MME e EPE estimam que eficiência, micro e minigeração distribuída e autoprodução reduzirão a demanda atendida pela infraestrutura convencional; MMGD deve alcançar 91,7 GW de capacidade instalada até 2036.
A eficiência energética e os Recursos Energéticos Distribuídos (RED) terão participação crescente no atendimento ao consumo de eletricidade no Brasil até 2036. O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2036), elaborado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estima uma contribuição de 276 TWh desses recursos no horizonte decenal, considerando ganhos de eficiência, autoprodução não injetada no Sistema Interligado Nacional (SIN) e micro e minigeração distribuída (MMGD).
O volume representa uma parcela do atendimento energético que não precisará ser suprida integralmente pela geração centralizada e pela infraestrutura convencional de transmissão e distribuição. O estudo aponta, assim, para uma mudança na composição dos recursos considerados no planejamento da expansão do setor elétrico, com maior participação da geração próxima ao consumo, da gestão da demanda e da redução de desperdícios.
Entre as projeções, a MMGD deverá atingir 91,7 gigawatts (GW) de capacidade instalada em 2036, enquanto a autoprodução não injetada deverá alcançar 101,1 TWh. Já a eficiência energética deverá evitar uma demanda de 53 TWh no segmento elétrico ao final do período.
Eficiência energética deve evitar 53 TWh de consumo
O PDE 2036 projeta avanço de 6% no índice de eficiência energética nacional (ODEX Brasil) entre 2026 e 2036. Os maiores ganhos estão previstos nos setores de transportes, com 8%, e residencial, com 7%. No consumo de eletricidade, a estimativa é de 53 TWh de demanda evitada em 2036, volume que o estudo compara à produção anual combinada da parcela brasileira da UHE Itaipu e da UHE Xingó.
A projeção considera medidas como atualização dos padrões mínimos de eficiência para equipamentos e edificações, programas de etiquetagem e ampliação do Selo Procel. O documento também identifica os data centers como um dos vetores de crescimento da demanda no segmento de comércio e serviços, mas aponta que avanços tecnológicos em sistemas de climatização e equipamentos de tecnologia da informação podem atenuar parte desse consumo adicional.
MMGD deve chegar a 91,7 GW e atrair R$ 95,9 bilhões
A micro e minigeração distribuída, liderada pela fonte solar fotovoltaica, continuará ampliando sua participação na matriz elétrica. Em 2025, a modalidade já correspondia a 7% da geração total do país e a 17,7% do consumo do mercado cativo.
Para 2036, a EPE projeta capacidade instalada de 91,7 GW, com a entrada de 13,5 milhões de novos adotantes. Os investimentos privados estimados para o período de 2027 a 2036 somam R$ 95,9 bilhões. A fonte solar deverá responder por 99% da capacidade da MMGD.
A autoprodução não injetada no SIN, por sua vez, representa aproximadamente 12% do consumo nacional de eletricidade. O PDE prevê crescimento médio de 2% ao ano, até alcançar 101,1 TWh em 2036.
As duas modalidades ampliam a geração próxima aos centros de consumo, mas têm características distintas: enquanto a MMGD está associada à produção distribuída, principalmente solar, a autoprodução atende ao consumo dos próprios empreendimentos e, no volume considerado pelo estudo, não injeta energia na rede.
Resposta da demanda pode alcançar 4 GW
O planejamento também considera a resposta da demanda como instrumento para ampliar a flexibilidade operacional do sistema. A EPE estima potencial de contribuição efetiva de 4 GW em 2036 para os mecanismos de resposta por incentivos. O volume é cerca de 11 vezes superior aos 344 MW contratados no terceiro Mecanismo Competitivo de Resposta da Demanda promovido pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
A modalidade permite que consumidores ajustem ou reduzam seu consumo em determinados períodos, contribuindo para o atendimento de situações de maior exigência do sistema. A ampliação desse recurso pode reduzir a necessidade de acionar outras alternativas para atender aos picos de carga.
No armazenamento em baterias atrás do medidor (behind-the-meter), entretanto, a avaliação econômica ainda é restrita a segmentos específicos. O estudo identifica maior atratividade para consumidores industriais e comerciais enquadrados na modalidade tarifária A4 Verde, especialmente na gestão da demanda e do consumo nos horários de ponta.
Curva do Pato exige redes mais digitais e flexíveis
A expansão da geração solar distribuída também traz desafios para a operação do SIN. Com maior produção fotovoltaica durante o dia, a carga líquida atendida pelo sistema convencional diminui. No período noturno, quando a geração solar deixa de contribuir, ocorre uma rampa de elevação da demanda que precisa ser atendida por outras fontes.
Esse comportamento, conhecido como “Curva do Pato”, aumenta a necessidade de flexibilidade e de recursos capazes de responder rapidamente às variações de carga. O desafio não se limita à expansão da geração: envolve também a capacidade das redes de distribuição de integrar recursos descentralizados e fornecer informações para a operação do sistema.
Para avançar nessa direção, o PDE aponta a digitalização das redes, a implantação de usinas virtuais (Virtual Power Plants – VPPs) e o desenvolvimento de microrredes como instrumentos para coordenar a geração distribuída, o armazenamento e a resposta da demanda.
O estudo também destaca a influência de mudanças regulatórias ainda em desenvolvimento. A abertura do mercado livre para consumidores de baixa tensão, a modernização das estruturas tarifárias e a definição de regras para remunerar serviços ancilares prestados por recursos distribuídos poderão alterar a viabilidade econômica e a participação desses ativos no sistema.


