petróleo continua sendo uma peça importante no curto prazo. Araújo destacou que o petróleo brasileiro é competitivo em termos de emissões, emitindo menos CO₂ que o óleo pesado do Canadá e da Venezuela. “Esse diferencial torna o petróleo brasileiro uma opção estratégica no período de transição, até que o mundo reduza completamente sua dependência de combustíveis fósseis”, explicou.
Além disso, o gás natural, também uma fonte importante de energia no Brasil, poderia ser redirecionado para a produção de fertilizantes. Atualmente, o país importa grande parte desses produtos da Rússia, e a produção local poderia reduzir essa dependência externa. No cenário Arquipélagos, a Shell prevê que a produção de petróleo brasileiro aumente até 2050, enquanto no cenário Sky a produção começaria a declinar a partir de 2040, voltando aos níveis do ano 2000 em 2050.
Eletrificação e Crescimento da Energia Solar
Uma tendência comum aos dois cenários é a triplicação da demanda de eletricidade até 2050. Esse aumento deve-se, em grande parte, à eletrificação da frota de veículos, que inclui desde automóveis até caminhões leves. A projeção é que, no cenário Sky, toda a frota de veículos brasileiros seja elétrica até 2050, uma mudança significativa no setor de transporte e emissões.
A energia solar deve liderar o setor energético brasileiro nos próximos anos, sendo a principal fonte para atender à demanda crescente. Araújo ressaltou ainda o potencial do etanol como combustível sustentável para setores como aviação e transporte marítimo, aproveitando a posição privilegiada do Brasil como grande produtor de biocombustíveis.
Com as demandas energéticas em transformação e a pressão por políticas ambientais mais ambiciosas, o Brasil encontra-se em um ponto de inflexão. As escolhas políticas e econômicas dos próximos anos serão fundamentais para posicionar o país como líder global em sustentabilidade e neutralidade de carbono. Com o desenvolvimento de infraestrutura para energia limpa e iniciativas como a exportação de créditos de carbono, o país não só poderá cumprir com suas próprias metas de redução de emissões, como também ajudará outras nações a alcançar as suas.



