Certame da Aneel movimenta R$ 3,2 bilhões em investimentos, reforça o SIN em dez estados e evidencia competitividade crescente no segmento de transmissão
O Leilão de Transmissão nº 1/2026, promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), confirmou a robustez do segmento de transmissão no Brasil e o apetite de grandes grupos por ativos de rede básica. Realizado na B3 nesta sexta-feira (27), o certame registrou deságios médios superiores a 45%, com picos que ultrapassaram 56%, viabilizando um pacote de investimentos estimado em R$ 3,2 bilhões.
O resultado reforça a percepção de risco reduzido no segmento, sustentada por contratos de longo prazo e receitas previsíveis via Receita Anual Permitida (RAP), além de um ambiente regulatório considerado estável.
Engie amplia presença e lidera em volume de projetos
A Engie Brasil Energia, por meio de sua subsidiária de transmissão, foi o principal destaque do leilão, tanto em número de ativos quanto em relevância estratégica.
A companhia arrematou o Lote 2, voltado ao reforço do sistema entre Paraná e Santa Catarina, com lance de R$ 18,1 milhões e deságio de 46,89%. O projeto prevê investimento de R$ 193,6 milhões, incluindo a construção da linha de transmissão 230 kV Ponta Grossa – Canoinhas C1.
O movimento mais agressivo, no entanto, ocorreu no Lote 3. A empresa conquistou os quatro sublotes disponíveis, assumindo projetos voltados à instalação de compensadores síncronos no Ceará e no Rio Grande do Norte, equipamentos fundamentais para garantir estabilidade e confiabilidade em regiões com elevada penetração de fontes renováveis, como eólica e solar.
Nesse lote, o aporte estimado chega a R$ 1,3 bilhão, com deságios que atingiram 56,2% no sublote 3C, um dos maiores já observados em leilões recentes. Os empreendimentos terão prazo de implantação de 42 meses e devem gerar cerca de 4,5 mil empregos diretos.
CYMI aposta em projetos estruturantes no Sudeste e Norte
A CYMI Construções e Participações também teve atuação decisiva no certame, garantindo os lotes 1 e 5 — ambos de elevada intensidade de capital e relevância sistêmica.
No Lote 1, a empresa assegurou obras estratégicas para o atendimento ao Sul Fluminense, além de reforços nas regiões de Bragança Paulista (SP) e sul de Minas Gerais, com deságio de 46,85%.
Já no Lote 5, o foco está na expansão da infraestrutura de transmissão no Centro-Oeste e Norte, com destaque para o atendimento às regiões de Cláudia (MT) e Novo Progresso (PA). O projeto envolve mais de 500 km de linhas de transmissão e novas subestações, com investimento estimado em R$ 1 bilhão.
O lance vencedor foi de R$ 91,1 milhões, representando deságio médio de 50,89% em relação à RAP máxima estabelecida pela agência reguladora.
Consórcio BR2ET garante espaço no Nordeste
O domínio das grandes companhias foi parcialmente quebrado pelo Consórcio BR2ET Transmissora, que arrematou o Lote 4 com deságio de 37,89%.
O empreendimento é direcionado à ampliação da capacidade de transmissão em Sergipe e ao reforço do sistema no nordeste baiano. Com investimento previsto de R$ 240,4 milhões, o projeto inclui a implantação da linha de transmissão 230 kV Olindina – Itabaianinha e da subestação Nossa Senhora da Glória II.
O prazo para conclusão das obras também é de 42 meses, alinhado ao cronograma dos demais lotes.
Integração de renováveis e resiliência do SIN
Os projetos licitados neste leilão têm papel central na expansão e na confiabilidade do Sistema Interligado Nacional, especialmente em um cenário de crescimento acelerado das fontes renováveis.
A instalação de compensadores síncronos no Nordeste, por exemplo, responde diretamente aos desafios operacionais decorrentes da alta participação de geração intermitente, contribuindo para o controle de tensão e estabilidade da rede.
Além disso, a ampliação da malha de transmissão em regiões de fronteira agrícola e novos polos de carga reforça a capacidade do sistema de acompanhar a dinâmica econômica do país.
Deságios elevados reforçam modicidade tarifária
O desempenho competitivo observado no leilão impacta diretamente a modicidade tarifária, um dos pilares da regulação do setor elétrico brasileiro.
A forte redução da RAP inicial, resultado dos deságios ofertados, tende a beneficiar os consumidores ao longo do ciclo contratual dos empreendimentos. Ao mesmo tempo, evidencia a eficiência do modelo de leilões como mecanismo de alocação de investimentos e redução de custos sistêmicos.
Esse equilíbrio entre retorno adequado ao investidor e tarifas mais baixas ao consumidor segue como um dos principais diferenciais do modelo brasileiro de expansão da transmissão.
Consolidação e seletividade marcam nova fase do setor
O resultado do Leilão de Transmissão 1/2026 reforça uma tendência clara: a consolidação do mercado nas mãos de players com elevada capacidade financeira e expertise técnica.
Ao mesmo tempo, o nível de deságio observado indica um ambiente mais seletivo, em que eficiência operacional, gestão de risco e acesso a capital competitivo se tornam determinantes para a viabilidade dos projetos.
Nesse contexto, empresas como Engie e CYMI ampliam protagonismo em um segmento essencial para sustentar a transição energética e o crescimento da carga no Brasil.



