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Reforma do setor elétrico entra no radar da indústria enquanto custos, encargos e curtailment pressionam competitividade

Reforma do setor elétrico entra no radar da indústria enquanto custos, encargos e curtailment pressionam competitividade

Debate no Energy Solutions Show 2026 aponta aumento estrutural de tarifas, necessidade de pacto setorial e avanço de soluções de flexibilidade para lidar com excesso de oferta

O setor elétrico brasileiro caminha para um novo ciclo de transformação estrutural, impulsionado por pressões crescentes sobre custos, mudanças no perfil de consumo e desafios operacionais associados à expansão das fontes renováveis. Esse foi o diagnóstico predominante entre executivos, consultores e representantes de associações durante o ESS 2026, realizado em São Paulo, primeiro congresso nacional voltado exclusivamente para consumidores empresariais de energia.

O evento consolidou uma percepção cada vez mais presente no mercado: o modelo atual apresenta sinais de esgotamento e exigirá ajustes profundos para equilibrar encargos, reduzir distorções e garantir competitividade à indústria brasileira.

Pressão tarifária e avanço dos encargos

As projeções para 2026 indicam um cenário de aumento contínuo nas tarifas de energia elétrica, com impacto direto sobre consumidores industriais e comerciais. A elevação dos custos está associada principalmente à expansão de encargos setoriais, subsídios e contratação de capacidade.

Ao analisar essa dinâmica, o diretor de Regulação e Mercado da TR Soluções, Helder Sousa, destaca o efeito combinado desses componentes sobre a estrutura tarifária: “O consumidor está começando a perceber que a energia não vai ficar mais barata. A tendência é de aumento de custos e maior complexidade tarifária”

A estimativa apresentada no evento aponta reajustes médios de 4,5% em 2026, com destaque para o crescimento da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), ampliação da Tarifa Social, maior participação de fontes termelétricas e nucleares, além da contratação de potência, que, isoladamente, pode adicionar cerca de R$ 13 bilhões ao sistema elétrico.

Reforma estrutural ganha urgência

O avanço dos custos ocorre em paralelo a um modelo regulatório considerado fragmentado por agentes do setor, no qual a distribuição dos encargos se torna cada vez mais concentrada em determinados grupos de consumidores.

Esse cenário tem impulsionado a defesa de uma reforma estrutural do setor elétrico, capaz de reorganizar incentivos, redistribuir custos e aumentar a eficiência econômica do sistema.

Durante o debate, o presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, Luiz Barata, enfatizou a necessidade de alinhamento entre os diversos atores envolvidos: “Não se consegue fazer uma reforma se não tiver todo mundo sentado em volta da mesa. Cada grupo tem seus interesses e, enquanto não houver um pacto, vamos continuar empurrando os problemas”

A urgência de construção dessa agenda também foi destacada pelo presidente do Fórum das Associações do Setor Elétrico (FASE), Mario Menel, que apontou o calendário político como fator crítico para viabilizar mudanças: “A gente precisa preparar agora uma agenda para implementar a partir de janeiro de 2027. Não podemos perder essa janela de 2026”

Excesso de oferta e risco de curtailment

Um dos pontos centrais do debate foi o avanço do curtailment, redução forçada da geração de energia, como consequência do descompasso entre oferta e demanda no sistema elétrico brasileiro.

A expansão acelerada das fontes renováveis, especialmente solar e eólica, tem elevado a capacidade instalada a patamares superiores ao consumo em determinados períodos, exigindo maior coordenação operativa.

O presidente executivo da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (ABRACE), Paulo Pedrosa, destacou o paradoxo enfrentado pelo país: “A nossa grande oportunidade como país é fazer energia limpa e renovável. Se tivermos capacidade de industrializar, o Brasil pode produzir de forma muito competitiva”

Ao mesmo tempo, o executivo alertou para os riscos associados ao excesso de oferta: “Hoje temos mais oferta de energia do que consumo. Se não corta, o sistema pendura”

Pedrosa também ressaltou que o curtailment tende a se tornar uma variável estrutural nas decisões de contratação de energia: “O curtailment tem que ser gerenciado e precificado em qualquer opção de mercado”

Flexibilidade e novas soluções tecnológicas

Diante desse cenário, cresce a importância de soluções voltadas à flexibilidade do sistema elétrico. Tecnologias como armazenamento em baterias, resposta da demanda e sistemas térmicos ganham protagonismo como ferramentas para equilibrar oferta e consumo em tempo real.

Além disso, o avanço da geração distribuída e da autoprodução amplia a complexidade regulatória, exigindo ajustes na repartição de encargos e no planejamento do sistema.

A tendência, segundo os participantes do evento, é que o setor caminhe para um modelo mais integrado, no qual consumidores assumam papel ativo na gestão de sua energia, combinando contratação no mercado livre, soluções tecnológicas e estratégias de mitigação de riscos.

Competitividade industrial em jogo

No centro do debate está a competitividade da indústria brasileira, fortemente impactada pelo custo da energia. Apesar da pressão tarifária, o país mantém uma vantagem estrutural relevante: a elevada participação de fontes renováveis em sua matriz elétrica.

A capacidade de transformar essa característica em vantagem competitiva dependerá, no entanto, da evolução do ambiente regulatório, da previsibilidade de custos e da capacidade de absorver o excedente de energia por meio da eletrificação da economia.

O encontro segue com programação voltada aos desafios práticos da gestão energética empresarial, incluindo estratégias de contratação, previsibilidade de custos e adaptação a um setor cada vez mais dinâmico e complexo.