Relatório revela mais de US$ 405 bilhões em despesas anuais e uma nova agenda global focada em segurança, resiliência e transição energética
A política energética global entrou em uma fase de intensa transformação nos últimos cinco anos, impulsionada por uma sequência de choques geopolíticos, econômicos e sanitários. É o que aponta o novo relatório “Estado da Política Energética 2026”, divulgado pela Agência Internacional de Energia, que mapeia uma onda sem precedentes de intervenções governamentais no setor.
O estudo revela que governos ao redor do mundo ampliaram significativamente sua atuação para garantir segurança energética, proteger consumidores e acelerar a transição para fontes mais limpas. O movimento ocorre em resposta direta a eventos como a pandemia de Covid-19, a crise energética de 2022 e tensões geopolíticas recentes, incluindo conflitos no Oriente Médio.
Com base em mais de 6.500 medidas adotadas em 84 países, o relatório consolida um panorama abrangente das mudanças regulatórias, fiscais e estruturais que estão redesenhando o setor energético global.
Gastos públicos com energia ultrapassam US$ 400 bilhões
Um dos dados mais expressivos do levantamento é o crescimento acelerado dos gastos governamentais com energia. Desde 2019, esses investimentos mais que dobraram, alcançando mais de US$ 405 bilhões em 2025.
Grande parte desses recursos foi direcionada a projetos estruturantes, como infraestrutura energética, expansão de energias renováveis, eficiência energética e desenvolvimento de cadeias produtivas industriais ligadas à transição energética.
O relatório também aponta que, mesmo antes da intensificação recente das tensões no Oriente Médio, a expectativa já era de manutenção desses níveis elevados de investimento até o fim da década, evidenciando uma mudança estrutural no papel do Estado no setor.
Lições da crise de 2022 expõem falhas na proteção ao consumidor
A crise energética global de 2022, desencadeada pela Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, trouxe aprendizados importantes para os formuladores de políticas públicas.
Naquele ano, cerca de US$ 220 bilhões foram destinados a medidas emergenciais de apoio ao consumidor. No entanto, apenas aproximadamente um quarto desse montante chegou efetivamente às famílias mais vulneráveis, o que elevou o custo fiscal das intervenções.
Além disso, o episódio levou à adoção de mecanismos mais robustos de segurança energética, especialmente no mercado de gás natural. Segundo o relatório, 30 países, responsáveis por mais de 40% das importações globais, ampliaram exigências de armazenamento estratégico, reforçando a resiliência diante de choques de oferta.
Minerais críticos e cadeias produtivas entram no centro da estratégia
Outro eixo relevante da nova política energética global é a crescente preocupação com a segurança das cadeias de suprimento, especialmente no que se refere a minerais críticos utilizados em tecnologias energéticas.
O relatório destaca que cerca de um terço das políticas voltadas a esses insumos foi implementado apenas nos últimos cinco anos, refletindo a intensificação da disputa global por recursos estratégicos.
A concentração da produção e os recentes controles de exportação adotados por alguns países elevaram o tema ao centro da agenda energética, com impactos diretos sobre a indústria de baterias, veículos elétricos e geração renovável.
Equilíbrio entre curto e longo prazo desafia governos
A necessidade de conciliar respostas emergenciais com objetivos estruturais de longo prazo aparece como um dos principais desafios para os governos.
A diretora de Sustentabilidade, Tecnologia e Perspectivas da Agência Internacional de Energia, Laura Cozzi, destacou a complexidade desse cenário: “A política energética está sendo moldada por um conjunto complexo e em constante evolução de restrições globais. Os governos estão agindo para proteger os consumidores, fortalecer a resiliência e garantir o abastecimento, mas também devem assegurar que as respostas de curto prazo não comprometam os objetivos energéticos de longo prazo. As escolhas feitas hoje podem ter implicações duradouras para o futuro dos sistemas energéticos.”
A declaração reforça a necessidade de planejamento integrado, capaz de evitar distorções que comprometam a eficiência e a sustentabilidade do setor no futuro.
Retrocessos regulatórios acendem alerta na eficiência energética
Apesar dos avanços, o relatório identifica sinais de desaceleração em áreas estratégicas, como eficiência energética. Embora 15 países tenham reforçado padrões regulatórios, houve uma tendência mais ampla de adiamento ou flexibilização de medidas, especialmente no setor de transporte.
Esses movimentos, motivados em parte pela tentativa de aliviar custos no curto prazo, podem aumentar a exposição de consumidores e empresas à volatilidade dos preços de energia no médio e longo prazo.
Nova crise pode inaugurar ciclo semelhante ao dos anos 1970
A Agência Internacional de Energia alerta ainda que o atual cenário geopolítico pode desencadear uma nova fase de formulação intensiva de políticas energéticas, com paralelos às respostas observadas durante as crises do petróleo da década de 1970.
A combinação de instabilidade geopolítica, transição energética e transformação tecnológica cria um ambiente de elevada complexidade, exigindo respostas coordenadas e de longo alcance.
Nesse contexto, a entidade sinaliza que continuará monitorando as políticas globais por meio de seu Centro de Políticas Energéticas, acompanhando como governos lidam com os desafios de um sistema energético em rápida evolução.
Um novo papel para o Estado no setor energético
O conjunto de dados e análises do relatório aponta para uma conclusão clara: o papel do Estado no setor energético está se expandindo e se sofisticando.
Mais do que reguladores, governos passam a atuar como investidores, planejadores e garantidores de segurança energética, em um cenário onde riscos geopolíticos, tecnológicos e climáticos se entrelaçam.
Para mercados emergentes como o Brasil, o movimento global reforça a importância de alinhar políticas públicas, regulação e investimentos para garantir competitividade, segurança e sustentabilidade no longo prazo.



