Levantamento da Volt Robotics aponta 18,67 TWh de cortes por razão energética até setembro e questiona restrições em momentos de PLD elevado e com termelétricas em operação
Os cortes de geração de energia eólica e solar por razão energética (ENE) somaram 18,67 TWh entre janeiro e setembro de 2026, alta de 52,7% em relação ao mesmo período de 2025. O volume equivale a 99% de toda a energia restringida por esse motivo ao longo do ano passado, segundo levantamento da consultoria Volt Robotics.
As perdas financeiras acumuladas pelos geradores em decorrência das restrições operativas são estimadas em R$ 15,5 bilhões. Os dados foram apresentados pelo CEO da consultoria, Donato da Silva Filho, durante o Brazil Windpower, em São Paulo.
O estudo questiona a classificação de parte dos cortes como excesso de energia e aponta ocorrências simultâneas a preços elevados no mercado de curto prazo e à operação de usinas termelétricas. Para a consultoria, a identificação das causas das restrições é uma etapa necessária para definir medidas operacionais e regulatórias capazes de reduzir o desperdício de geração renovável.
Geração distribuída amplia excedentes no sistema
As restrições à geração eólica e solar no Sistema Interligado Nacional (SIN) são classificadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) em três categorias: razão energética (ENE), associada às condições de oferta e carga líquida; razão elétrica (REL), relacionada a limitações e intervenções na transmissão; e confiabilidade (CNF), vinculada aos limites de estabilidade e segurança operativa.
Na decomposição apresentada pela Volt Robotics, a micro e minigeração distribuída (MMGD) responde por 52,43% das sobras de energia sem mecanismos centralizados de corte remoto. A hidrelétrica flexível representa 38,13%, a termelétrica flexível, 6,88%, e as usinas eólicas e solares classificadas como Tipo III, 2,56%.
A consultoria também aponta a inflexibilidade operativa de termelétricas como um fator que contribui para a complexidade do problema. Algumas unidades permanecem ligadas para atender às rampas de carga, mesmo em condições nas quais há restrições à produção renovável.
Cortes ocorrem com PLD elevado e térmicas ligadas
Um dos pontos centrais do levantamento é a ocorrência de restrições à geração renovável em momentos nos quais o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) alcança patamares entre R$ 200/MWh e R$ 400/MWh, enquanto termelétricas com custo variável unitário (CVU) mais elevado seguem em operação.
Para Donato da Silva Filho, classificar automaticamente esses eventos como sobreoferta pode dificultar o diagnóstico das causas operativas e a escolha de soluções: “Não se pode chamar de sobreoferta energética um corte que ocorre em momentos de PLD elevado e com usinas termelétricas ligadas. Se há térmicas em operação, o sistema está respondendo a uma necessidade de flexibilidade ou a restrições de transmissão, e não a uma abundância pura de energia. Tratar isso como excesso de geração dificulta a identificação da causa raiz e a formulação de uma solução consistente.”
A consultoria também alerta para os efeitos de concentrar a discussão regulatória nos mecanismos de ressarcimento financeiro. Na avaliação da empresa, sem medidas para atacar as causas dos cortes, o setor permanece exposto à insegurança regulatória, com impactos potenciais sobre decisões de investimento.
Curtailment e energia vertida hidrelétrica têm dinâmicas diferentes
O estudo identifica diferenças entre os cortes por razão energética aplicados às usinas eólicas e a energia vertida turbinável (EVT) das hidrelétricas. De acordo com os dados apresentados, 74% dos cortes energéticos eólicos ocorrem em cenários de baixa carga líquida. Entre os eventos de EVT hidrelétrica registrados no SIN, a mesma condição aparece em 29% dos casos.
A diferença indica que os dois fenômenos não devem ser tratados como equivalentes sem considerar as condições operativas em que ocorrem. A análise das circunstâncias de cada restrição é relevante para distinguir limitações de escoamento, necessidades de flexibilidade e situações de excedente de geração.
Além dos efeitos econômicos, a repetição de comandos de redução de potência e de paradas pode aumentar o desgaste mecânico dos equipamentos e elevar os custos de operação e manutenção (O&M), conforme aponta a consultoria.
Volt Robotics propõe critérios auditáveis e metas de redução
Para enfrentar o problema, a Volt Robotics defende um “Passo Zero” regulatório: a adoção de uma metodologia transparente, auditável e reproduzível para classificar as restrições antes da definição de rateios econômicos ou mecanismos de compensação.
A proposta prevê separar as causas associadas a limitações da transmissão, necessidades de flexibilidade térmica e requisitos de confiabilidade do sistema. Com essa distinção, a consultoria considera possível direcionar medidas e investimentos para os fatores que efetivamente provocam os cortes.
O plano sugerido também inclui a expansão da transmissão e o aumento da flexibilidade do parque termelétrico, com referência a experiências internacionais da China, da Espanha, do mercado ERCOT, nos Estados Unidos, e da Austrália.
Por fim, a empresa propõe vincular eventuais mecanismos temporários de ressarcimento a compromissos formais de redução progressiva das restrições, por meio de metas anuais de eficiência sistêmica. A proposta busca associar a compensação financeira a resultados operacionais, em vez de tratá-la isoladamente da solução para o curtailment.


