Com 565,5 MW de capacidade instalada, a termelétrica em Macaé (RJ) passa a ter participação relevante do ClaiFund, em movimento que sinaliza apetite estrangeiro por ativos estratégicos de geração no Brasil
A Superintendência-Geral do Cade aprovou, sem restrições, a operação que marca a entrada do fundo chinês ClaiFund no capital da usina termelétrica Marlim Azul, localizada em Macaé, no Norte Fluminense. A decisão representa mais um passo no processo de internacionalização do setor elétrico brasileiro, especialmente no segmento de geração térmica a gás natural, considerado estratégico para a segurança energética do país.
Pela operação, o ClaiFund passa a deter 49,9% de participação na usina, após adquirir 29,9% que pertenciam à Shell e 20% que estavam sob controle da Mitsubishi Power. O controle acionário permanece com o Pátria Infra Core FIP, que seguirá como acionista majoritário, com 50,1% do capital. O acordo foi firmado entre as partes em dezembro e ainda depende da análise da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) para ser plenamente efetivado.
Do ponto de vista concorrencial, o Cade entendeu que a transação não gera riscos relevantes à competição no mercado de geração de energia elétrica, o que permitiu a aprovação sem a imposição de remédios regulatórios ou condicionantes.
UTE Marlim Azul e o papel do gás natural do pré-sal
A UTE Marlim Azul possui capacidade instalada de 565,5 MW, o suficiente para atender mais de 2 milhões de domicílios, e ocupa uma posição singular na matriz energética nacional. Trata-se da primeira termelétrica do Brasil abastecida com gás natural proveniente diretamente do pré-sal, o que confere ao projeto relevância técnica, econômica e geopolítica.
Instalada no Complexo Logístico e Industrial de Macaé, a usina se beneficia da proximidade com importantes campos produtores da Bacia de Campos e de uma infraestrutura de escoamento de gás que permite maior integração entre os setores de óleo, gás e energia elétrica.
Na prática, a Marlim Azul simboliza a consolidação do gás natural como vetor de transição energética no Brasil, atuando como fonte complementar às renováveis intermitentes, como eólica e solar, e contribuindo para a estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Entrada do capital chinês e apetite por ativos energéticos
A chegada do ClaiFund ao projeto reforça uma tendência já observada nos últimos anos: o crescimento do interesse de investidores chineses por ativos de infraestrutura no Brasil, especialmente nos segmentos de energia, saneamento e logística.
No caso específico do setor elétrico, a estratégia chinesa tem se concentrado em projetos com receitas reguladas ou contratos de longo prazo, perfil que se encaixa perfeitamente no modelo de negócios de usinas termelétricas estruturadas no ambiente regulado.
Além disso, a participação em uma usina movida a gás do pré-sal posiciona o fundo em um ativo com alto grau de previsibilidade operacional, acesso a combustível competitivo e papel relevante na expansão da oferta de energia firme no país.
Cade vê baixa concentração e ausência de riscos concorrenciais
Ao analisar a operação, a Superintendência-Geral do Cade concluiu que a transação não provoca concentração significativa nos mercados relevantes de geração de energia elétrica, nem gera poder de mercado capaz de afetar preços, oferta ou condições de concorrência.
Isso se explica, em parte, pelo fato de que o ClaiFund não possui presença relevante prévia no setor elétrico brasileiro, tampouco participa de outros ativos que pudessem, em conjunto com a Marlim Azul, gerar efeitos anticoncorrenciais.
Com isso, o órgão antitruste autorizou a operação em rito sumário, sem necessidade de aprofundamento da análise ou imposição de compromissos estruturais ou comportamentais.
Termelétricas e a segurança do sistema elétrico
A aprovação da operação ocorre em um momento em que as termelétricas a gás natural ganham renovado protagonismo no planejamento energético nacional. Diante da expansão acelerada das fontes renováveis intermitentes e dos desafios de armazenamento em larga escala, usinas como a Marlim Azul desempenham papel fundamental na garantia da confiabilidade do sistema.
Do ponto de vista técnico, essas usinas oferecem flexibilidade operacional, capacidade de despacho rápido e previsibilidade de geração, características essenciais para mitigar riscos de déficit energético em períodos de escassez hídrica ou baixa geração eólica e solar.
Além disso, o uso do gás do pré-sal contribui para reduzir a dependência de combustíveis importados, melhora a balança comercial energética e fortalece a integração entre os setores de exploração de petróleo, produção de gás e geração elétrica.
Próximo passo: análise da ANEEL
Embora o aval do Cade represente uma etapa crucial, a operação ainda precisa ser submetida à aprovação da ANEEL, responsável por avaliar aspectos regulatórios, societários e contratuais da transação.
A expectativa do mercado é que o processo transcorra sem maiores obstáculos, dado que não há mudança no controle da usina e que o novo acionista atende aos requisitos técnicos e financeiros exigidos pela agência reguladora.
Uma vez concluída essa etapa, a entrada do ClaiFund se consolidará como um dos movimentos mais relevantes de investimento estrangeiro em geração térmica no Brasil nos últimos anos.



