No primeiro dia do evento, agentes do setor defenderam maior flexibilidade do sistema, regras para compensar cortes de geração e expansão da demanda; perdas com restrições à energia eólica chegaram a quase R$ 6 bilhões entre outubro de 2021 e setembro de 2025.
O enfrentamento do curtailment, a modernização das redes elétricas e a criação de condições para novos investimentos concentraram os debates de abertura do BWP 2026, realizado em São Paulo. Diante das restrições à geração renovável e da dificuldade de aproveitar toda a energia disponível, representantes da indústria defenderam medidas para ampliar a flexibilidade do sistema elétrico, dar previsibilidade regulatória aos projetos e estimular o consumo de eletricidade.
Entre outubro de 2021 e setembro de 2025, os cortes de geração provocaram perdas próximas de R$ 6 bilhões para o setor eólico brasileiro, conforme os dados apresentados no evento. A discussão também envolveu armazenamento de energia, expansão da transmissão, eletrificação da economia e desenvolvimento da cadeia industrial nacional.
Na abertura, a presidente-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), Elbia Gannoum, defendeu uma atuação coordenada para enfrentar as restrições e ampliar a capacidade de conexão e absorção da geração renovável. João Galamba, diretor do Global Wind Energy Council (GWEC), destacou que o desafio agora é viabilizar a integração da capacidade instalada ao sistema elétrico.
Ao sintetizar essa mudança de foco para o setor, Galamba afirmou: “A próxima fase não é mais megawatts a qualquer preço. É megawatts na hora certa para que o sistema possa contar”. O executivo também anunciou que o Brasil será prioridade de uma iniciativa global do GWEC para modernização das redes elétricas em 2027 e 2028, em parceria com a ABEEólica.
Curtailment expõe falta de flexibilidade do sistema
O aumento dos cortes de geração foi um dos principais temas do painel “Desmistificando conceitos: o que é sobreoferta de energia?”, mediado por Donato Filho, CEO da Volt Robotics. Segundo os dados apresentados por ele, as restrições associadas à sobreoferta cresceram mais de 52,7% em 2026.
Para Donato, o problema não se resume ao excesso de oferta de eletricidade, mas à capacidade de acomodar a geração disponível diante das condições operativas da rede. “Não está sobrando energia; está faltando flexibilidade”, analisou.
Francisco Galvão, vice-presidente de Operações da Elera Renováveis, afirmou que os cortes atingem cerca de 30% da geração solar e 25% da eólica. Manoel de Andrade, diretor de Desenvolvimento de Novos Negócios da Atlas Renováveis, apontou o volume de energia restringida como um fator central na avaliação de novos investimentos.
A discussão também avançou sobre a necessidade de critérios regulatórios mais claros. Rodolfo Coli, diretor de Regulação e Gestão de Portfólio da CPFL Brasil e CPFL Renováveis, defendeu maior clareza na classificação dos cortes e avanços nas regras de ressarcimento. Francine Pisni, gerente-executiva de Assuntos Regulatórios da Auren, chamou atenção para as limitações dos dados disponíveis: “Há transparência, mas ela não é suficiente”.
O armazenamento de energia e os sinais tarifários foram apontados como alternativas para ampliar a flexibilidade do sistema e reduzir restrições à geração. A efetividade dessas medidas, porém, depende de condições técnicas, econômicas e regulatórias que permitam sua integração à operação do setor elétrico.
Eletrificação e novos consumidores podem ampliar a demanda
Além das intervenções na infraestrutura, os participantes defenderam o estímulo ao consumo de eletricidade como parte da resposta às restrições à geração renovável. Laura Porto, diretora da Neoenergia e presidente do Conselho de Administração da ABEEólica, destacou oportunidades na eletrificação industrial e dos transportes e na atração de empreendimentos de alto consumo, como data centers.
Ao relacionar a expansão da demanda à capacidade de aproveitamento das fontes renováveis, Laura afirmou: “O problema do Brasil não é ter energia renovável demais. O problema é ainda não termos um sistema capaz de aproveitar plenamente toda a energia limpa que somos capazes de produzir”.
No painel sobre geopolítica, mudanças climáticas e energia, a executiva também associou a expansão das fontes renováveis à segurança energética. “A agenda de segurança energética deixa de ser uma agenda só de clima e passa a ser uma agenda de segurança”, ponderou.
Elbia Gannoum reforçou a necessidade de transformar o diagnóstico em medidas concretas. “Nós já sabemos o que temos que fazer. Nós só temos é que fazer agora.”
Investimentos dependem de previsibilidade regulatória e industrial
A atração de capital e o fortalecimento da cadeia produtiva brasileira também integraram a programação. Helena Brandão, gerente de investimentos da ApexBrasil, apresentou iniciativas para aproximar investidores estrangeiros das oportunidades no país. Roberto Veiga, vice-presidente da Goldwind, destacou a previsibilidade regulatória e a capacidade industrial local, incluindo a unidade da empresa em Camaçari (BA).
O deputado federal Arnaldo Jardim defendeu avanços regulatórios para o rateio dos custos do curtailment, o armazenamento de energia e o licenciamento ambiental. Também apontou a importância de políticas industriais voltadas à fabricação nacional de equipamentos.
A agenda reflete os desafios para a continuidade da expansão eólica: além da disponibilidade de recursos naturais, a viabilidade dos projetos depende das condições de conexão à rede, da previsibilidade das receitas e da capacidade de escoar a energia produzida.
Eólica offshore avança no planejamento de áreas
A expansão da energia eólica no Brasil também foi discutida sob a perspectiva dos projetos em alto-mar. Em painel dedicado à seleção de áreas prioritárias para os primeiros empreendimentos de eólica offshore, Charles Egberto Guedes Vonnegut Vieira de Mello, técnico da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), apresentou uma metodologia que considera critérios técnicos, ambientais, sociais e econômicos para orientar a escolha de áreas marítimas.
A definição dessas áreas é uma etapa do planejamento necessário ao desenvolvimento da fonte no país. A evolução dos projetos dependerá também do marco regulatório, do licenciamento ambiental e da estruturação dos investimentos.
Os debates do primeiro dia do Brazil Windpower 2026 convergiram para um ponto central: a retomada dos investimentos eólicos exige não apenas novas oportunidades de geração, mas condições para integrar a energia ao sistema, reduzir perdas e criar segurança para decisões de longo prazo.



