Estudo aponta capacidade de referência de 8,8 GW e identifica desenho dos contratos como principal barreira à expansão do recurso no SIN
A Resposta da Demanda pode oferecer ao Sistema Interligado Nacional (SIN) uma capacidade de flexibilidade de até 13,1 GW, segundo estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A estimativa considera a possibilidade de consumidores industriais e unidades de cogeração reduzirem ou deslocarem voluntariamente o consumo em resposta a sinais econômicos ou solicitações do operador.
A Nota Técnica Resposta da Demanda: Diagnóstico do Potencial e Recomendações para Desenvolvimento do Mercado, publicada pela EPE em 18 de setembro, calcula um potencial de referência de 8,8 GW, com intervalo entre 5,9 GW, no cenário conservador, e 13,1 GW, no cenário otimista. O documento foi elaborado a partir de deliberação do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que determinou o aperfeiçoamento dos mecanismos para 2027.
Indústria concentra 4,1 GW do potencial
Do potencial de referência, aproximadamente 4,1 GW estão em segmentos eletrointensivos, incluindo aço, alumínio, alumina, cimento, cloro, ferroligas, papel e celulose e data centers. O restante está associado à cogeração a partir de bagaço de cana, resíduos de madeira, biogás, gás de processo e outras fontes industriais.
Na prática, a Resposta da Demanda permite que uma parcela da carga seja modulada quando isso for economicamente vantajoso ou necessário para a operação do sistema. Com a maior participação de fontes renováveis variáveis e a expansão da geração distribuída, o recurso passa a ter valor adicional como mecanismo de flexibilidade, reduzindo a necessidade de recorrer imediatamente a nova geração para determinados requisitos de potência.
Potencial chega a 12,4% do pico do SIN
A dimensão estimada pela EPE equivale a 5,6% a 12,4% do recorde de demanda instantânea do SIN. O estudo aponta que esse intervalo é comparável ao observado em mercados norte-americanos nos quais a Resposta da Demanda já possui maior desenvolvimento: o recurso representa 6,5% do pico nas RTOs e ISOs e chega a 10,6% no sistema da MISO.
A diferença está na capacidade efetivamente contratada. No Brasil, ela corresponde atualmente a apenas cerca de 0,3% do pico do sistema, muito abaixo do potencial técnico identificado pela EPE. Para a empresa, esse descompasso está relacionado principalmente ao desenho dos instrumentos de contratação.
EPE propõe mudanças nos mecanismos de contratação
A Nota Técnica recomenda aperfeiçoamentos em quatro frentes para ampliar a participação da Resposta da Demanda. Uma delas é a linha de base, utilizada para determinar o consumo de referência do participante e, consequentemente, medir a redução efetivamente entregue ao sistema.
O estudo também aponta a necessidade de revisar o preço-teto, flexibilizar a duração e o formato dos contratos e estabelecer requisitos técnicos mais padronizados para os diferentes produtos de flexibilidade. A intenção é criar condições para que o potencial identificado possa ser convertido em capacidade efetivamente contratada, dando maior previsibilidade aos consumidores participantes e aos agentes responsáveis pela contratação.
A discussão ganha relevância com a transformação do perfil de oferta e demanda do SIN. A expansão de fontes renováveis variáveis aumenta a necessidade de recursos capazes de responder às condições operativas em diferentes momentos, enquanto a Resposta da Demanda permite atuar diretamente sobre a carga, sem depender exclusivamente da expansão da oferta de geração.


