Com juros em 14,75%, empresas recorrem a linhas de fomento para viabilizar investimentos em inovação, digitalização e expansão produtiva
Mesmo com sinais de estabilização na política monetária, a taxa básica de juros ainda em patamar elevado, atualmente em 14,75% ao ano, definida pelo Banco Central do Brasil, segue impactando diretamente o planejamento financeiro das empresas brasileiras.
No ambiente industrial, o custo do capital voltou ao centro das decisões estratégicas. Projetos de expansão, modernização e inovação passaram a ser submetidos a critérios mais rigorosos de viabilidade, considerando retorno ajustado ao risco, impacto no fluxo de caixa e estrutura de financiamento.
Nesse cenário, empresas, especialmente de médio porte, têm revisitado suas estratégias de funding diante da perda de competitividade do crédito tradicional.
Crédito tradicional perde espaço em ambiente restritivo
A elevação da taxa de juros impacta diretamente as linhas atreladas ao CDI, predominantes no mercado privado. Instrumentos como debêntures e operações estruturadas continuam acessíveis majoritariamente a grandes companhias, com maior grau de governança e acesso ao mercado de capitais.
Na prática, isso tem restringido o crédito para a base empresarial. O sócio-diretor da FC Partners, Lucas Della-Sávia, detalha esse movimento: “Expansões, modernização de plantas, aquisição de máquinas e investimentos em tecnologia competem com a necessidade de preservar liquidez. O efeito é a postergação de parte dos investimentos produtivos”.
O executivo também chama atenção para o endurecimento das condições de financiamento: “Para a base empresarial, o crédito ficou mais curto, mais caro e mais exigente em garantias”.
Engenharia financeira ganha protagonismo nas empresas
Com o encarecimento do crédito, a discussão deixou de ser apenas sobre acesso a recursos e passou a envolver a estruturação do passivo.
O mesmo executivo da FC Partners destaca a mudança de abordagem nas companhias: “A escolha da fonte de capital, bem como prazo, indexador, carência e exigências técnicas, se tornou uma decisão estratégica. A estruturação eficiente do passivo passou a impactar diretamente a capacidade de investimento e a competitividade das empresas”.
Esse movimento marca uma transição importante no ambiente corporativo brasileiro, em que o funding deixa de ser operacional e passa a ser um elemento central da estratégia de crescimento.
Linhas subsidiadas ganham protagonismo na indústria
Diante desse cenário, linhas de crédito operadas por bancos de desenvolvimento voltaram a ganhar relevância, sobretudo para financiar projetos de inovação e digitalização.
Instituições como o BNDES e a Finep têm ampliado a oferta de recursos voltados à chamada indústria 4.0. O pacote anunciado anteriormente, que pode alcançar até R$ 300 bilhões até 2026, começa a chegar de forma mais concreta às empresas.
Na avaliação de Lucas Della-Sávia, essas linhas mudam a lógica de investimento: “A lógica econômica é reduzir o custo financeiro para viabilizar investimentos em robótica, Internet das Coisas (IoT), automação e manufatura avançada, áreas consideradas estratégicas para a agenda de inovação industrial. Com prazos mais longos e taxas inferiores às praticadas no mercado tradicional, essas linhas alteram o cálculo de viabilidade e ampliam o horizonte de planejamento”.
Impacto direto sobre PMEs e produtividade
Para micro, pequenas e médias empresas, o acesso a crédito subsidiado pode representar um divisor de águas em termos de competitividade.
O especialista reforça o efeito prático dessas condições diferenciadas: “Ao acessar crédito com condições diferenciadas, essas companhias conseguem diluir o desembolso inicial e capturar ganhos de produtividade que, em ambiente de juros elevados, ficariam comprometidos”.
No entanto, o acesso a essas linhas exige preparo técnico e alinhamento com critérios específicos das instituições de fomento. O executivo aponta um dos principais gargalos: “Cada banco de desenvolvimento opera com critérios técnicos próprios, métricas de inovação e requisitos regulatórios específicos. A modelagem financeira e técnica precisa nascer alinhada a essas diretrizes”.
Estruturação de funding se torna diferencial competitivo
A crescente complexidade do ambiente de crédito tem impulsionado a demanda por assessorias especializadas na estruturação de funding.
De acordo com Lucas Della-Sávia, o papel dessas consultorias vai além da intermediação: “Não é uma assessoria documental. Trabalhamos na estruturação da estratégia de capital, avaliando qual instrumento faz sentido para cada projeto e qual combinação de fontes reduz o custo médio da dívida no longo prazo.”
Casos recentes envolvem operações com empresas como Skill Certo, Avanço, NoventaTI e Aiko, que acessaram linhas como o Pró-Inovação do BDMG.
Juros altos exigem estratégia financeira mais sofisticada
A tendência é de continuidade dessa dinâmica enquanto a política monetária permanecer restritiva. Na avaliação final do executivo, o impacto do funding na saúde financeira das empresas é estrutural: “Capital tem preço, prazo e impacto estrutural. Escolher a fonte errada compromete o fluxo de caixa por anos. Quando o funding é estruturado de forma estratégica, ele passa a sustentar o crescimento, não a pressionar a margem”.
Ele reforça ainda o papel das linhas subsidiadas no cenário atual: “Com a Selic em 14,75%, o crédito tradicional compromete margens e alonga o payback. Linhas subsidiadas deixam de ser alternativas e passam a compor a estratégia financeira da empresa”.
E conclui destacando o diferencial competitivo das empresas mais preparadas: “Empresas que tratam o funding como variável estratégica conseguem manter a agenda de modernização mesmo em ambiente adverso. As demais operam para preservar o caixa”.



