Iniciativa de PD&I desenvolvida em parceria com a Embrapii e Fundação CERTI recebeu investimentos de R$ 950 mil; dispositivo entra na fase de cabeça de série para mitigar perdas por fuga de corrente em ativos de geração e transmissão.
A modernização das práticas de manutenção preditiva nos ativos de grande porte do Sistema Interligado Nacional (SIN) acaba de ganhar um importante reforço tecnológico. A ENGIE Brasil Energia, em cooperação com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), concluiu o desenvolvimento do Projeto Arataca. Focada no monitoramento de perdas por fuga de corrente elétrica, um dos gargalos operacionais mais complexos, silenciosos e de difícil diagnóstico em sistemas de geração e transmissão, a iniciativa demandou um aporte financeiro conjunto de R$ 950 mil.
O desenho técnico e a execução do projeto contaram com a parceria estratégica do centro de pesquisa e desenvolvimento da Fundação CERTI. Conduzido ao longo de um extenso ciclo de maturação entre 2018 e 2025, o estudo resultou no desenvolvimento de um dispositivo de alta sensibilidade, projetado especificamente para mapear anomalias de isolamento e desvios de fluxo energético antes que estes evoluam para curtos-circuitos, desligamentos forçados ou avarias catastróficas em turbinas, geradores e subestações.
Engenharia reversa e analogia hidráulica blindam segurança do grid
O processo de refinamento da tecnologia exigiu um rigoroso plano de engenharia de confiabilidade. Durante a janela de pesquisa e desenvolvimento, o protótipo foi submetido a cinco revisões estruturais sucessivas, aprimorando parâmetros de calibração, imunidade a ruídos eletromagnéticos e usabilidade em ambientes industriais severos. Os testes de campo foram validados diretamente na infraestrutura operacional de diferentes usinas hidrelétricas pertencentes ao portfólio da ENGIE.
A mecânica operativa da solução assemelha-se, conceitualmente, a um rastreamento de vazamentos em redes hidráulicas. O equipamento injeta uma corrente elétrica perfeitamente controlada e monitorada na malha do sistema sob análise. A partir desse estímulo, o operador consegue rastrear todo o trajeto da carga por meio de um amperímetro de alta precisão, isolando geograficamente o ponto exato de evasão de energia.
O batismo do projeto carrega uma metáfora direta com sua aplicação prática. O termo “Arataca” faz referência regional à arapuca, tradicional armadilha utilizada para a captura de pássaros. No contexto da engenharia elétrica, a expressão foi ressignificada para traduzir a capacidade do novo hardware de “aprisionar” desvios de isolamento e defeitos ocultos no interior dos circuitos. O projeto foi estruturado sob o guarda-chuva do Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), exemplificando a eficácia da aplicação das obrigações de investimento setorial no desenvolvimento de tecnologias proprietárias nacionais.
Próximo passo foca em produção em escala e inserção no mercado
Com a validação dos testes funcionais e a conclusão da fase laboratorial e de campo, o consórcio liderado pela geradora planeja os próximos marcos de comercialização da tecnologia. O planejamento estratégico prevê o avanço para a etapa de “cabeça de série”, fase na qual o design do produto é congelado para a fabricação dos primeiros lotes industriais padronizados, pavimentando o caminho para a produção em larga escala e posterior distribuição comercial da solução para outras concessionárias do mercado.
Ao avaliar o encerramento do ciclo de pesquisa e o início do horizonte de transição comercial da nova ferramenta, o diretor de Energias Renováveis e Armazenamento da ENGIE Brasil, Guilherme Slovinski Ferrari, ressaltou o ganho de eficiência que o monitoramento contínuo trará para a infraestrutura de geração de energia: “Com a conclusão do Arataca, abre-se caminho para a aplicação prática da tecnologia em ambientes reais de operação, ampliando a eficiência do monitoramento elétrico e reduzindo riscos operacionais. A expectativa é que a solução contribua para a evolução das práticas de manutenção, aumentando a confiabilidade dos sistemas de geração e fortalecendo a inovação no setor elétrico nacional”.
O avanço do hardware responde a uma demanda latente das áreas de engenharia de manutenção de plantas de geração renovável e de transmissão, que buscam mitigar o indicador de Indisponibilidade Forçada (TEIF) e otimizar os custos de Opex por meio de diagnósticos preditivos assertivos e baseados em dados de alta fidelidade.



