Setor cobra previsibilidade regulatória, definição das primeiras cessões de áreas e avanço do licenciamento para evitar perda de investimentos internacionais
O setor de energia eólica offshore no Brasil entrou em uma fase decisiva de articulação regulatória e pressão institucional. Em meio à expectativa pela implementação do marco legal das eólicas no mar, o Brazil Offshore Wind Summit 2026 reunirá governo, investidores, desenvolvedores e especialistas no próximo dia 16 de junho, no Rio de Janeiro, sob um tema que sintetiza o momento da indústria: “Eólicas Offshore no Brasil: O Ano das Decisões”.
Organizado pelo Global Wind Energy Council (GWEC) e pela Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), o evento acontece em um contexto de forte cobrança do mercado por definições concretas sobre cronograma, cessão de áreas marítimas, regras de conexão ao sistema elétrico e diretrizes ambientais.
A percepção predominante entre os agentes é que o Brasil já avançou no campo legislativo, mas ainda enfrenta um gargalo crítico na conversão do potencial técnico em projetos efetivamente viáveis.
A recente aprovação, pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), das diretrizes para regulamentação do setor elevou a expectativa do mercado para a próxima etapa: transformar o marco regulatório em um pipeline concreto de investimentos.
Setor teme perda de competitividade global sem definição de prazos
O principal alerta da indústria está relacionado à ausência de um cronograma oficial para as primeiras cessões de áreas offshore. Na avaliação dos agentes, a indefinição regulatória aumenta o risco de migração de capital para mercados que já oferecem maior previsibilidade, especialmente Europa, Estados Unidos e países asiáticos.
O Brasil aparece internacionalmente como uma das maiores fronteiras potenciais para geração eólica offshore, mas a competição global por investimentos se intensificou nos últimos anos diante da corrida energética associada à transição de baixo carbono.
Ao analisar o estágio atual do mercado brasileiro, a presidente executiva da ABEEólica, Elbia Gannoum, destacou que o setor aguarda definições objetivas do governo para manter o interesse dos investidores internacionais: “Estamos em um momento crucial para a concretização da eólica offshore no Brasil. A indústria aguarda por uma diretriz para os próximos passos desta implantação. Não oferecermos, neste momento, uma sinalização de prazos, pode acarretar desinvestimentos e perdas importantes para o País. Precisamos apresentar processos efetivos que garantam o sucesso do investimento do Brasil e supram a geração de demanda de médio e longo prazo.”
A avaliação é compartilhada por investidores estrangeiros que acompanham a evolução do mercado brasileiro desde a tramitação do marco legal. Hoje, o país possui dezenas de projetos protocolados no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mas nenhum empreendimento chegou à fase de implantação efetiva.
GWEC vê Brasil como peça estratégica da transição energética global
A dimensão do potencial brasileiro também mobiliza atenção internacional. Com uma das maiores extensões costeiras do mundo e elevado fator de capacidade dos ventos marítimos, o Brasil é considerado um dos mercados mais promissores para expansão da energia eólica offshore nas próximas décadas.
O CEO do GWEC, Ben Backwell, avaliou que o país possui condições de assumir protagonismo relevante na nova economia energética, desde que avance rapidamente na estruturação regulatória: “O vasto potencial eólico offshore do Brasil é evidente. O próximo passo crucial é transformar esse potencial em projetos que forneçam energia limpa e segura para a próxima etapa do desenvolvimento industrial verde e da eletrificação do Brasil. O setor eólico está pronto para investir no Brasil, mas precisa de ações concretas e prazos definidos por parte do governo, aliados a uma forte coordenação entre as principais partes interessadas. Os investimentos estão fluindo para outros mercados, mas a janela de oportunidade ainda está aberta para o Brasil. O marco regulatório do país deve se tornar um marco para a ação, proporcionando a previsibilidade e a estabilidade que impulsionam o investimento. Os primeiros projetos do país virão em seguida e o Brasil poderá então realmente avançar como líder da transição energética global.”
Nos bastidores do setor, a avaliação é que a velocidade das definições regulatórias será determinante para posicionar o Brasil dentro da disputa global por cadeias industriais associadas à transição energética.
Infraestrutura portuária entra no centro da discussão
Além da geração elétrica, o avanço da eólica offshore também é tratado como oportunidade estratégica de reindustrialização.
A implantação dos projetos exige estrutura portuária robusta, logística especializada, embarcações adaptadas, fabricação de componentes em larga escala e desenvolvimento de mão de obra qualificada. Por isso, o Brazil Offshore Wind Summit dedicará parte relevante da programação à integração entre os projetos offshore e os portos brasileiros.
A discussão ganha importância principalmente para estados do Nordeste e Sudeste, que enxergam no segmento potencial para atração de novos investimentos industriais, expansão da cadeia metalmecânica e fortalecimento da indústria naval.
Outro ponto central será a chamada “licença social para operar”, conceito que envolve a convivência dos projetos com outras atividades marítimas estratégicas, como pesca, navegação e operações de óleo e gás. A harmonização desses interesses é considerada um dos principais desafios para viabilização dos futuros leilões de áreas offshore no país.
Mercado aguarda modelo de cessão de áreas e conexão ao SIN
O desenho das futuras concessões marítimas também aparece entre os temas mais sensíveis para o setor. Os agentes aguardam definições sobre critérios de seleção de áreas, metodologia de cessão, regras de compartilhamento da infraestrutura de transmissão e responsabilidades associadas ao licenciamento ambiental.
A conexão dos projetos ao Sistema Interligado Nacional (SIN) é outro ponto considerado crítico diante do porte esperado dos empreendimentos offshore. A expectativa da indústria é que o encontro no Rio de Janeiro ajude a consolidar uma proposta técnica conjunta do setor para apresentação ao Governo Federal, funcionando como base para aceleração da regulamentação.
O objetivo é permitir que o Brasil avance rapidamente para a realização das primeiras cessões de áreas e inicie, de fato, a construção de sua indústria de geração eólica em alto-mar.



