Modelo de transporte rodoviário de gás natural e biometano atende indústrias fora da malha dutoviária e ganha espaço enquanto projetos de expansão da infraestrutura avançam
A entrada da J&F no segmento de logística rodoviária de gás natural amplia a disputa por um mercado ainda pouco explorado no Brasil: o atendimento a consumidores industriais localizados fora da rede convencional de gasodutos. Em março de 2026, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a aquisição de 90% da Logás, empresa especializada no transporte e distribuição de gás natural comprimido (GNC), gás natural liquefeito (GNL) e biometano.
A operação envolveu a compra das participações da Macaw Energies Brasil, que detinha 58% da companhia, e do empresário Márcio Pires Pinheiro, titular de outros 32%. O valor da transação não foi divulgado. A Logás tem sede em Betim (MG) e atua no modelo conhecido como off-grid, levando o combustível por rodovia a regiões sem conexão com gasodutos.
Gasoduto virtual conecta oferta e indústria
Na operação da Logás, o gás é comprimido ou liquefeito em uma base, transportado em carretas específicas e entregue diretamente ao consumidor. Na unidade industrial, equipamentos fazem a descompressão ou a regaseificação antes da utilização nos processos produtivos.
O modelo cria uma alternativa para mercados nos quais a demanda ainda não é suficiente para justificar a construção de um gasoduto convencional. Também permite formar novos polos consumidores, que posteriormente podem contribuir para viabilizar uma infraestrutura permanente.
A Logás mantém bases em Betim, Barbacena, Ipatinga, Poços de Caldas, Linhares, Campo Grande, Ribeirão Preto e Cuiabá, segundo as informações fornecidas pela companhia. A estrutura tem capacidade de compressão de aproximadamente 300 mil m³ por dia e volume anual de vendas próximo de 20 milhões de m³, com uma frota formada por 52 carretas, 140 cestas de transporte e armazenamento e 14 cavalos mecânicos.
Parte da frota utiliza gás natural como combustível. A companhia também emprega carretas equipadas com cilindros de fibra de carbono, com capacidade para transportar até 10,5 mil m³ de GNC. Para Márcio Pinheiro, a logística é uma forma de antecipar o atendimento de consumidores enquanto a infraestrutura duto viária não acompanha a expansão da demanda industrial: “A indústria não pode esperar dez ou quinze anos até que um gasoduto chegue à sua região. É preciso criar soluções capazes de conectar oferta e consumo de maneira segura e economicamente viável. Foi essa necessidade que enxergamos no mercado.”
Logística passa a ser parte da segurança de suprimento
O atendimento off-grid exige uma estrutura operacional capaz de conciliar transporte, pressão, consumo e estoque. A Logás utiliza telemetria e monitoramento contínuo para acompanhar veículos, níveis de armazenamento e consumo dos clientes e programar a reposição do combustível.
A complexidade aumenta porque a interrupção do fornecimento pode afetar diretamente processos industriais. Por isso, o planejamento logístico precisa considerar a autonomia de cada unidade e a disponibilidade de rotas e equipamentos de contingência.
Pinheiro aponta que a operação envolve uma gestão integrada entre demanda e transporte: “Não basta colocar o gás em uma carreta e levá-lo até o cliente. É necessário conhecer a demanda, calcular a autonomia, acompanhar o consumo e manter uma estrutura de contingência. A logística energética precisa funcionar todos os dias porque uma fábrica não pode parar por falta de combustível.”
Expansão da malha mantém espaço para soluções off-grid
A alternativa rodoviária ganha relevância em um mercado que também demanda investimentos de longo prazo em infraestrutura. No Plano Indicativo de Gasodutos de Transporte (PIG) 2024, a EPE mapeou oito projetos, com cerca de 2,3 mil quilômetros de extensão e investimentos estimados em pouco mais de R$ 29 bilhões. Entre os objetivos estão a interiorização do gás natural, a conexão do biometano à malha integrada e a redução de restrições da infraestrutura existente.
Os projetos do PIG são alternativas indicativas, e sua implantação depende de fatores técnicos, econômicos e socioambientais. A própria EPE destaca que os estudos buscam conectar áreas de oferta e demanda ainda isoladas e ampliar a segurança e a robustez da infraestrutura de transporte.
Nesse intervalo entre a demanda existente e a chegada de novos dutos, o transporte rodoviário pode funcionar como infraestrutura de transição e como mecanismo para desenvolver mercados consumidores. Pinheiro avalia que a expansão precisa considerar as características de cada região: “O Brasil não possui uma única realidade energética. Existem regiões próximas a gasodutos e áreas industriais completamente desconectadas da malha. Cada projeto precisa considerar o volume consumido, a distância, o perfil da indústria e a infraestrutura disponível.”
Biometano amplia mercado potencial
A mesma infraestrutura logística pode ser utilizada para o biometano, permitindo conectar produtores de combustível renovável a consumidores industriais distantes das redes de gás. A solução pode atender projetos associados a resíduos agropecuários, urbanos e industriais, desde que haja escala de produção e uma estrutura logística adequada.
A conexão entre produção descentralizada e consumo industrial é particularmente relevante para o biometano porque os projetos de produção podem estar localizados longe dos principais centros consumidores. Nesse caso, a logística deixa de ser apenas um elo operacional e passa a integrar a própria viabilidade econômica do negócio.
“O biometano aproxima a produção de energia das economias regionais. Mas esse combustível só gera valor quando existe uma estrutura capaz de levá-lo da origem até o consumidor. A logística é fundamental para transformar o potencial ambiental em atividade econômica”, analisa Pinheiro.
J&F amplia presença na cadeia de gás
A aquisição da Logás adiciona uma nova etapa à estratégia da J&F no mercado de gás. O grupo já atua na comercialização da molécula por meio da MGás e possui a Fluxus, empresa voltada a investimentos em óleo e gás. A entrada na logística off-grid amplia a presença da holding em uma etapa física da cadeia que conecta fornecedores a consumidores fora da malha convencional.
Ao Cade, a J&F apresentou a aquisição como uma oportunidade de expansão no mercado de GNC, GNL e gás renovável, especialmente no atendimento a clientes em processo de substituição de combustíveis por alternativas de menor emissão.
A movimentação ocorre em paralelo à expansão planejada da infraestrutura dutoviária brasileira. Enquanto grandes projetos exigem escala, capital, licenciamento e demanda contratada, soluções off-grid permitem atender mercados menores ou geograficamente isolados e testar a formação de novas demandas.
“O desenvolvimento do mercado não virá de uma única solução. O Brasil precisa ampliar os gasodutos, estimular a concorrência, desenvolver o biometano e utilizar modelos logísticos flexíveis. O objetivo é fazer a energia chegar aos lugares onde ela pode gerar produção, emprego e competitividade”, conclui.



