Estudo aponta custo de R$ 11,7 bi em saúde e produtividade por carvão em Candiota até 2040

Relatório do CREA e Instituto Arayara projeta 1.300 mortes prematuras caso polo carbonífero gaúcho mantenha operações; Governo do RS defende fonte como “ativo estratégico” e descarta abandono da mineração.

O futuro do polo carbonífero de Candiota (RS) tornou-se o epicentro de um intenso debate regulatório e socioambiental nesta quarta-feira (25). Um novo estudo técnico, elaborado pelo Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo (CREA) em parceria com o Instituto Internacional Arayara, revelou que a continuidade das operações térmicas na região até 2040 pode acarretar um passivo de R$ 11,7 bilhões em custos de saúde pública e perda de produtividade.

O relatório, intitulado “Carvão em Candiota: Impactos à saúde causados pelo polo de mineração e geração de energia a carvão”, detalha que a poluição atmosférica derivada da queima do mineral não se restringe à fronteira brasileira. Modelos de dispersão indicam que material particulado fino (PM2.5) e dióxido de enxofre atingem centros urbanos como Buenos Aires e Montevidéu, internacionalizando o impacto das emissões gaúchas.

Externalidades e o custo da conta de luz

Um dos pontos centrais da discussão envolve o subsídio anual de aproximadamente R$ 1 bilhão destinado ao carvão mineral nacional, custeado via Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). A manutenção desse incentivo é vista por especialistas como um entrave à modernização da matriz e um ônus direto ao consumidor de energia.

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Ao analisar a resistência institucional à transição na região Sul, a diretora executiva do Instituto Internacional Arayara, Nicole Figueiredo, alertou para a falta de planos de descarbonização: “É um sinal muito claro e preocupante de que não há interesse em um descomissionamento antecipado. O subsídio anual de cerca de R$ 1 bilhão ao carvão impacta diretamente a conta de luz dos brasileiros e poderia ser redirecionado para programas de aposentadoria antecipada de mineiros e diversificação econômica da região.”

Governo Estadual reitera defesa do ativo mineral

Em contrapartida, o governo do Rio Grande do Sul mantém uma posição firme quanto à relevância econômica da fonte. O estado possui uma configuração administrativa única, onde a Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura abriga a Companhia Rio-grandense de Mineração (CRM), estatal que supre a UTE Candiota III.

Representando a visão técnica e estratégica do Executivo gaúcho, o diretor de Mineração da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Estado, Otávio de Lima, sublinhou a importância socioeconômica do mineral para o desenvolvimento regional: “Não vamos abrir mão do carvão mineral. O carvão segue como um ativo estratégico para o Sul do país, responsável por gerar empregos, renda e arrecadação. A região concentra a maior parte das reservas brasileiras.”

O diretor ainda buscou equalizar a crítica ambiental à necessidade global de minerais, argumentando que a própria sociedade depende desses insumos em produtos cotidianos, o que tornaria as críticas ao setor contraditórias.

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Histórico de impactos e transição justa

Os dados retroativos do estudo são alarmantes: entre 2017 e 2025, estima-se que a atividade carbonífera tenha provocado 430 mortes prematuras e gerado custos de R$ 5,1 bilhões ao sistema de saúde. Atualmente, o polo é sustentado pelas minas de Candiota e Seival Sul, que alimentam as térmicas Candiota III (350 MW) e Pampa Sul (345 MW).

Para os defensores da descarbonização, o debate não deve ser restrito ao fechamento das usinas, mas sim à construção de uma “Transição Justa”.

Nicole Figueiredo reforçou que o objetivo do relatório é fornecer subsídios científicos para essa mudança de modelo: “Estamos comprometidos em trazer dados rigorosos e contribuir para uma transição energética que priorize a saúde da população. Isso não significa apenas fechar usinas, mas criar alternativas econômicas que não custem vidas humanas.”

O impasse em Candiota reflete o desafio brasileiro em conciliar o legado da indústria fóssil com as metas de Net Zero, enquanto o setor elétrico aguarda definições sobre o futuro dos subsídios e a modernização do parque térmico nacional.

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