Com endividamento elevado, deterioração da liquidez e pressão operacional, análise aponta que solução passa por reestruturação profunda, e não apenas rolagem de dívida
A possível reestruturação da Braskem reacendeu discussões no mercado sobre os limites da alavancagem financeira em empresas intensivas em capital. Em meio a um cenário de juros elevados e restrição de crédito, a companhia avalia alternativas como recuperação judicial ou mecanismos de proteção contra credores, buscando preservar caixa e reorganizar seu passivo.
A avaliação ganhou força em março de 2026, quando o tema passou a dominar o noticiário financeiro. Para o advogado e especialista em insolvência empresarial Claudio Montoro, sócio do M3 Advogados e professor do Insper, o foco da análise deve ir além das manchetes.
“A reação costuma ser intensa quando grandes empresas brasileiras enfrentam crises, mas pouco se discute sobre os detalhes dessa situação e as alternativas viáveis para solucioná-la. O estudo aprofundado dos números da empresa nos dá uma visão mais clara sobre a dimensão da crise e suas alternativas”, afirma Montoro.
Perfil da dívida acende alerta de curto prazo
O ponto de partida da análise está na estrutura do passivo. Desde 2023, a companhia acumula dívida próxima a R$ 100 bilhões. Mais relevante do que o volume é a mudança na composição: cerca de 40% do total passou a ser de curto prazo em 2025, ante 26% no ano anterior.
A alteração indica dificuldades na renegociação de prazos e aumento da pressão sobre o caixa em 2026. Para este ano, os vencimentos giram em torno de US$ 1,5 bilhão, frente a um caixa de aproximadamente US$ 2,1 bilhões ao fim de 2025, uma folga que, na prática, é limitada diante da estrutura de custos e obrigações.
O ambiente macroeconômico agrava o cenário. “Seu endividamento é composto majoritariamente por financiamentos e debêntures, expondo a empresa ao impacto da alta da taxa Selic, que saiu de 2% para 15% entre 2020 e março de 2026. Esse cenário de juros altos dificulta a redução do endividamento sem que a empresa tenha fôlego no vencimento de suas obrigações”, explica o especialista.
Operação fragilizada compromete geração de caixa
A deterioração operacional é um dos principais pontos de atenção. Apesar da receita relevante, a estrutura de custos compromete a capacidade de geração de caixa. O custo da mercadoria vendida consome cerca de 96% da receita líquida, deixando margem mínima para despesas adicionais, especialmente financeiras.
Entre 2023 e 2025, as despesas totais superaram a receita líquida, com destaque para o peso dos encargos financeiros, que chegaram a representar 89% das despesas em dezembro de 2025.
“A fragilidade financeira de uma companhia vai além do endividamento. É fundamental analisar os resultados e a capacidade de gerar recursos para pagar os passivos. Os resultados da Braskem nos últimos anos não atraíram investidores, dificultando a emissão de novos títulos e a reestruturação do passivo apenas com alongamento da dívida”, destaca Montoro.
Indicadores de liquidez confirmam deterioração
Os índices financeiros reforçam o diagnóstico crítico. A liquidez corrente, que estava acima de 1 em 2023 e 2024, caiu para 0,76 em 2025, refletindo a redução do caixa e dos estoques. No mesmo período, a empresa reportou prejuízo de R$ 10,3 bilhões e reconheceu “incerteza material” sobre sua continuidade operacional.
A liquidez geral, indicador mais conservador, atingiu 0,38, indicando que a companhia dispõe de apenas R$ 0,38 em ativos disponíveis para cada R$ 1,00 de dívida. Ao mesmo tempo, ativos imobilizados e intangíveis somam R$ 44,5 bilhões, equivalente a 45% do passivo total, evidenciando forte dependência de capital de terceiros.
Passivo socioambiental amplia complexidade
A crise não se restringe ao campo financeiro. O caso envolvendo o afundamento de bairros em Maceió adiciona um componente estrutural relevante. O impacto atingiu cerca de 60 mil pessoas e resultou na condenação de aproximadamente 14 mil imóveis.
Embora um programa de indenização tenha sido iniciado em 2019, o passivo segue em aberto, com disputas judiciais relacionadas aos valores pagos. Esse fator amplia o risco jurídico e pressiona ainda mais a percepção de risco da companhia.
Reestruturação profunda surge como única saída viável
Diante desse conjunto de fatores, a avaliação técnica aponta que soluções tradicionais, como a simples rolagem de dívida, tendem a ser insuficientes.
“A Braskem necessita de uma profunda reestruturação de seus passivos e operações. A recuperação judicial ou extrajudicial pode ser uma solução eficaz, desde que acompanhada de um compromisso de reestruturação operacional”, defende Montoro.
A análise também insere o caso em um contexto mais amplo da indústria nacional. “No contexto de desindustrialização do Brasil, manter empresas em atividade é prioridade, porém sem comprometer os direitos dos credores, sob pena de perder credibilidade no sistema e prejudicar outras empresas listadas pela fuga de capital estrangeiro.”
O especialista destaca que o arcabouço legal brasileiro permite equilibrar esses interesses. “O caminho judicial se baseia em uma lei que tem a preservação da atividade como um de seus princípios fundamentais, facilitando a convergência desses fatores. O equilíbrio depende de uma revisão dos interesses dos credores e da reestruturação operacional”, conclui Montoro.
Mercado acompanha próximos passos
Em comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Braskem informou que ainda não há decisão sobre qual caminho será adotado. O diagnóstico segue em andamento.
Independentemente da alternativa escolhida, o caso se consolida como um dos mais emblemáticos do mercado brasileiro recente. Para analistas, ele reforça a importância da leitura antecipada de indicadores financeiros, especialmente em empresas de capital aberto, onde os sinais de deterioração costumam surgir com antecedência.



