Governo articula nova agenda baseada em minerais críticos, agregação de valor e armazenamento de energia, com foco em industrialização, inovação e segurança energética.
O Ministério de Minas e Energia (MME) reforçou, nesta semana, a estratégia brasileira de reposicionar a mineração como eixo estruturante da transição energética e do desenvolvimento industrial sustentável. A sinalização foi dada durante a participação do Brasil na Mesa Redonda sobre Agregação de Valor no Desenvolvimento Mineral, promovida pelo Fórum Intergovernamental sobre Mineração, Minerais, Metais e Desenvolvimento Sustentável (IGF), que reuniu representantes de países da América Latina e da África.
O encontro teve como foco central a discussão sobre como os países do chamado Sul Global podem avançar para além do modelo histórico de exportação de commodities minerais in natura, passando a ocupar posições mais sofisticadas nas cadeias globais de valor. Nesse contexto, o Brasil apresentou sua visão de que a transição energética mundial depende diretamente da mineração, mas que o verdadeiro desafio está em transformar riqueza geológica em desenvolvimento econômico, social e tecnológico.
Segundo o MME, a agenda brasileira está ancorada na integração entre políticas minerais, industriais e energéticas, buscando alinhar a exploração de recursos naturais com a geração de empregos qualificados, inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental.
Agregação de valor como eixo estruturante da política mineral
Durante a mesa-redonda, o governo brasileiro destacou que a simples exportação de minério bruto não é mais compatível com os desafios impostos pela transição energética e pela reconfiguração geopolítica das cadeias produtivas globais. A prioridade agora é estimular investimentos em processamento mineral, refino, industrialização e manufatura avançada.
Ao detalhar os mecanismos de suporte à nova política, o coordenador-geral de Minerais Estratégicos e Transição Energética do MME, Gustavo Masili, reforçou que o governo trabalha para consolidar uma estrutura institucional que ofereça segurança e incentivos ao investidor.
“O Estado brasileiro tem sinalizado de forma clara que quem investe em inovação, processamento mineral e responsabilidade ambiental encontrará um ambiente favorável, com instrumentos de crédito e apoio institucional”, afirmou.
A fala reflete uma estratégia mais ampla do governo federal, que inclui iniciativas como a chamada pública de Pesquisa e Desenvolvimento em Transformação Mineral, lançada em 2025, além da modernização de instrumentos financeiros voltados a projetos sustentáveis e à atração de capital produtivo.
Outro ponto ressaltado foi a criação de ambiente regulatório mais previsível e transparente, com o uso de plataformas digitais, guias para investidores estrangeiros e estímulo à cooperação regional, especialmente no âmbito do Mercosul, como forma de estruturar cadeias de valor integradas no continente.
Brasil e China: energia, minerais críticos e armazenamento no centro da agenda
A agenda mineral brasileira também ganhou dimensão internacional com a visita do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, à China, onde se reuniu com executivos da Contemporary Amperex Technology Co. Limited (CATL), maior empresa de baterias do mundo e líder global em soluções para descarbonização.
O encontro ocorreu em meio ao crescente interesse internacional nas políticas brasileiras de armazenamento de energia e minerais críticos, considerados estratégicos para a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN) e para a consolidação de uma matriz elétrica cada vez mais limpa e resiliente.
Ao avaliar o atual estágio da agenda conjunta com investidores orientais, o ministro Silveira sublinhou que a cooperação técnica e financeira é o motor para projetos de infraestrutura de larga escala. “Tenho clareza da importância dessa proximidade vigorosa entre o Ministério de Minas e Energia e os representantes dos setores de energia e mineração da China”, afirmou o ministro.
No setor elétrico, Alexandre Silveira apresentou as diretrizes gerais do primeiro leilão de baterias do país, previsto para abril de 2026, com início de suprimento em agosto de 2028. O certame será voltado exclusivamente a novos sistemas de armazenamento, com contratos de potência de reserva de dez anos, baseados na disponibilidade de potência em megawatts (MW).
A proposta representa um marco regulatório inédito no Brasil e posiciona o armazenamento como elemento central da nova arquitetura do sistema elétrico, especialmente diante do crescimento acelerado das fontes renováveis intermitentes.
Segurança energética e mercado de longo prazo
Durante a reunião, o ministro também destacou que o Brasil se consolidou como um dos maiores mercados de energia do mundo, com ambiente regulatório estável e elevado potencial de investimentos de longo prazo.
Segundo Silveira, as decisões estratégicas tomadas pelo governo visam ampliar a segurança energética, fortalecer a confiabilidade do sistema e preparar o país para o crescimento estrutural da demanda, impulsionado pela eletrificação da economia, pela digitalização e pela reindustrialização verde.
Nesse sentido, o armazenamento de energia surge como peça-chave para garantir flexibilidade operacional, estabilidade do sistema e maior aproveitamento das fontes renováveis.
Lítio, terras raras e a nova fronteira mineral brasileira
Em um cenário global onde a segurança de suprimento de minerais críticos define o ritmo da transição energética, Silveira destacou que o Brasil não aceitará mais o papel de mero fornecedor de commodities.
O ministro deu o tom da diretriz ministerial que busca internalizar a riqueza gerada pelo setor mineral. “Nosso governo tem atuado de forma estratégica para promover a agregação de valor no Brasil, superando o modelo baseado apenas na exportação de matéria-prima”, afirmou Silveira.
Segundo ele, a diretriz é internalizar etapas relevantes da cadeia, incluindo a fabricação de componentes, sistemas de armazenamento e baterias, fortalecendo a indústria nacional e ampliando a geração de empregos qualificados.
Capital humano como ativo estratégico da transição
Além da infraestrutura e dos investimentos produtivos, o ministro ressaltou que a estratégia brasileira passa também pela formação de capital humano especializado, condição essencial para sustentar uma economia baseada em inovação e tecnologia.
Como exemplo, citou a criação do curso do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará, com foco em energias e tecnologias associadas à transição energética, iniciativa articulada em conjunto com os ministérios da Defesa e da Educação.
O movimento reforça a visão de que a transição energética não é apenas uma mudança tecnológica, mas um processo estrutural de transformação produtiva, educacional e institucional, no qual a mineração deixa de ser apenas fornecedora de insumos e passa a ocupar papel central na estratégia de desenvolvimento nacional.



