Panorama do Biogás 2025 revela crescimento consistente, ganho de escala e consolidação do biometano como vetor estratégico para descarbonização e mercado de combustíveis
O Brasil consolida sua trajetória de crescimento no setor de biogás ao atingir 1.803 plantas em operação e uma produção próxima de 5 bilhões de Nm³/ano em 2025. Os dados fazem parte do Panorama do Biogás no Brasil 2025, lançado pelo Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás) durante o 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, em Foz do Iguaçu (PR).
A evolução não se limita ao aumento quantitativo. O setor passa por uma transformação estrutural, com empreendimentos mais robustos e eficientes. O diretor-presidente do CIBiogás, Felipe Souza Marques, contextualiza o avanço ao destacar essa evolução: “o Brasil alcançou 1.803 plantas de biogás, com crescimento de 5% no número de unidades e aumento de 6% no volume produzido em relação ao ano anterior. Esse avanço mostra não apenas expansão, mas também ganho de escala e eficiência das plantas”.
Esse novo ciclo é marcado por uma inflexão relevante: a redução no número de novas plantas por ano, compensada por unidades com maior capacidade produtiva. “Estamos observando uma transformação importante: menos plantas entrando por ano, mas com maior capacidade produtiva. Isso indica evolução tecnológica e novos modelos de negócio mais robustos”, acrescenta Marques.
Biometano ganha protagonismo na matriz energética
O amadurecimento do setor também se reflete na diversificação do uso energético do biogás. Embora a geração de energia elétrica ainda concentre cerca de 62% da produção, o biometano já responde por aproximadamente 34% do volume total, mesmo com menor número de plantas.
Para Marques, essa mudança sinaliza uma transição estratégica: “Esse movimento evidencia uma transição gradual no setor. O biometano ganha espaço como rota estratégica, especialmente pela sua inserção nos mercados de gás e transporte, operando em plantas de maior escala”.
A leitura técnica é reforçada pela diretora técnica do CIBiogás, Daiana Gotardo Martinez, que aponta um salto qualitativo no papel do biogás na economia de baixo carbono: “Quando observamos esse crescimento, com o Brasil atingindo quase 5 bilhões de Nm³ de biogás por ano e expansão média de dois dígitos na última década, estamos falando de uma base que permite ao biogás evoluir para novas rotas tecnológicas. O Panorama evidencia que o setor começa a se posicionar como fornecedor de moléculas renováveis, com potencial para produção de biometano, hidrogênio e outros combustíveis de baixo carbono”.
O avanço abre caminho para aplicações industriais e energéticas mais complexas: “Hoje, cerca de 37% do biogás já é destinado à produção de biometano, o que mostra um avanço importante na cadeia de valor. A partir dessa base, o documento aponta o desenvolvimento de rotas como gás de síntese, metanol renovável, combustíveis sintéticos e o combustível sustentável de aviação, o SAF. Isso amplia significativamente o papel do biogás, que deixa de ser apenas uma solução para gestão de resíduos ou geração de energia e passa a integrar cadeias mais complexas, como a aviação e a indústria química”.
Produção concentrada e novas fronteiras regionais
O Panorama também revela uma forte concentração geográfica da produção de biogás no Brasil. São Paulo lidera com cerca de 4,9 milhões de Nm³/dia, seguido pelo Rio de Janeiro, com 1,8 milhão de Nm³/dia. Paraná e Minas Gerais aparecem na sequência, consolidando-se como polos relevantes.
Apesar da liderança consolidada, o crescimento acelerado de estados como Paraná e Minas Gerais indica uma possível reconfiguração do ranking nos próximos anos. Ao mesmo tempo, regiões como Norte e Nordeste ainda apresentam baixa participação, evidenciando um potencial significativo a ser explorado.
Esse cenário reforça a necessidade de políticas públicas direcionadas e investimentos estruturantes, especialmente em regiões com grande disponibilidade de resíduos agroindustriais e urbanos, insumos-chave para a expansão do biogás.
Biometano registra salto histórico e acelera com regulação
O biometano desponta como o principal vetor de crescimento do setor. A diretora de Estratégias de Mercado e Inovação do CIBiogás, Aline Scarpetta, destaca que 2025 registrou a maior taxa de expansão da história desse segmento: “Por ser um biocombustível regulado pela ANP, apresenta maior vocação para comercialização, com destaque para o setor de transportes, especialmente o uso veicular”.
As perspectivas para 2026 também são positivas, impulsionadas pelo aumento nos pedidos de autorização e ampliação junto à ANP, indicando a possibilidade de novos recordes.
O avanço regulatório tem papel central nesse movimento. A regulamentação vinculada à Lei do Combustível do Futuro (14.993/2024), com a criação do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB), fortalece a rastreabilidade e a comercialização do energético.
“Essas novas demandas energéticas, o avanço regulatório e a integração com mercados de combustíveis renováveis também são fatores que vêm impulsionando o biometano brasileiro. Em especial a definição da meta pelo CNPE no início de abril”, conclui Scarpetta.
Dados e inteligência de mercado ganham protagonismo
A qualidade das informações disponíveis passa a ser um diferencial estratégico para o desenvolvimento do setor. No âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o coordenador-geral de Tecnologias Setoriais, Rafael Menezes, destaca a importância do mapeamento técnico: “Quanto mais dados qualificados tivermos, maior será a capacidade de direcionar investimentos e fortalecer o desenvolvimento do biogás e do biometano no país”.
A agenda governamental inclui a expansão do setor nas regiões Norte e Nordeste, com articulação entre instituições como CIBiogás, UFRN e Senai Cimatec, além de integração com políticas de transporte e desenvolvimento urbano.
Na mesma linha, o diretor executivo da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), Tiago Santovito, ressalta o papel do Panorama como referência para o mercado: “O Panorama é hoje a principal base de dados do setor. Ele organiza informações que antes estavam dispersas e permite que empresas, governo e investidores tomem decisões mais qualificadas”.
A evolução dessa inteligência inclui o desenvolvimento de uma plataforma digital para monitoramento em tempo real: “A construção de uma ferramenta robusta, que integre dados de produção atual e projetos futuros, será fundamental para apoiar a definição de metas nacionais e dar mais transparência ao mercado”.
Inovação tecnológica e integração com novas cadeias
O avanço do setor também se reflete na modernização de ativos estratégicos. A reinauguração da Unidade de Demonstração de Biocombustíveis da Itaipu, em Foz do Iguaçu, reforça o papel da inovação tecnológica no desenvolvimento do biogás.
Com mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos processados desde 2017, a unidade já produziu biometano suficiente para percorrer cerca de 480 mil quilômetros, além de atuar como plataforma de testes e capacitação.
O espaço integra diferentes rotas tecnológicas, incluindo a produção de hidrocarbonetos renováveis como o biosyncrude, base para combustíveis avançados como o SAF, ampliando a conexão do biogás com setores estratégicos como aviação e indústria química.
Um setor em transição para protagonismo energético
O Panorama do Biogás 2025 consolida um diagnóstico claro: o Brasil entra em uma nova fase do setor, marcada por escala, diversificação e integração com cadeias de valor mais complexas.
Com crescimento consistente, avanço regulatório e maior sofisticação tecnológica, o biogás, e especialmente o biometano, se posiciona como peça-chave na agenda de descarbonização, segurança energética e economia circular no país.



