Petróleo deve seguir pressionado por tensões no Oriente Médio e risco estrutural de oferta global

Relatório da StoneX aponta que bloqueio do Estreito de Hormuz e impasse entre EUA e Irã sustentam viés altista e elevada volatilidade nos preços do Brent

O mercado global de petróleo entra em um novo ciclo de pressão altista, impulsionado por riscos geopolíticos persistentes e limitações estruturais na oferta. As projeções da 35ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX indicam que a commodity deve continuar operando sob elevada volatilidade nos próximos meses, com o equilíbrio global fortemente condicionado aos desdobramentos no Oriente Médio.

No centro desse cenário está o bloqueio do Estreito de Hormuz, um dos principais corredores logísticos do petróleo no mundo, e a ausência de uma solução diplomática definitiva entre Estados Unidos e Irã. Esse conjunto de fatores vem impondo uma disrupção sem precedentes recentes no fluxo global da commodity.

Desde o início do conflito, cerca de 12 milhões de barris por dia (mbpd) deixaram de circular, o equivalente a aproximadamente 12% da produção mundial. Como consequência direta, o Brent voltou a operar acima de USD 100 por barril, retomando patamares observados durante choques anteriores, como o início da guerra no Leste Europeu.

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Limitações logísticas agravam desequilíbrio

Apesar da utilização de rotas alternativas e da mobilização de estoques estratégicos, a recomposição da oferta global segue limitada. A infraestrutura disponível não é capaz de compensar integralmente a ausência do fluxo via Golfo Pérsico.

“Mesmo considerando rotas alternativas e a liberação de reservas estratégicas, o mercado continuará convivendo com um déficit relevante nos próximos meses”, avalia Bruno Cordeiro, especialista de Inteligência de Mercado. “A atual capacidade logística não é suficiente para substituir o papel do Estreito de Hormuz, o que mantém uma parcela importante da oferta global fora do mercado.”

Atualmente, cerca de 5 mbpd vêm sendo redirecionados por rotas alternativas, com destaque para oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos até o Mar Vermelho. Além disso, aproximadamente 1,2 mbpd continuaram a atravessar o estreito, majoritariamente exportações iranianas, posteriormente impactadas pelo bloqueio norte-americano.

Estoques globais sob pressão

A tentativa de mitigar o choque de oferta passa pela liberação de reservas estratégicas. A Agência Internacional de Energia (IEA) anunciou a disponibilização de 426 milhões de barris, sendo 301 milhões de petróleo e 125 milhões de derivados. Ainda assim, o efeito tende a ser limitado frente à magnitude da disrupção.

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“Esse desequilíbrio tende a se traduzir em uma redução mais acelerada dos estoques comerciais ao longo dos próximos trimestres, principalmente se o bloqueio do estreito se prolongar”, afirma Cordeiro. “É esse fator que sustenta a expectativa de preços estruturalmente mais elevados no curto e médio prazo”. complementa.

Mesmo com a adição de aproximadamente 3 mbpd via reservas estratégicas, o mercado pode continuar com até 9 mbpd indisponíveis, cerca de 8% da oferta global, mantendo o viés altista para os preços internacionais.

Ásia no epicentro da demanda e da vulnerabilidade

O impacto do choque de oferta é particularmente sensível na Ásia, principal destino do petróleo que transita pelo Estreito de Hormuz. Em 2025, cerca de 12,9 mbpd seguiram para a região, com forte concentração em China e Índia.

A dependência dessas economias em relação ao petróleo do Golfo Pérsico amplia os riscos para o abastecimento e para a estabilidade dos preços regionais de combustíveis. A decisão da China de restringir exportações de diesel e gasolina adiciona uma camada adicional de pressão, afetando mercados asiáticos dependentes desses fluxos.

Já o Japão tende a intensificar a busca por fornecedores alternativos, especialmente os Estados Unidos, movimento que pode redesenhar os fluxos globais de comércio e pressionar ainda mais o balanço norte-americano.

Estados Unidos e Rússia redesenham fluxos globais

Nos Estados Unidos, o aumento da demanda externa tem levado as exportações de petróleo e derivados a operarem próximas da capacidade máxima. O país consolida, assim, seu papel como fornecedor estratégico em um cenário global de escassez.

Esse reposicionamento, no entanto, limita o crescimento dos estoques internos, mesmo diante de uma produção robusta.

Outro vetor relevante é o petróleo russo, que volta a ganhar espaço no mercado internacional, especialmente na Ásia, após um período de dificuldade para encontrar compradores. A maior aceitação de barris sancionados reflete a necessidade global por oferta adicional.

Entretanto, ataques recentes a portos estratégicos russos reduziram temporariamente a capacidade de exportação, reforçando o ambiente de incerteza no curto prazo.

Viés altista deve persistir sem solução diplomática

O cenário projetado pela StoneX aponta que, mesmo em caso de cessar-fogo temporário, a ausência de uma solução estrutural para o conflito entre Estados Unidos e Irã deve continuar sustentando os preços do petróleo em níveis elevados.

“As projeções da StoneX indicam que, mesmo com um cessar-fogo temporário, a falta de uma resolução definitiva entre EUA e Irã mantém um viés altista para os preços do petróleo”, conclui Bruno Cordeiro. “Um acordo duradouro e a reabertura plena do Estreito de Hormuz poderiam reverter esse movimento, levando a uma trajetória de queda mais acelerada nos preços. Até que isso ocorra, a volatilidade seguirá elevada e os riscos de oferta continuarão no centro das atenções do mercado”, finaliza, Cordeiro.

Inteligência de mercado como diferencial estratégico

Produzido desde 2015, o Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX consolida análises globais elaboradas por especialistas distribuídos em diferentes regiões, incluindo Brasil, Reino Unido, China e Estados Unidos.

A publicação se destaca por oferecer uma leitura integrada dos mercados de energia, commodities agrícolas, metais e moedas emergentes, servindo como ferramenta estratégica para agentes do setor elétrico, óleo e gás e investidores institucionais.

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