Alta nos encargos setoriais e expansão do ACL reforçam a necessidade de avaliar cláusulas de repasse e soluções de controle da demanda, como baterias
A gestão dos custos de energia elétrica para 2027 exigirá das empresas mais do que negociar preços fixos no Ambiente de Contratação Livre (ACL). A análise das cláusulas contratuais, a exposição a encargos setoriais e a eficiência no consumo passam a integrar o planejamento financeiro dos consumidores, em um cenário de expansão do mercado livre e mudanças regulatórias.
Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) indicam que 18,3 mil unidades consumidoras migraram para o ACL entre janeiro e setembro de 2026. A perspectiva de abertura gradual do mercado para consumidores atendidos em baixa tensão, prevista para começar em novembro de 2027, amplia a relevância do tema. Esse segmento reúne aproximadamente 89,6 milhões de unidades consumidoras no país, segundo levantamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).
Encargos exigem atenção às cláusulas contratuais
A contratação de energia a preço fixo pode dar previsibilidade ao componente de energia negociado, mas não elimina necessariamente a exposição a variações de outros itens da fatura. O impacto depende das condições comerciais acordadas e da forma como os encargos e demais custos são distribuídos entre fornecedor e consumidor.
Um dos pontos de atenção é o Encargo de Potência para Reserva de Capacidade (ERCAP). Estimativas da área técnica da ANEEL citadas no material indicam aumento de R$ 2,3 bilhões nas despesas associadas ao encargo entre abril de 2026 e abril de 2027. A projeção está relacionada ao início da operação comercial de empreendimentos contratados no Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP), realizado em março de 2026.
Para Fred Menezes, diretor de Comercialização da Armor Energia, a avaliação dos contratos deve abranger tanto o preço quanto os riscos de variação dos demais componentes do fornecimento. “Uma contratação adequada precisa considerar não apenas o preço da energia, mas também os componentes que podem variar ao longo do contrato e a forma como esses custos são distribuídos entre as partes. Essa análise é fundamental para que a empresa compreenda os riscos assumidos e planeje suas despesas com mais consistência.”
A análise das cláusulas de repasse, portanto, é relevante para estimar o custo efetivo do suprimento e evitar que a previsibilidade do preço contratado seja confundida com estabilidade de toda a fatura.
Baterias podem ajudar a controlar a demanda
Além da estratégia de contratação, as empresas podem avaliar medidas para otimizar o consumo dentro das próprias instalações. Entre as alternativas estão as tecnologias behind the meter, instaladas do lado do consumidor, após o medidor da distribuidora, que permitem atuar sobre o perfil de carga.
Os sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS) podem contribuir para reduzir picos de demanda (peak shaving) e deslocar parte do consumo para horários mais favoráveis (load shifting). A viabilidade dessas aplicações depende, entre outros fatores, da estrutura tarifária, do perfil de consumo e das condições operacionais de cada unidade.
A adoção de baterias não representa uma economia automática: o resultado econômico precisa considerar o investimento, os custos de operação, as características da instalação e o valor potencial da redução ou do deslocamento da demanda.
Menezes também destaca a importância de compreender o comportamento do consumo para identificar oportunidades de eficiência: “Também é importante entender como a energia é consumida dentro de uma instalação e quais oportunidades existem para otimizar a operação.”
Contratação e operação devem ser avaliadas em conjunto
A combinação entre gestão contratual e eficiência operacional permite analisar o custo de energia de forma mais abrangente. Enquanto a negociação no ACL define condições comerciais e distribui riscos entre as partes, as medidas internas de gestão de carga podem atuar sobre a maneira como a energia é utilizada.
Para o orçamento de 2027, a avaliação das empresas passa, assim, por três frentes: entender quais encargos podem ser repassados, verificar as condições de reajuste e flexibilidade dos contratos e identificar oportunidades de otimização do consumo.
A escolha das medidas deve considerar as características de cada consumidor e os custos envolvidos. A expansão do mercado livre amplia as possibilidades de contratação, mas a economia efetiva depende das condições do acordo e da capacidade de gerir a demanda e os riscos associados ao suprimento.



