Debates no Energy Solutions Show 2026 expõem desafios de gestão de risco, desalinhamento de preços e a necessidade de flexibilidade diante do avanço das renováveis
A crescente complexidade do setor elétrico brasileiro está transformando a energia de um insumo operacional em um ativo estratégico para empresas. Esse foi o tom predominante do ESS 2026, realizado em São Paulo, ao reunir especialistas, comercializadores, consumidores e operadores do sistema.
O evento evidenciou que a expansão do mercado livre de energia, combinada com a transição para uma matriz mais renovável, está exigindo uma nova abordagem na gestão energética corporativa, baseada em análise de risco, previsibilidade de custos e capacidade de adaptação.
Mercado livre exige maturidade e gestão ativa
No painel “Mercado Cativo vs. Mercado Livre”, a principal mensagem foi clara: migrar para o ambiente livre não é apenas uma decisão financeira, mas uma mudança estrutural na forma como as empresas lidam com energia.
Ao analisar essa transformação, o CEO da Neal, Edvaldo Santana, destaca: “O mercado livre não é só uma alternativa de preço, é uma mudança na forma de gerir energia dentro das empresas”.
O executivo também alerta para os riscos associados à falta de preparo na tomada de decisão: “Quem entra no mercado livre sem entender os riscos pode trocar uma conta previsível por uma exposição maior”.
A avaliação converge com a visão de agentes do setor de que o avanço da abertura de mercado amplia oportunidades, mas também exige maior sofisticação na administração contratual e no acompanhamento das variáveis energéticas.
Nesse contexto, a atuação de entidades como a ABRACEEL ganha relevância na estruturação do mercado e no amadurecimento dos consumidores.
Segurança energética expõe desalinhamento estrutural
O debate sobre segurança energética trouxe à tona um ponto crítico: o desalinhamento entre os sinais econômicos e a operação física do sistema elétrico.
A diretora de Assuntos Corporativos do Operador Nacional do Sistema Elétrico, Elisa Bastos Silva, chama atenção para essa distorção: “Hoje existe um descompasso entre o sinal econômico e a realidade física da operação do sistema”.
A executiva destaca que a transformação da matriz elétrica, com maior participação de fontes renováveis intermitentes, impõe novos desafios operacionais: “Gerar megawatt-hora já não é suficiente. O sistema passa a exigir flexibilidade e capacidade de resposta”.
Esse novo paradigma reforça a necessidade de mecanismos complementares, como armazenamento de energia, resposta da demanda e administração ativa do consumo.
Consumidor no centro da operação do sistema
Um dos principais consensos do evento é o reposicionamento do consumidor como agente ativo no sistema elétrico. A previsibilidade de custos, antes garantida por contratos regulados, agora depende de decisões estratégicas e monitoramento constante.
Ao abordar essa mudança de postura, Elisa Bastos Silva reforça: “O consumidor precisa olhar o sistema como um todo e ajustar o consumo de acordo com o custo ao longo do dia”.
Essa visão é compartilhada por agentes do mercado, que destacam a necessidade de governança energética nas empresas. A gestão deixa de ser pontual e passa a exigir acompanhamento contínuo, integração com planejamento financeiro e uso de ferramentas analíticas.
Contratos, risco e competitividade industrial
A complexidade contratual também foi tema central dos debates. Modelos como “take or pay”, amplamente utilizados no mercado livre, oferecem previsibilidade, mas exigem gestão rigorosa de risco. Do ponto de vista do consumidor corporativo, essa equação envolve equilibrar segurança de suprimento e eficiência econômica.
Ao analisar os desafios enfrentados pelas empresas, o gerente de Energia da Claro, Dagloberto Antunes, afirma: “Modelos como take or pay trazem previsibilidade, mas exigem gestão de risco”.
A discussão também abordou o impacto direto da confiabilidade energética na produção industrial, especialmente em setores intensivos em energia, onde interrupções ou oscilações podem gerar perdas relevantes.
O futuro: flexibilidade, eficiência e inteligência energética
A combinação entre expansão do mercado livre, crescimento das renováveis e maior complexidade regulatória exige uma evolução do modelo atual, com maior protagonismo do consumidor e novas ferramentas para gestão de risco.
Nesse cenário, energia deixa de ser apenas uma variável de custo e passa a ser um diferencial competitivo para empresas que conseguirem estruturar estratégias robustas e adaptáveis.


