Perspectivas indicam avanço na demanda por diesel, gasolina, etanol, QAV e GLP, impulsionado por crescimento econômico, agronegócio, mercado de trabalho aquecido e políticas públicas
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgou a edição de fevereiro de 2026 do relatório Perspectivas para o Mercado Brasileiro de Combustíveis no Curto Prazo, apontando expansão consistente na demanda por combustíveis líquidos e GLP nos próximos dois anos. As projeções indicam acréscimo de 3,5 bilhões de litros em 2026 e mais 3,1 bilhões em 2027, consolidando um cenário de crescimento sustentado do consumo energético no país.
O avanço projetado reforça a relação direta entre atividade econômica, renda, mercado de trabalho e consumo de combustíveis no Brasil, variável estratégica tanto para o planejamento energético quanto para decisões de investimento em infraestrutura logística, refino, biocombustíveis e distribuição.
Crescimento econômico e políticas públicas sustentam consumo
De acordo com o relatório da EPE, o ambiente macroeconômico favorável tem papel central na trajetória de alta. O PIB per capita cresce desde 2024, a inflação apresenta tendência de queda e os preços dos alimentos registram redução consistente. Paralelamente, o país atinge níveis recordes de ocupação formal e massa de rendimento real, com diminuição histórica da taxa de desocupação, redução das desigualdades e aumento real do salário-mínimo.
Políticas públicas também entram na equação. O Novo PAC e o programa Gás do Povo são citados como vetores de estímulo à atividade econômica e ao consumo energético, ampliando a demanda por combustíveis tanto no setor produtivo quanto no consumo doméstico.
Para o mercado de energia, esse conjunto de fatores cria um ambiente de previsibilidade no curto prazo, com impactos diretos sobre planejamento de oferta, logística e investimentos.
Diesel deve alcançar 72 bilhões de litros em 2026
O diesel permanece como o principal combustível do país em volume consumido. A EPE projeta que a demanda atinja 72 bilhões de litros em 2026, sustentada principalmente pelo desempenho do agronegócio, da indústria e do transporte rodoviário de cargas.
A expectativa positiva para a safra de grãos reforça o consumo no segmento agrícola e na cadeia logística. A correlação entre safra recorde e aumento da demanda por diesel é histórica no Brasil, dada a forte dependência do modal rodoviário para escoamento da produção.
Para agentes do setor de óleo, gás e biocombustíveis, o dado sinaliza necessidade de atenção à capacidade de oferta, estoques estratégicos e infraestrutura de distribuição, especialmente em períodos de pico de movimentação agrícola.
Ciclo Otto e biocombustíveis ampliam participação renovável
No segmento de combustíveis do ciclo Otto, que engloba gasolina e etanol, a trajetória também é de crescimento. O consumo total deve alcançar 64 bilhões de litros em 2026.
A perspectiva favorável para a safra de cana 2025/26 e o crescimento consistente da produção de etanol de milho fortalecem a oferta de biocombustíveis, ampliando a segurança energética e reduzindo a dependência de importações de gasolina A.
A demanda por etanol hidratado permanece elevada, ampliando a participação de combustíveis renováveis na matriz veicular leve. Para o setor sucroenergético, o cenário reforça a importância da previsibilidade regulatória e da manutenção de políticas como o RenovaBio para sustentar investimentos em expansão de capacidade.
QAV supera recorde histórico e setor aéreo retoma protagonismo
O relatório também aponta um marco relevante para o setor aéreo. A demanda por querosene de aviação (QAV) deve superar, em 2026, o recorde histórico de 2014, ultrapassando 7,5 bilhões de litros.
A retomada estrutural do transporte aéreo, combinada à expansão da malha doméstica e internacional, contribui para o crescimento sustentável do segmento. O dado reforça o papel estratégico do QAV na dinâmica do mercado de combustíveis e abre espaço para discussões sobre a introdução gradual de SAF (combustível sustentável de aviação) no país.
GLP volta a crescer com renda maior e programas sociais
O GLP, utilizado majoritariamente para cocção doméstica, apresenta perspectiva de crescimento não observada há anos. O aumento da renda disponível, o pleno emprego e a ampliação de programas sociais, como o Gás do Povo, sustentam a expansão da demanda.
Medidas tributárias, como a ampliação da faixa de isenção do IRPF para rendas até R$ 5 mil e a reformulação para quem ganha até R$ 7.350, também ampliam a renda disponível das famílias, favorecendo o consumo energético residencial.
Para distribuidoras e agentes da cadeia de GLP, o cenário projeta recuperação estrutural do mercado, com possibilidade de expansão regional e aumento da formalização do consumo.
Implicações para o planejamento energético
A publicação da EPE reforça a importância do monitoramento contínuo do mercado de combustíveis no curto prazo, especialmente em um contexto de transição energética. Embora o Brasil avance na eletrificação e na expansão de fontes renováveis, o consumo de combustíveis líquidos segue crescendo, refletindo características estruturais da economia nacional.
Para formuladores de políticas públicas, reguladores e investidores, os dados sinalizam necessidade de equilíbrio entre expansão da oferta, segurança energética, sustentabilidade e modicidade de preços.
O avanço projetado de 6,6 bilhões de litros adicionais até 2027 evidencia que o mercado brasileiro de combustíveis permanece robusto, ancorado na atividade econômica, na força do agronegócio e no dinamismo do consumo interno.



