Projeto da Crusoe e da Araico prevê início das operações em 2027 e amplia a perspectiva de consumo interno paraguaio de energia hidrelétrica; impacto sobre a cessão ao mercado brasileiro ainda não está definido
O projeto de um data center voltado à inteligência artificial (IA) no Paraguai, com carga inicial de 106 MW e possibilidade de expansão para 280 MW, coloca em evidência a disputa potencial pelo uso da energia de Itaipu Binacional. O empreendimento da norte-americana Crusoe em parceria com a paraguaia Araico tem previsão de início das operações em meados de 2027 e pretende aproveitar a competitividade do custo da eletricidade no país.
O avanço de cargas intensivas em energia pode ampliar o consumo da parcela de geração a que o Paraguai tem direito e, no longo prazo, reduzir o excedente disponível para cessão ao Brasil. O anúncio, porém, não indica alteração na divisão da energia da usina nem mudança nos termos da cessão entre os dois países.
Custo da energia favorece projetos de IA
O diferencial tarifário é um dos fatores de atração do empreendimento. De acordo com os dados apresentados pela Bloomberg, a tarifa média industrial no Paraguai é de US$ 0,047/kWh, ante US$ 0,134/kWh no Brasil e uma média global de US$ 0,172/kWh. A diferença entre os valores paraguaio e brasileiro chega a aproximadamente 65%.
A expansão dos data centers adiciona uma nova categoria de consumidores de grande porte à estratégia paraguaia de atração de investimentos. Além da disponibilidade de geração hidrelétrica, projetos desse tipo dependem de fornecimento contínuo, redundância elétrica e infraestrutura de transmissão capaz de atender a cargas concentradas.
Para Suelen Raizer, fundadora da consultoria Frontexa, a vantagem tarifária precisa estar associada à capacidade de atendimento do sistema elétrico. Ela avalia que a atração de empreendimentos tecnológicos exige condições operacionais compatíveis com a demanda prevista: “O anúncio demonstra que a competitividade energética do Paraguai começa a atrair projetos intensivos em tecnologia, além das indústrias tradicionais. Mas o diferencial de um país não pode ser medido apenas pela tarifa de energia. Para transformar essa vantagem em desenvolvimento econômico, é necessário garantir infraestrutura, capacidade de fornecimento e condições operacionais. É essa análise que deve orientar qualquer decisão de investimento.”
Consumo paraguaio pode reduzir excedente de Itaipu
Pelo Tratado de Itaipu, Brasil e Paraguai têm direito a metade da energia produzida pela usina binacional. Historicamente, como o consumo paraguaio é inferior à sua parcela, o país cede ao Brasil a energia que não utiliza, conforme as regras aplicáveis.
O crescimento da demanda interna, impulsionado por data centers e novas instalações industriais, pode alterar gradualmente esse quadro. Uma maior utilização da parcela paraguaia reduziria o volume excedente disponível para o mercado brasileiro, embora o efeito dependa da evolução efetiva da carga e da geração.
Raizer ressalta que o anúncio do projeto não representa, por si só, uma mudança nas condições de compartilhamento da energia de Itaipu: “Como Itaipu é uma usina binacional e o Paraguai cede ao Brasil parte da energia que não consome, um maior uso interno pode reduzir o excedente disponível para exportação. Mas ainda não há indicação de mudança na divisão da energia ou de cessão da energia não utilizada.”
O projeto prevê 106 MW de carga de TI na primeira fase, com possibilidade de alcançar 280 MW. A escala final e o ritmo de expansão serão determinantes para dimensionar a demanda adicional e seus possíveis efeitos sobre o balanço energético paraguaio.
Rede elétrica é desafio para cargas intensivas
A disponibilidade de geração hidrelétrica não elimina os desafios de infraestrutura. O sistema paraguaio enfrenta limitações em transmissão e distribuição, e a concentração de grandes cargas pode exigir reforços em subestações, linhas e redes locais.
Data centers de inteligência artificial demandam fornecimento confiável e contínuo, com sistemas de alimentação redundantes e requisitos rigorosos de qualidade de energia. A conexão de uma instalação de grande porte, portanto, depende não apenas da energia disponível, mas também da capacidade da rede de entregá-la com segurança.
Raizer destaca que o investimento pode estimular melhorias, mas também aumenta a pressão sobre a infraestrutura existente: “Um data center pode estimular melhorias específicas, mas também aumenta a demanda sobre o sistema elétrico. Esse anúncio indica o potencial de diversificação econômica do Paraguai, que passa a ganhar atenção de empresas intensivas em tecnologia e energia, e abre uma discussão importante sobre como utilizar a disponibilidade energética para atrair investimentos capazes de gerar valor agregado, qualificação profissional e desenvolvimento econômico.”
Lei de Maquila reforça atração de investimentos
A competitividade energética se soma aos incentivos fiscais do regime de Maquila, utilizado por empresas que produzem no Paraguai para exportação. Segundo os dados citados no release, as exportações sob esse regime somaram US$ 1,148 bilhão entre janeiro e setembro de 2026, alta de 25% em relação ao mesmo período de 2025.
Estimativas da Câmara de Empresas Maquiladoras do Paraguai (Cemap) indicam que cerca de 70% das 339 empresas que operam no regime têm capital brasileiro. No primeiro semestre de 2026, o Brasil absorveu 62% das exportações geradas por essas operações.
Para Raizer, a movimentação de empresas entre os dois países deve ser entendida no contexto da integração regional e da reorganização das cadeias produtivas, não necessariamente como substituição de capacidade industrial brasileira: “É menos uma história de substituição de um país pelo outro e mais de reorganização das cadeias produtivas e expansão produtiva. O objetivo de uma empresa ao decidir investir no Paraguai pode ser complementar operações, diversificar a estrutura produtiva, ampliar capacidade e melhorar a competitividade. Nosso trabalho na Frontexa é avaliar onde e como uma empresa pode se tornar mais competitiva, considerando toda a operação.”
O projeto da Crusoe e da Araico adiciona a infraestrutura digital a esse movimento. Para o setor elétrico brasileiro, o ponto de atenção é a evolução do consumo paraguaio e seus efeitos potenciais sobre a disponibilidade futura da energia de Itaipu cedida ao Brasil, uma dinâmica que dependerá da concretização dos investimentos, da expansão da demanda e das regras bilaterais vigentes.


