Participação das fontes renováveis alcança 31,7% da eletricidade mundial, enquanto metas climáticas apontam para uma matriz com 78% de energia limpa na próxima década
A expansão das fontes renováveis atingiu um novo marco histórico em 2024, consolidando a eletricidade limpa como o principal eixo da transição energética global. Impulsionadas sobretudo pela rápida expansão da energia solar e eólica, as fontes renováveis responderam por 31,7% de toda a geração elétrica mundial, alcançando 9.836 TWh produzidos ao longo do ano.
Os dados fazem parte do relatório Renewable Energy Statistics 2026, divulgado pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), e reforçam a crescente centralidade da eletrificação nas estratégias globais de descarbonização.
O crescimento da geração renovável alcançou 9,8% em 2024, ritmo significativamente superior ao registrado pelas fontes fósseis e nucleares, cuja expansão ficou limitada a 1,4% no mesmo período. Apesar do desempenho histórico, a velocidade atual ainda é insuficiente para atender às metas climáticas estabelecidas para a próxima década.
COP31 coloca eletrificação no centro da agenda climática
A futura presidência turca da COP31 colocou a eletrificação da economia como um dos principais pilares das negociações climáticas internacionais. A proposta prevê que a eletricidade responda por 35% da demanda final global de energia até 2035, ampliando significativamente sua participação em setores tradicionalmente dependentes de combustíveis fósseis.
Para sustentar esse movimento, será necessário acelerar a expansão da geração renovável em uma escala sem precedentes. As projeções da IRENA indicam que a participação das fontes limpas na matriz elétrica mundial precisará avançar dos atuais 31,7% para aproximadamente 78% até 2035, o equivalente a multiplicar em cerca de 2,5 vezes os níveis atuais de produção renovável. O desafio envolve não apenas a expansão da oferta elétrica, mas também a substituição gradual de combustíveis fósseis em segmentos como transporte, indústria e edificações.
Ao analisar a magnitude dessa transformação, o Diretor-Geral da IRENA, Francesco La Camera, destaca que a eletrificação deixou de ser apenas uma estratégia ambiental para se tornar um elemento central da competitividade econômica e da segurança energética: “O mundo está se unindo em torno da eletrificação como pedra angular da transição energética, com a eletricidade renovável como sua força motriz. O crescente apoio à eletrificação global reflete o reconhecimento compartilhado de que a eletricidade limpa fortalece a segurança energética, a resiliência e a competitividade. Isso exigirá que a geração de eletricidade renovável se expanda em um ritmo sem precedentes na próxima década, cerca de 2,5 vezes o nível atual. As tecnologias estão disponíveis, a viabilidade econômica é inegável. Agora, precisamos fazer a transição rápida dos combustíveis fósseis para a eletricidade limpa em edifícios, transportes e indústria.”
Financiamento climático será decisivo para acelerar a transição
Embora os custos das tecnologias renováveis continuem em trajetória de queda e a competitividade econômica da eletricidade limpa esteja cada vez mais consolidada, organismos internacionais alertam para a necessidade de ampliar os fluxos de financiamento destinados às economias emergentes. A preocupação é evitar que a transição energética aprofunde desigualdades regionais e comprometa o alcance das metas globais de redução de emissões.
Ao avaliar o estágio atual da transformação do setor energético, o Secretário Executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), Simon Stiell, ressalta que a expansão das renováveis já se mostra economicamente mais vantajosa do que a exposição à volatilidade dos combustíveis fósseis: “Todas as nações presentes na COP30 concordaram unanimemente que a transição global é agora ‘irreversível’, e esses novos dados são uma prova contundente disso. Com a geração de energia renovável registrando seu crescimento mais rápido de todos os tempos, a transição para a energia limpa está avançando rapidamente, porque agora é mais barata, mais segura e chega ao mercado mais rapidamente, em nítido contraste com o caos contínuo dos custos dos combustíveis fósseis neste ano – elevando a inflação a níveis dolorosamente altos para todas as economias, milhões de empresas e bilhões de famílias. Mas, apesar desse enorme progresso, a transição para a energia limpa ainda está longe de ser rápida ou inclusiva o suficiente, e muitas nações vulneráveis precisam de apoio significativo, tornando essencial o cumprimento integral e oportuno de todas as promessas de financiamento climático.”
Ásia amplia liderança na geração renovável global
A expansão das fontes renováveis manteve forte concentração na Ásia, que respondeu pela maior parcela da geração elétrica limpa mundial em 2024. A região produziu 4.589 TWh de eletricidade renovável, registrando crescimento anual de 14,3%, impulsionada principalmente pelos investimentos em energia solar fotovoltaica e energia eólica.
A Europa permaneceu na segunda posição, com 1.758 TWh gerados e avanço de 7,2%, sustentado pela combinação entre expansão solar e recuperação hidrológica. Já na América do Norte, a geração renovável alcançou 1.535 TWh, alta de 5,8%, enquanto a América do Sul produziu 1.047 TWh, crescimento de 2,9% distribuído entre diferentes tecnologias de geração.
O Oriente Médio apresentou o maior crescimento percentual entre todas as regiões, com expansão de 17,3%, ainda que partindo de uma base instalada significativamente menor.
Capacidade renovável se aproxima da metade do parque gerador mundial
O avanço da geração foi acompanhado por um novo ciclo de expansão da capacidade instalada. Em 2025, o sistema elétrico global incorporou 693 GW de novas usinas renováveis, o maior volume anual já registrado pela indústria elétrica mundial. Com isso, a capacidade renovável acumulada atingiu 5,2 TW, equivalente a 49,5% de toda a potência instalada do planeta.
As fontes limpas responderam por 85,7% da expansão líquida da capacidade elétrica mundial no período, consolidando uma mudança estrutural na composição dos sistemas elétricos. Embora o percentual tenha ficado abaixo do recorde observado em 2024, quando as renováveis representaram 92,7% das novas adições globais, a trajetória confirma a consolidação das tecnologias limpas como principal vetor de crescimento da infraestrutura energética internacional.
Para o setor elétrico, os números reforçam que o debate deixou de ser sobre a viabilidade técnica das renováveis e passou a se concentrar na velocidade de implantação da infraestrutura necessária para sustentar uma economia cada vez mais eletrificada.


