Estatal disponibiliza modelos completos do projeto em corrente contínua que deve inaugurar uma nova fronteira tecnológica na transmissão brasileira
A Empresa de Pesquisa Energética abriu ao mercado o conjunto completo de bases de dados do estudo que recomenda a implantação do Bipolo Nordeste II, projeto que deverá marcar a entrada definitiva do Brasil na nova geração de sistemas HVDC com tecnologia VSC (Voltage Source Converter).
A disponibilização pública dos modelos representa um movimento estratégico para amadurecer tecnicamente aquele que é considerado um dos projetos mais complexos já planejados para o Sistema Interligado Nacional (SIN). O empreendimento prevê mais de 2.500 quilômetros de linhas em corrente contínua e será o primeiro elo HVDC-VSC concebido para operação estruturante na rede elétrica brasileira.
Os arquivos publicados pela estatal permitem que transmissoras, fabricantes, consultorias, universidades e agentes do setor reproduzam estudos elétricos e avaliem o comportamento do sistema diante da nova configuração operacional proposta pela expansão. A iniciativa reforça a estratégia da EPE de ampliar a transparência técnica do planejamento elétrico e acelerar a construção de referências nacionais para tecnologias ainda pouco exploradas no país.
Tecnologia VSC ganha protagonismo na expansão da transmissão
O Bipolo Nordeste II surge em um momento de transformação estrutural do sistema elétrico brasileiro, impulsionado pela expansão acelerada da geração eólica e solar no Nordeste.
A tecnologia VSC é considerada uma das soluções mais avançadas para sistemas com elevada participação de fontes renováveis intermitentes, principalmente pela capacidade de controlar dinamicamente potência e tensão, além de contribuir para estabilidade sistêmica em redes mais complexas. Na prática, o projeto coloca o Brasil em uma rota tecnológica já adotada em grandes corredores elétricos internacionais, especialmente em mercados que enfrentam desafios de integração renovável em larga escala.
O diferencial do modelo HVDC-VSC está justamente na flexibilidade operacional. Diferentemente dos sistemas convencionais em corrente contínua, a tecnologia permite respostas mais rápidas às oscilações elétricas e melhora o desempenho da rede em cenários de baixa inércia.
Projeto exigirá integração inédita entre sistemas CA e CC
O desafio técnico do Bipolo Nordeste II vai além da implantação do elo em corrente contínua. O pacote avaliado pela EPE também prevê aproximadamente 2.000 quilômetros adicionais de linhas em corrente alternada, formando uma arquitetura híbrida de transmissão que exigiu um esforço inédito de modelagem computacional.
A convivência simultânea entre sistemas CA e HVDC-VSC elevou o grau de complexidade dos estudos eletromecânicos e eletromagnéticos conduzidos pela estatal. O objetivo central foi garantir que o aumento da capacidade de escoamento não comprometa os critérios de segurança operativa e confiabilidade do SIN no horizonte de expansão de longo prazo.
Nos bastidores técnicos do setor, o empreendimento já é tratado como um projeto-piloto para futuras expansões estruturantes da rede brasileira em corrente contínua.
Estudos incorporam lições do apagão de 2023
Para estruturar os modelos do sistema, a EPE realizou intercâmbio técnico com fabricantes globais de equipamentos HVDC e contratou consultorias especializadas em modelagem dinâmica. Parte relevante do trabalho foi conduzida em cooperação com o Operador Nacional do Sistema Elétrico, principalmente no aprimoramento das bases de transitórios eletromecânicos.
O processo levou à construção de uma nova base de planejamento para representação de usinas renováveis no SIN. A atualização tornou-se necessária após o distúrbio sistêmico registrado em agosto de 2023, evento que expôs limitações nos parâmetros utilizados para representar o comportamento dinâmico de parte dos ativos renováveis conectados ao sistema.
A nova modelagem busca aproximar as simulações do comportamento real das usinas atualmente em operação, elevando a precisão das análises de estabilidade e confiabilidade.
Mercado terá acesso a modelos completos nos principais softwares
A EPE disponibilizou arquivos compatíveis com os principais programas utilizados em estudos elétricos no Brasil. Os modelos do SIN para análises de fluxo de carga, curto-circuito e estabilidade eletromecânica foram estruturados para operação nos softwares ANAREDE, ANAFAS e ANATEM, desenvolvidos pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (CEPEL).
Já os estudos de transitórios eletromagnéticos foram organizados para execução no PSCAD, referência internacional em simulações avançadas de sistemas HVDC.
A estatal também liberou modelos específicos do sistema HVDC-VSC tanto para operação em fluxo direto quanto reverso, além de um equivalente de rede em corrente alternada expandido até 142 barras. Essa configuração permitirá que agentes avaliem o desempenho do elo em cenários independentes e em diferentes condições operativas.
Próxima etapa envolverá estudos multi-infeed
O próximo estágio do planejamento envolverá análises multi-infeed no PSCAD, previstas para o segundo semestre de 2026. Os estudos irão avaliar a interação simultânea entre múltiplos sistemas HVDC em operação e planejados no Brasil, etapa considerada essencial para definir os limites operacionais da futura malha de corrente contínua nacional.
A expectativa do mercado é que os resultados sirvam de referência para novos corredores de transmissão associados ao crescimento da geração renovável e à necessidade de expansão do escoamento entre regiões. A Empresa de Pesquisa Energética informou que as novas bases também serão disponibilizadas publicamente após a conclusão dessa etapa dos estudos.



