O paradoxo da energia limpa: por que o excesso de geração renovável ameaça a estabilidade do sistema

Por Vinicius Dias, CEO do Grupo Setta

A rápida expansão das fontes renováveis transformou o Brasil em uma potência verde, mas também revelou um paradoxo: o país produz energia limpa em abundância, mas não consegue escoá-la. Hoje, mais de 88% da matriz elétrica é renovável, de acordo com o Balanço Energético Nacional, porém a infraestrutura de transmissão e a regulação não acompanharam esse crescimento. Sendo assim, como podemos aproveitar ao máximo todo o potencial de energia limpa que o Brasil produz?

Entre janeiro e outubro de 2025, 20,4% de toda a energia solar e eólica potencial deixou de ser aproveitada — volume três vezes superior ao registrado no mesmo período de 2024 —, segundo levantamento da Volt Robotics com dados do ONS. Nos picos de produção, a oferta supera a capacidade das linhas de transmissão, obrigando o operador a intervir com cortes sistemáticos na geração.

Essa prática, conhecida como curtailment, reduz a previsibilidade e afeta diretamente o retorno de projetos que dependem de operação contínua. Além das limitações físicas da rede, o modelo regulatório atual foi concebido para hidrelétricas e térmicas, que permitem controle imediato. Já as fontes renováveis entregam picos concentrados e exigem uma flexibilidade que a estrutura vigente ainda não oferece.

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Sem mecanismos modernos de previsão e resposta da demanda, as oscilações se intensificam. A geração distribuída amplia esse desafio ao reunir milhões de pequenos geradores injetando energia de forma descentralizada. Essa participação democratiza a matriz, mas exige monitoramento contínuo e ferramentas digitais robustas para evitar desequilíbrios locais e regionais.

Nesse contexto, o armazenamento torna-se peça central para garantir estabilidade. Baterias de grande porte, usinas reversíveis e projetos de hidrogênio verde permitem absorver excedentes e devolvê-los ao sistema quando a demanda cresce, reduzindo desligamentos, preservando receitas e tornando a operação mais confiável.

A digitalização também desempenha papel decisivo. Redes inteligentes e sistemas avançados de monitoramento permitem prever a geração, ajustar fluxos automaticamente e integrar diferentes perfis de produtores. A combinação entre dados, tecnologia e inteligência operacional fortalece a resiliência do sistema diante da intermitência.

O Brasil tem a oportunidade de transformar sua abundância renovável em uma vantagem estrutural. Para isso, precisa alinhar infraestrutura, regulação e tecnologia à nova realidade do setor elétrico. Quando esses elementos caminham juntos, o país supera o paradoxo atual e consolida uma matriz estável, competitiva e compatível com sua liderança global. O futuro da energia limpa no Brasil depende da nossa capacidade de transformar potencial em resultado concreto.

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