Queda na carga durante o feriado de Páscoa pode levar ao acionamento, pela primeira vez, de medidas de curtailment em usinas Tipo III, ampliando o alcance das ações operativas diante do avanço das renováveis distribuídas
O ONS colocou em prontidão um plano emergencial para gestão de excedentes de energia durante o feriado da Semana Santa, diante da expectativa de forte redução no consumo elétrico em todo o país. A medida foi debatida durante a reunião do Programa Mensal de Operação (PMO) de abril e reflete uma preocupação crescente com o equilíbrio entre oferta e demanda no Sistema Interligado Nacional.
A combinação de baixa atividade industrial e comercial com elevada geração renovável, sobretudo solar, cria um cenário de sobreoferta no período diurno, especialmente aos domingos e feriados prolongados. Esse descompasso operacional eleva o risco de instabilidade no sistema, exigindo respostas mais sofisticadas do operador.
Caso as projeções se confirmem, o Plano Emergencial de Gestão de Excedentes poderá ser acionado pela primeira vez desde sua concepção, marcando um novo capítulo na operação do sistema elétrico brasileiro.
Curtailment avança para usinas fora da coordenação direta
O principal diferencial da estratégia está na possibilidade de cortes de geração (curtailment) em usinas classificadas como Tipo III, empreendimentos conectados às redes de distribuição e que, até então, não eram diretamente despachados pelo ONS.
Esse grupo inclui Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), usinas a biomassa e projetos eólicos e solares de menor porte. Até o momento, as restrições operativas estavam concentradas nas usinas Tipo I, conectadas à rede básica e sob controle direto do operador.
A mudança reflete a transformação estrutural da matriz elétrica brasileira, com crescimento acelerado da micro e minigeração distribuída (MMGD) e da geração descentralizada. Esse movimento vem reduzindo a previsibilidade da carga líquida e comprimindo a margem de manobra operacional do sistema.
Evento de 2024 expôs limites operativos
A adoção do plano emergencial tem como pano de fundo o episódio registrado em agosto de 2024, durante o Dia dos Pais, quando o sistema enfrentou um dos maiores estresses operativos recentes.
Na ocasião, o operador foi obrigado a cortar 98,5% da geração disponível de fontes eólica e solar centralizadas para evitar sobrecarga na rede. O evento evidenciou a dificuldade de acomodar grandes volumes de energia intermitente em períodos de baixa demanda.
Desde então, o ONS vem aprimorando mecanismos de resposta rápida para lidar com situações extremas, incluindo a ampliação do escopo de atuação sobre diferentes classes de geração.
Segurança do sistema entra em foco
O risco central está associado à estabilidade elétrica do SIN. Em cenários de sobreoferta, o excesso de energia pode provocar desvios de frequência e tensão, comprometendo a integridade da rede e, em casos mais severos, levando a interrupções no fornecimento.
O plano emergencial surge, nesse contexto, como uma espécie de “última linha de defesa” para garantir que a geração permaneça compatível com a capacidade de absorção do sistema.
Durante o acompanhamento do cenário, técnicos do operador reforçaram o monitoramento contínuo ao longo das próximas semanas: “Será feito um acompanhamento maior seja na próxima semana, quando haverá o feriado de Páscoa, seja nas semanas seguintes de abril e maio”.
A intensificação do monitoramento indica que o risco não se limita ao feriado, podendo se estender ao longo do período seco inicial, quando a combinação de alta geração solar e carga reduzida tende a se repetir.
Crescimento da geração distribuída pressiona operação
O avanço da MMGD adiciona uma camada adicional de complexidade à operação do sistema. Como essa geração não é totalmente visível ou controlável em tempo real pelo ONS, sua expansão amplia a incerteza sobre o comportamento da carga líquida.
Esse fenômeno exige mudanças estruturais no modelo de operação e planejamento, com maior integração entre distribuição e transmissão, além de novas ferramentas de previsão e controle.
Embora o plano emergencial tenha sido considerado em momentos anteriores, como nas festas de fim de ano, o cenário atual, com maior penetração de renováveis distribuídas, torna sua eventual adoção mais provável e relevante.
Flexibilidade entra na agenda prioritária
O possível acionamento do plano reforça a urgência de soluções de flexibilidade para o sistema elétrico brasileiro. Tecnologias como armazenamento por baterias (BESS), resposta da demanda e mecanismos de precificação mais dinâmicos ganham protagonismo nesse novo contexto.
Mais do que uma medida pontual, o episódio sinaliza uma inflexão na forma como o Brasil precisará operar sua matriz elétrica nos próximos anos: com maior coordenação, digitalização e capacidade de adaptação a variações rápidas de oferta e demanda.
Para agentes do setor, o movimento também acende discussões regulatórias importantes, especialmente sobre a alocação de custos do curtailment e a responsabilidade pelo equilíbrio sistêmico em um ambiente cada vez mais descentralizado.



