Baterias deixam de ser tecnologia complementar e passam a operar como infraestrutura estratégica dos sistemas elétricos

Expansão global supera 100GW em 2025 e reforça papel do armazenamento na integração de renováveis, na segurança energética e na operação das redes

O armazenamento de energia em baterias entrou definitivamente em uma nova fase. Após anos sendo tratado como uma solução complementar para apoiar a expansão das fontes renováveis, o segmento passou a ocupar posição estratégica na operação dos sistemas elétricos em diversos mercados ao redor do mundo.

Os números de 2025 evidenciam essa mudança. A capacidade global instalada cresceu 108GW no ano passado, avanço de aproximadamente 40% em relação a 2024. O volume representa um marco histórico para o setor energético e supera o maior ciclo anual de expansão já registrado por usinas termelétricas a gás, que atingiu cerca de 107GW em 2002.

O crescimento ocorre em um momento em que operadores de rede enfrentam desafios crescentes para administrar sistemas cada vez mais dependentes de fontes variáveis, especialmente solar e eólica. Nesse cenário, as baterias passaram a desempenhar funções que vão além do simples armazenamento de energia, contribuindo para o equilíbrio instantâneo entre oferta e demanda, redução de congestionamentos e garantia da confiabilidade operativa.

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Crescimento se espalha para além dos mercados tradicionais

Embora China, Estados Unidos e Europa continuem concentrando a maior parte da capacidade instalada, o avanço da tecnologia começa a ganhar escala em novos polos de investimento.

A Austrália registrou um dos movimentos mais expressivos de 2025, com quase 8GW adicionados em apenas um ano. O volume é quase nove vezes superior ao observado em 2024 e reflete uma estratégia nacional voltada para ampliar a flexibilidade do sistema elétrico diante da rápida expansão das fontes renováveis.

No Oriente Médio, a capacidade instalada ultrapassou 3GW, mais que triplicando os níveis do ano anterior. A Arábia Saudita respondeu pela maior parte dessa expansão ao incorporar baterias como elemento central de sua estratégia de desenvolvimento de projetos solares em larga escala.

O Chile também ganhou destaque ao acelerar a instalação de sistemas voltados para absorver excedentes de geração fotovoltaica durante o dia e transferir energia para os horários de pico de consumo.

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O movimento demonstra que o armazenamento deixou de ser uma tecnologia restrita aos mercados pioneiros e passa a integrar o planejamento estrutural de sistemas elétricos em diferentes estágios de desenvolvimento.

China mantém liderança e amplia distância

A liderança global continua concentrada na China. O país adicionou pouco mais de 63GW em 2025, resultado cerca de um terço superior ao registrado no ano anterior. Desse total, aproximadamente 55GW correspondem a projetos de grande porte conectados diretamente à rede elétrica.

Os Estados Unidos aparecem na sequência, com 19GW instalados ao longo do ano. O mercado norte-americano registrou crescimento próximo de 60%, impulsionado principalmente por projetos utility scale.

Na Europa, a expansão foi mais moderada, com cerca de 6,2GW adicionados. Ainda assim, o continente apresenta uma transformação importante: os investimentos estão migrando rapidamente dos sistemas residenciais para empreendimentos de maior escala conectados ao sistema elétrico.

Flexibilidade se torna ativo crítico da transição energética

A principal função das baterias vem mudando à medida que a participação das renováveis aumenta. Há uma década, boa parte dos projetos era concebida para atender mercados de serviços auxiliares, como controle de frequência e estabilidade da rede. Atualmente, o armazenamento de energia tornou-se a aplicação dominante.

Em 2015, cerca de 40% dos novos projetos tinham como principal objetivo deslocar energia entre diferentes períodos do dia. Em 2025, essa participação superou 90%. A mudança reflete uma necessidade crescente dos operadores de sistema: administrar volumes cada vez maiores de geração solar e eólica sem comprometer a confiabilidade do fornecimento.

Na prática, as baterias permitem armazenar energia produzida durante períodos de excedente e disponibilizá-la nos momentos de maior demanda, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência da infraestrutura elétrica existente.

Califórnia mostra como o armazenamento está transformando a operação das redes

Poucos mercados ilustram essa transformação tão claramente quanto a Califórnia. A capacidade solar instalada no estado já ultrapassa 55GW, superando inclusive os níveis máximos de demanda em determinados períodos do ano. Em dias de elevada irradiação solar, a carga líquida do sistema pode se aproximar de zero ou até se tornar negativa.

Para lidar com esse novo perfil operacional, a capacidade de armazenamento cresceu de menos de 1GW em 2019 para mais de 17GW atualmente. O resultado é uma mudança estrutural na forma de operação da rede. Em março deste ano, as baterias chegaram a atender mais de 40% da carga elétrica noturna do estado utilizando energia armazenada ao longo do dia.

Além disso, passaram a desempenhar papel crescente no balanceamento do sistema. Nos últimos cinco anos, sua participação na cobertura das variações horárias de demanda saltou de menos de 1% para mais de 60%. Dinâmica semelhante já pode ser observada em mercados como Texas, Austrália do Sul e Grã-Bretanha, onde o armazenamento vem assumindo parcela crescente das necessidades de flexibilidade operacional.

Queda de custos sustenta competitividade

A expansão acelerada da tecnologia está diretamente ligada à redução dos custos observada nos últimos quinze anos. Entre 2010 e 2025, os custos dos sistemas de armazenamento caíram mais de 90%, impulsionados por ganhos de escala industriais, inovação tecnológica e aumento da capacidade produtiva global.

Ao mesmo tempo, a duração dos projetos vem aumentando. Sistemas capazes de fornecer energia por quatro horas ou mais tornam-se cada vez mais frequentes, ampliando o valor econômico e operacional do armazenamento. Essa evolução fortalece a competitividade das baterias frente a alternativas tradicionais de flexibilidade, como usinas termelétricas e projetos hidrelétricos reversíveis.

Gargalos regulatórios podem limitar o ritmo de expansão

Apesar das perspectivas favoráveis, a velocidade de crescimento do setor continuará dependente da evolução dos marcos regulatórios. Em diversos mercados, os principais atrasos não estão relacionados à construção dos projetos, mas aos processos de licenciamento, conexão à rede e obtenção de autorizações regulatórias.

O desafio para formuladores de políticas públicas e reguladores será desenvolver mecanismos capazes de reconhecer e remunerar adequadamente os múltiplos serviços prestados pelas baterias. A definição dessas regras tende a influenciar diretamente o ritmo de expansão da tecnologia nos próximos anos.

De suporte às renováveis a componente essencial do sistema

A expansão observada em 2025 sinaliza uma mudança de paradigma para o setor elétrico global. As baterias deixaram de ser apenas um instrumento de apoio à integração das fontes renováveis e passaram a ocupar uma função estrutural na operação dos sistemas elétricos modernos.

À medida que a participação da geração variável continua avançando, a capacidade de armazenar energia e disponibilizá-la nos momentos necessários torna-se um dos principais ativos para garantir segurança energética, estabilidade da rede e eficiência econômica. Mais do que acompanhar a transição energética, o armazenamento em baterias passa a ser um dos elementos responsáveis por viabilizá-la.

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