Com grandes reservas e potencial industrial, região reúne condições para reduzir dependência global da China e fortalecer cadeias de suprimentos de minerais críticos
A corrida global por minerais críticos, essenciais para tecnologias de baixo carbono, está reposicionando regiões estratégicas no mapa geopolítico da energia. Estudo recente da KPMG aponta que a América do Sul reúne vantagens competitivas relevantes para liderar a reconfiguração das cadeias de suprimentos de terras raras, insumos fundamentais para turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
O relatório analisa o cenário internacional de oferta e demanda, destacando que a concentração produtiva em poucos países representa um risco crescente para a segurança energética global. Nesse contexto, a diversificação geográfica do fornecimento passa a ser uma prioridade estratégica para governos e investidores.
Dependência global da China pressiona cadeias de suprimento
Atualmente, mais de 70% da produção mundial de terras raras está concentrada na China, o que gera vulnerabilidades estruturais em um momento de aceleração da transição energética. A dependência de um único fornecedor amplia riscos geopolíticos e pode comprometer metas climáticas e industriais.
Ao analisar esse cenário, o sócio-líder de Energia e Recursos Naturais da KPMG no Brasil e na América do Sul, Manuel Fernandes, destacou o caráter estratégico da oportunidade para a região: “O desafio é claro: mais de 70% da produção atual está concentrada na China, o que gera alta dependência e vulnerabilidades estratégicas que, somados à complexidade técnica da extração e do processamento, podem comprometer as metas climáticas e o fornecimento. A América do Sul – especialmente o Brasil, que possui as segundas maiores reservas mundiais de terras raras, mas ocupa a 12ª posição na produção – enfrenta uma oportunidade histórica de fechar essa lacuna e consolidar sua presença como um país relevante no mercado global”.
Brasil desponta como protagonista potencial
Dentro da América do Sul, o Brasil aparece como um dos principais candidatos a liderar esse movimento. O país detém as segundas maiores reservas globais de terras raras, mas ainda apresenta baixa participação na produção, evidenciando um gap significativo entre potencial geológico e capacidade industrial.
Esse descompasso revela uma oportunidade estratégica: desenvolver uma cadeia integrada que vá além da extração mineral, incorporando etapas de refino, processamento e agregação de valor.
Para o setor elétrico, esse avanço é particularmente relevante. As terras raras são componentes-chave na fabricação de ímãs permanentes utilizados em geradores eólicos, motores elétricos e equipamentos de alta eficiência energética.
Quatro vetores para reconfiguração das cadeias
O estudo da KPMG identifica quatro pilares fundamentais para que a América do Sul se consolide como um novo hub global de minerais críticos.
O primeiro é a diversificação geográfica do fornecimento, com o aproveitamento de reservas ainda não exploradas para reduzir a dependência global e aumentar a resiliência das cadeias.
Outro ponto central é o desenvolvimento de capacidades locais de processamento. A região já possui experiência em mineração, infraestrutura básica e capital humano, fatores que podem acelerar a instalação de plantas de refino e reduzir gargalos logísticos.
A promoção da economia circular surge como terceiro vetor estratégico, com a reciclagem de componentes eletrônicos, baterias e motores elétricos contribuindo para complementar o suprimento primário e reduzir a pressão sobre recursos naturais.
Por fim, a incorporação de análises de risco mais sofisticadas, incluindo variáveis geopolíticas, climáticas e econômicas, é apontada como essencial para garantir estabilidade e previsibilidade nas cadeias de suprimentos.
Transição energética amplia demanda por terras raras
A pressão sobre a oferta de minerais críticos deve se intensificar nos próximos anos, impulsionada pela expansão de tecnologias limpas. A eletrificação da mobilidade e a ampliação da capacidade de geração renovável exigem volumes crescentes de terras raras, colocando o tema no centro da agenda energética global.
Ao avaliar esse cenário, Manuel Fernandes reforçou a necessidade de estratégias complementares para garantir o equilíbrio entre oferta e demanda: “Esses elementos reforçam a necessidade de diversificar as fontes de produção, especialmente, no cenário de neutralidade de carbono, no qual a penetração massiva de veículos elétricos e a instalação acelerada de parques eólicos exigirão volumes sem precedentes de terras raras, forçando a economia global a considerar estratégias complementares, como a reciclagem de ímãs, o desenvolvimento de tecnologias substitutivas e a implementação de uma economia circular orientada à recuperação de materiais críticos”.
Oportunidade estratégica e desafios estruturais
Embora o potencial da América do Sul seja significativo, a consolidação da região como player global em terras raras dependerá de avanços regulatórios, segurança jurídica e atração de investimentos de longo prazo.
A criação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento da cadeia produtiva, aliada à integração com estratégias de transição energética, será determinante para transformar vantagem geológica em competitividade industrial.
Para o setor elétrico, a evolução desse mercado representa não apenas uma questão de suprimento, mas um elemento central na viabilização de tecnologias críticas para a descarbonização.



