Guerra Irã x EUA: o que um choque histórico do petróleo revela sobre o Brasil

Por Eric Fernando Boeck Daza, especialista em energia e mudanças climáticas

O país que bateu recorde de exportação de petróleo em 2025 precisou correr para conter o diesel três meses depois. O problema não é só o barril: é transformar riqueza em proteção quando a geopolítica rompe as cadeias.

No último trimestre de 2025, a Petrobras bateu recorde de exportações: 1,2 milhão de barris por dia de petróleo e derivados. As vendas para mercados internacionais cresceram 41,7% em receita, enquanto as vendas domésticas caíram 6,8%. Três meses depois, o governo federal correu para zerar tributos do diesel, taxar exportações de petróleo e criar subsídios ao combustível.

Isso não é contradição. É diagnóstico. A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã não expõe apenas a sensibilidade brasileira ao preço do barril. Expõe algo mais revelador: o Brasil aprendeu a monetizar commodities melhor do que a proteger o funcionamento da própria economia.

- Advertisement -

O Que estamos vivendo agora

O conflito, iniciado em 28 de fevereiro de 2026, provocou o que a Agência Internacional de Energia (IEA) classificou como a maior disrupção de oferta da história do mercado de petróleo. Os fluxos pelo Estreito de Hormuz, por onde passavam cerca de 20 milhões de barris por dia, caíram drasticamente. A produção dos países do Golfo foi cortada em mais de 10 milhões de barris diários. O Brent, que operava em torno de US$ 70 antes da guerra, chegou a US$ 126 por barril. A IEA coordenou a liberação recorde de 400 milhões de barris de reservas estratégicas. Mas o que mais importa, para o Brasil, não é a escala do choque. É o que ele revela.

A ilusão de que produzir petróleo basta

O Brasil é um dos dez maiores produtores e exportadores de petróleo do mundo. Em 2025, produziu cerca de 3 milhões de barris de óleo equivalente por dia. O pré-sal, que já responde por mais de 80% da produção, é uma conquista extraordinária. Mas a guerra derrubou a ilusão de que essa capacidade, por si só, protege a economia.

O país continua dependente de importações para suprir parcela relevante da demanda doméstica de diesel, o combustível que move a logística de uma economia onde cerca de 65% da carga é transportada por rodovias, segundo a ANTT. Em 2025, 84% do investimento da Petrobras foi para exploração e produção. Apenas 11% para refino, transporte e comercialização. Ao editar a MP de março, o próprio governo reconheceu não estar claro quanta capacidade adicional de refino o país tem para ampliar a oferta doméstica de diesel.

O resultado já aparece. O diesel acumulou alta de 20,4% desde o início do conflito, passando de R$ 6,03 para R$ 7,26 por litro. A Petrobras passou a operar refinarias acima da capacidade nominal. E distribuidores alertaram para dificuldade de importar diesel em ambiente de alta volatilidade e preços comprimidos pela intervenção, um sinal preocupante: quando o preço doméstico fica distorcido por tempo prolongado, o importador privado recua e o risco de suprimento aumenta. Não é hipótese: é mecânica de mercado já observada no Brasil entre 2013 e 2015.

- Advertisement -

O ponto decisivo, porém, não é que o Brasil ainda importe diesel. É que o país contém poucos amortecedores entre um choque externo de energia e a economia real. Quando a guerra atinge o diesel, atinge o frete. Quando atinge fertilizantes, atinge a safra seguinte. Quando comprime preços por intervenção, afeta o apetite dos importadores e o risco de abastecimento. O problema brasileiro não está na dependência de um insumo isolado. Está na fragilidade dos mecanismos que deveriam impedir que um choque externo se transforme, em poucas semanas, em pressão sobre alimentos, logística e inflação.

O segundo choque pode estar na safra, não na bomba

Enquanto o debate público se concentrou no diesel, há um risco menos visível e potencialmente mais severo. O Brasil importou 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025, recorde histórico, e mantém dependência externa da ordem de 85%. Desde o início do conflito, a ureia CFR Brasil subiu cerca de 36%, e as importações brasileiras de ureia caíram 33% no início de 2026. Compradores já migram para alternativas mais baratas. A China, maior fornecedor do país, restringiu simultaneamente exportações de fosfatados e nitrogenados. O Ministério da Agricultura emitiu nota técnica identificando risco de déficit na oferta de fertilizantes fosfatados já em 2026.

A janela de compra de fertilizantes para a safra 2026/27 está aberta agora, entre abril e junho. Se os preços não recuarem nas próximas semanas, o custo de produção da próxima safra sobe estruturalmente, e o repasse chega ao supermercado como inflação de alimentos em 2027. Essa é a conta que ainda não entrou no radar do debate público. O Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022 para reduzir a dependência externa, permanece estagnado: a produção doméstica foi de 7,2 milhões de toneladas, contra demanda de mais de 45 milhões.

O dilema do fornecedor que não se abastece

Com a oferta do Golfo comprimida, o Brasil surge como parte da solução para um mundo com Hormuz interrompido. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) incluiu o país entre os produtores do Hemisfério Ocidental que sustentaram a maior parte da expansão da oferta global na última década. O Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) observou que países asiáticos, altamente dependentes de Hormuz, vão buscar diversificação de fornecedores e o Brasil está bem posicionado para capturar essa demanda.

Mas essa oportunidade cria um dilema de Estado: como transformar a vantagem exportadora em segurança econômica doméstica, sem que uma anule a outra? A MP 1.340, com imposto de 12% sobre petróleo bruto, é uma resposta legítima de emergência. Mas não é, ainda, estratégia. O que a crise revela não é falta de ação, mas é a ausência de um desenho de médio prazo que permita ao país capturar a oportunidade externa e proteger o funcionamento interno ao mesmo tempo.

O que a crise deveria acelerar

A guerra vai passar. As vulnerabilidades que ela expõe, não. E o Brasil tem ativos reais para construir resiliência — se articulados como estratégia, não como reação.

Biocombustíveis como hedge macroeconômico: O Brasil opera com E30 na gasolina e B15 no diesel. Com o diesel importado disparando, o biodiesel ficou mais barato que o diesel importado em março, funcionando na prática como amortecedor parcial do choque externo. No Brasil, biocombustível não é apenas agenda climática: é seguro contra volatilidade energética. Acelerar o mandato para B20, onde tecnicamente viável, e avançar no combustível sustentável de aviação (SAF) reduz, a cada ponto percentual, a exposição do país ao preço internacional do diesel.

Instrumentos de contingência para insumos estratégicos: A IEA existe desde 1974 para coordenar estoques de petróleo. O Brasil não tem instrumento equivalente para fertilizantes, insumo sem o qual a produtividade agrícola cai e o custo dos alimentos sobe. Um desenho institucional de reserva estratégica, mesmo modesto, daria ao país margem de manobra que hoje não existe. E o Plano Nacional de Fertilizantes precisa sair do papel.

Além dos barris

A guerra vai passar. O teste que ela impõe ao Brasil, não. O país já mostrou que sabe produzir petróleo, bioenergia e grãos em escala global. O que ainda não mostrou, na mesma medida, é capacidade de transformar esses ativos em proteção doméstica quando a geopolítica rompe as cadeias.

O Brasil tem pré-sal, etanol, biodiesel, escala agrícola e mercado interno para ser mais resiliente que a maioria dos emergentes. O que falta é uma estratégia que conecte esses ativos. O ponto não é sobreviver a este choque. É decidir se o próximo também será enfrentado com mais uma medida emergencial ou com uma estratégia capaz de manter o país funcionando quando o mundo deixa de funcionar normalmente.

Destaques da Semana

Além do SIN: B4 atinge R$ 12 bi em ativos e estrutura estreia do carbono azul no Brasil

Com 4,5 milhões de toneladas negociadas em 2026, plataforma...

CCEE elege novos membros do Conselho Fiscal em rito de governança

Assembleia Geral aprova indicados da Itaipu, Copel e Comerc...

MME confirma leilão de baterias em 2026 e promete publicar portaria em até 20 dias

Governo acelera regulamentação inédita para sistemas de armazenamento no...

Artigos

Últimas Notícias