Ineficiência energética deixa de ser apenas problema econômico e ganha status de segurança energética, impulsionando tecnologias de gestão inteligente como resposta estrutural
O desperdício de energia elétrica no Brasil alcança proporções críticas e já ultrapassa a esfera econômica, assumindo papel central na discussão sobre segurança energética. Dados da ABESCO indicam que o uso ineficiente de eletricidade gera perdas de aproximadamente R$ 61,7 bilhões por ano, um montante que poderia ser redirecionado para investimentos em infraestrutura, inovação tecnológica e expansão da oferta energética.
Em diversos segmentos da economia, os níveis de desperdício superam 30%, podendo ultrapassar 45% em ambientes industriais durante períodos de baixa atividade. Esse cenário evidencia uma fragilidade estrutural que compromete não apenas a competitividade das empresas, mas também a resiliência do sistema elétrico nacional.
A raiz do problema está, em grande medida, na ausência de gestão ativa do consumo. Equipamentos operando fora do horário necessário, sistemas de climatização sem controle eficiente e a falta de monitoramento em tempo real formam um conjunto de ineficiências que se acumulam silenciosamente no dia a dia das operações.
Crise geopolítica amplia urgência da eficiência energética
A relevância do tema ganha ainda mais peso diante do cenário internacional. A escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã tem provocado instabilidade nas cadeias globais de energia, especialmente em regiões estratégicas como o Oriente Médio.
A volatilidade no fluxo de petróleo, especialmente em rotas críticas como o Estreito de Ormuz, tem pressionado os preços internacionais e exposto a vulnerabilidade de países altamente dependentes de combustíveis fósseis. Em algumas regiões da Ásia, os impactos já são concretos, com restrições no consumo de energia, racionamento e medidas emergenciais que incluem paralisações temporárias de atividades econômicas e serviços essenciais.
Esse contexto reforça uma mudança de paradigma: eficiência energética deixou de ser apenas uma agenda ambiental ou de redução de custos para se consolidar como um vetor estratégico de estabilidade. Em um ambiente global sujeito a choques de oferta, o consumo ineficiente passa a representar risco direto ao abastecimento.
Brasil: matriz limpa, mas ainda vulnerável
Apesar de possuir uma matriz elétrica majoritariamente renovável e diversificada, o Brasil não está imune a esse desafio. O elevado nível de desperdício indica que a eficiência no uso da energia ainda não acompanha a evolução da capacidade de geração.
Essa desconexão cria um paradoxo relevante: enquanto o país avança na expansão de fontes limpas, como solar e eólica, continua perdendo competitividade e segurança energética devido à má utilização dos recursos disponíveis.
Na prática, isso significa que o problema não está apenas na oferta, mas na gestão da demanda, um ponto que ganha relevância à medida que o sistema elétrico se torna mais complexo, descentralizado e digitalizado.
Tecnologia surge como resposta estrutural ao desperdício
Diante desse cenário, soluções baseadas em automação e inteligência energética começam a ganhar protagonismo. É o caso da SmartLy, criada em 2023 com foco na otimização do consumo por meio de decisões automatizadas.
O engenheiro civil e cofundador da empresa, Euclides Ciruelos, explica a origem da iniciativa ao destacar a lacuna tecnológica existente no mercado: “Não encontramos nada que atendesse às nossas expectativas. Então decidimos fabricar nossos próprios termostatos. Mas aí veio a pergunta: já que estamos fabricando termostatos, por que não controlar o gasto como um todo?”
A proposta da solução vai além do controle manual tradicional. A tecnologia atua de forma autônoma, monitorando continuamente os ambientes e ajustando o funcionamento de equipamentos conforme a necessidade real de uso.
Na prática, sistemas de iluminação, climatização e outros dispositivos deixam de depender da intervenção humana. A operação passa a ser orientada por dados e condições reais do ambiente, como presença de pessoas, temperatura e incidência de luz natural.
Ao detalhar o diferencial da abordagem, Ciruelos reforça o foco na eliminação do desperdício invisível: “A SmartLy não foi pensada apenas para dar controle ao usuário, mas para eliminar o desperdício de forma inteligente e automática. Muitas vezes, o maior gasto acontece justamente quando ninguém percebe, e é aí que a tecnologia faz a diferença.”
Eficiência energética como pilar da transição e da competitividade
Estudos recentes indicam que soluções de automação inteligente podem gerar economias entre 30% e 40% no consumo energético, especialmente em ambientes corporativos e industriais. Esse potencial coloca a eficiência no centro da estratégia das empresas, não apenas como ferramenta de redução de custos, mas como ativo competitivo.
Além do impacto financeiro direto, a redução do consumo desnecessário contribui para aliviar a pressão sobre o sistema elétrico, reduzir emissões e melhorar a previsibilidade da operação, fatores essenciais em um contexto de crescente eletrificação e integração de fontes renováveis.
Novo paradigma: consumir melhor é tão importante quanto gerar mais
O avanço das discussões sobre segurança energética indica que o setor elétrico global caminha para um novo equilíbrio, no qual oferta e demanda precisam evoluir de forma coordenada.
No Brasil, esse movimento exige uma mudança cultural e tecnológica. A eficiência energética passa a ser elemento estruturante da política energética, com impacto direto sobre tarifas, confiabilidade do sistema e competitividade da economia.
Em um cenário internacional marcado por incertezas e riscos de desabastecimento, a equação é clara: gerar mais energia não será suficiente sem garantir que ela seja utilizada de forma inteligente.


