Risco climático altera contratos no mercado livre e eleva demanda por hedge, avalia Ludfor

Volatilidade do PLD, avanço do CMO e impactos na curva de carga levam consumidores a incorporar cenários hidrológicos e climáticos na gestão de risco do ACL

A intensificação dos eventos climáticos extremos está alterando a dinâmica de contratação de energia no mercado livre brasileiro. Tradicionalmente baseadas em projeções de consumo, níveis dos reservatórios e indicadores econômicos, as decisões de compra passaram a incorporar o risco climático como um fator relevante na formação de preços, na gestão de portfólio e na definição de estratégias de longo prazo.

Na avaliação da Ludfor, empresa especializada em soluções para o mercado de energia, o avanço das mudanças climáticas aumenta a volatilidade do setor e exige uma abordagem mais sofisticada na gestão dos contratos, especialmente em um momento de expansão do Ambiente de Contratação Livre (ACL).

O tema ganha relevância à medida que o setor elétrico amplia o debate sobre os impactos do clima na operação do Sistema Interligado Nacional (SIN). Nas últimas semanas, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou a realização do seminário “Super El Niño e a Resiliência do Setor Elétrico Brasileiro”, enquanto estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) reforçam a necessidade de incorporar variáveis climáticas ao planejamento energético.

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Eventos extremos aumentam desafios para a operação do sistema

Levantamentos recentes indicam que os efeitos das mudanças climáticas já se refletem na infraestrutura e na operação do setor elétrico. Um dos estudos aponta que 43% das ocorrências registradas em linhas de transmissão entre 2014 e 2023 estiveram associadas a eventos climáticos, como tempestades, ventos intensos, queimadas e descargas atmosféricas.

Outro levantamento, elaborado pela EPE, mostra que a maior frequência de ondas de calor vem modificando o perfil da demanda por eletricidade, tornando mais complexas as previsões de carga e o planejamento da operação do sistema. Esse cenário amplia a necessidade de mecanismos capazes de aumentar a resiliência da infraestrutura elétrica e reduzir a exposição a riscos operacionais e econômicos.

Variável climática passa a influenciar decisões de contratação

Segundo a Ludfor, as mudanças no comportamento do clima já estão alterando a forma como consumidores livres estruturam suas estratégias de compra de energia.

Ao analisar esse movimento, o diretor comercial da empresa, Ezequiel Fernandes, afirma que o risco climático passou a integrar as variáveis consideradas nas decisões comerciais: “O mercado está percebendo que a variável climática deixou de ser um fator secundário. Hoje ela influencia diretamente a dinâmica de preços, aumenta a volatilidade e exige uma gestão mais sofisticada dos contratos. Empresas que antes buscavam apenas economia agora também procuram previsibilidade e proteção contra oscilações do mercado.”

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De acordo com o executivo, fenômenos como ondas de calor, alterações no regime de chuvas e períodos prolongados de seca afetam simultaneamente a geração hidrelétrica, o consumo de energia e o despacho de usinas termelétricas, modificando as condições de oferta e demanda do mercado.

Gestão de risco ganha protagonismo no mercado livre

A incorporação das variáveis climáticas também está transformando o processo de contratação de energia.

Conforme avalia Fernandes, a definição das estratégias deixou de considerar apenas os preços disponíveis no momento da negociação e passou a incorporar análises hidrológicas, projeções climáticas, cenários de demanda e ferramentas de gestão de risco: “Há alguns anos, muitas decisões eram tomadas olhando apenas para o preço disponível naquele momento. Hoje, a estratégia envolve análise de cenários climáticos, projeções hidrológicas, comportamento da demanda e avaliação de riscos. A contratação de energia passa a ser uma decisão financeira e não apenas operacional.”

A mudança ocorre paralelamente ao crescimento do mercado livre, que vem incorporando um número crescente de consumidores após a ampliação do acesso ao ACL.

Clima acelera investimentos em flexibilidade e inteligência de mercado

Na avaliação da Ludfor, o novo ambiente operacional tende a ampliar investimentos em soluções capazes de reduzir a exposição às oscilações do mercado de energia. Entre as alternativas apontadas estão sistemas de armazenamento por baterias, diversificação do portfólio de geração, instrumentos de gestão de risco e plataformas de inteligência para monitoramento contínuo das condições de mercado.

Ao projetar a evolução desse cenário, a empresa considera que a gestão estratégica dos contratos será cada vez mais determinante para consumidores livres: “O consumidor livre terá cada vez mais oportunidades de reduzir custos, mas isso dependerá de uma estratégia consistente de gestão de risco. A tendência é que fatores climáticos passem a influenciar, de forma permanente, as decisões de contratação e investimento no setor elétrico.”

Para agentes do mercado, a incorporação das variáveis climáticas ao planejamento comercial representa uma mudança estrutural na gestão da energia, em um contexto de maior participação das fontes renováveis, expansão do mercado livre e aumento da exposição a eventos meteorológicos extremos.

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