Estudo da TR Soluções aponta explosão do ERCAP para R$ 78/MWh e reforça necessidade de modernização do modelo com resposta da demanda e novos sinais de preço
A contratação de potência no Brasil, historicamente tratada como um “seguro” para garantir a confiabilidade do sistema elétrico, começa a revelar seu custo real para os consumidores. Análise da TR Soluções indica que os efeitos do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) devem provocar uma escalada significativa nas tarifas ao longo da próxima década, com impacto mais intenso sobre consumidores industriais.
O estudo projeta que o Encargo de Potência para Reserva de Capacidade (ERCAP) poderá alcançar cerca de R$ 48 bilhões anuais no início dos anos 2030. Na prática, isso representa uma transformação estrutural na composição tarifária brasileira, com a potência ganhando protagonismo frente à energia propriamente dita.
Ainda em 2026, os impactos começam de forma moderada, com um acréscimo médio de aproximadamente 0,4% nas tarifas dos consumidores cativos. No entanto, à medida que os contratos firmados no leilão entram em operação, a pressão tarifária se intensifica, podendo atingir 8,4% em média até 2032.
Indústria no centro da pressão tarifária
A assimetria dos impactos entre classes de consumo é um dos principais alertas do estudo. Consumidores conectados em alta tensão, tipicamente grandes indústrias eletrointensivas, devem enfrentar os maiores aumentos, com elevação média estimada de 13,5% nas tarifas até 2032.
Já consumidores de média tensão, como empresas de médio porte, devem registrar aumento médio de 10,3%, enquanto o segmento residencial deve absorver um impacto de 7,5%.
No mercado livre, a pressão será ainda mais direta. O ERCAP, atualmente em torno de R$ 7/MWh, pode atingir R$ 78/MWh no horizonte da próxima década, alterando significativamente a estrutura de custos dos contratos de energia.
Esse movimento reforça uma tendência já observada por agentes do setor: o deslocamento do custo da segurança energética para os consumidores, especialmente aqueles com maior previsibilidade e intensidade de consumo.
Origem do problema: atraso na contratação e prêmio de risco
A necessidade de contratação de potência não é recente. O planejamento oficial do setor elétrico já apontava, desde 2012, para a importância de estruturar mecanismos que garantissem a confiabilidade do sistema em cenários de estresse.
No entanto, a efetiva contratação só ganhou tração a partir de 2021, em um contexto de maior urgência, o que elevou significativamente o custo dos contratos.
Ao analisar essa dinâmica, o diretor de Regulação da TR Soluções, Helder Sousa, destaca o impacto do timing na formação de preços: “Ao se buscar o suprimento próximo ao limite de criticidade projetado para o sistema, acabou-se por incorporar aos contratos um prêmio de risco compatível com a urgência da contratação”.
A leitura técnica indica que a postergação das decisões estruturais levou o sistema a contratar potência em condições menos favoráveis, elevando o custo final para o consumidor.
Limites do modelo atual e necessidade de modernização
Além do impacto financeiro, o estudo levanta uma discussão mais ampla sobre o desenho do setor elétrico brasileiro. A dependência histórica de usinas térmicas como principal instrumento de segurança energética começa a ser questionada diante da evolução tecnológica e da crescente penetração de fontes renováveis.
Na avaliação de Helder Sousa, o modelo atual já não é suficiente para responder aos desafios de flexibilidade do sistema: “A análise mostra que a segurança do sistema não pode mais depender exclusivamente da contratação de usinas térmicas. A modernização dos sinais de preços e a estruturação de mecanismos mais robustos de resposta da demanda são inadiáveis, para que o próprio consumidor tenha incentivos econômicos adequados para achatar o seu consumo na ponta”.
A introdução de mecanismos como resposta da demanda, armazenamento de energia e precificação mais granular surge como alternativa para reduzir a necessidade de contratação de potência cara e, consequentemente, aliviar a pressão tarifária no longo prazo.
O que está em jogo para o setor elétrico
O avanço do LRCAP marca uma inflexão importante na trajetória do setor elétrico brasileiro. Se, por um lado, a contratação de capacidade garante maior segurança operacional ao Sistema Interligado Nacional (SIN), por outro, expõe a fragilidade de um modelo que ainda carece de instrumentos modernos de gestão da demanda e flexibilidade.
Para consumidores industriais, o cenário exige revisão estratégica de contratos, investimentos em eficiência energética e maior participação em soluções como autoprodução e armazenamento. Já para formuladores de política pública, o desafio será equilibrar segurança energética com modicidade tarifária, um dilema que tende a se intensificar nos próximos anos.



