Acordo Mercosul-União Europeia pressiona Brasil a decidir entre exportar ou industrializar cadeia de minerais críticos

Com Minas Gerais no centro das maiores reservas de terras raras, FIEMG aposta em inovação, ímãs permanentes e hubs tecnológicos para posicionar o país nas etapas mais rentáveis da transição energética

A assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, após quase 25 anos de negociações, trouxe à tona um dos dilemas mais estratégicos da política industrial brasileira: aprofundar a industrialização da cadeia de minerais críticos ou reforçar o modelo histórico de exportação de commodities minerais. Em um contexto de corrida global por terras raras, lítio, nióbio e outros insumos essenciais para tecnologias da transição energética, o entendimento da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) é que a pressão europeia por esses materiais tende a testar, de forma inédita, a capacidade do Brasil de avançar para etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva.

Embora o acordo preserve o direito do Brasil de adotar políticas industriais, inclusive com a possibilidade de taxar ou restringir exportações de minerais críticos em até 25%, a redução de tarifas comerciais também pode estimular o envio de minério bruto ao exterior. Na prática, o país se vê diante de uma escolha estratégica: usar a vantagem geológica para desenvolver processamento, refino e manufatura avançada ou manter a lógica primário-exportadora em um mercado cada vez mais competitivo e geopoliticamente sensível.

Esse ponto do acordo abre espaço para que o Brasil dispute segmentos de maior valor agregado, como a produção de insumos para baterias, ímãs permanentes, motores elétricos e equipamentos de geração renovável, fundamentais para setores como mobilidade elétrica, energia eólica, solar e armazenamento de energia.

- Advertisement -

Corrida global por terras raras e disputa geopolítica

O interesse europeu por minerais críticos não é um movimento isolado. Estados Unidos, China e União Europeia disputam hoje o controle de cadeias produtivas consideradas estratégicas para a segurança energética, industrial e até militar. Atualmente, a China domina tanto a produção quanto o refino global de terras raras, enquanto o Brasil detém a segunda maior reserva conhecida, concentrada majoritariamente em Minas Gerais.

A pressão internacional tende a se intensificar. Nos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump voltou a sinalizar interesse pela Groenlândia, território com algumas das maiores reservas de recursos naturais do mundo, incluindo lítio e elementos de terras raras (ETRs), considerados essenciais para tecnologias verdes e sistemas elétricos avançados. Três dos depósitos de ETRs localizados sob o gelo da ilha podem estar entre os maiores do planeta, com potencial direto para a fabricação de baterias e componentes elétricos.

Nesse cenário, o Brasil surge como um dos poucos países capazes de reduzir a dependência global da China. Para a FIEMG, no entanto, transformar esse potencial geológico em protagonismo industrial exige superar gargalos históricos de tecnologia, regulação, financiamento e integração entre mineração e indústria de transformação.

Minas Gerais como centro da estratégia brasileira

Minas Gerais ocupa posição central nesse debate. Além de concentrar a maior parte das reservas brasileiras de terras raras, o estado abriga iniciativas consideradas pioneiras na tentativa de estruturar uma cadeia industrial nacional. A principal delas é o Instituto de Terras Raras do Centro de Inovação e Tecnologia (CIT SENAI ITR), em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, investimento liderado pela FIEMG.

- Advertisement -

O instituto é dedicado à pesquisa, ao beneficiamento e ao desenvolvimento de novas tecnologias ligadas a materiais críticos, com foco direto em aplicações industriais. Trata-se da primeira fábrica de ímãs permanentes da América Latina, voltada ao desenvolvimento de ímãs de terras raras e à otimização da produção de nióbio e ETRs, com atividades distribuídas entre Belo Horizonte, Itaúna e Lagoa Santa.

Em dezembro de 2025, o CIT SENAI ITR produziu, de forma experimental, o primeiro lote de ímãs de terras raras, com peso entre 5 e 10 quilos. A produção segue em 2026 ainda em pequena escala, mas já é considerada um marco para a engenharia nacional.

Ao contextualizar o avanço, o coordenador de pesquisa do instituto, André Pimenta, destaca a relevância do projeto para o aprendizado tecnológico. “Em 2026, o instituto irá aprimorar a qualidade do ímã, customizando-o conforme as diferentes aplicações industriais. Lembrando que o SENAI não pode comercializar o material”.

Segundo o pesquisador, o objetivo principal é compreender cada etapa do processo produtivo sem os altos custos típicos de plantas industriais, criando base técnica para que empresas privadas possam escalar a tecnologia no futuro.

Dependência da China e transição para insumos nacionais

Atualmente, o CIT SENAI ITR ainda utiliza matérias-primas provenientes da China, reflexo da dominância global do país asiático no refino de terras raras. No entanto, há expectativa de que, ainda em 2026, parte dos insumos passe a ser de origem nacional, fornecida por três mineradoras integrantes do projeto MagBras, do qual o instituto também faz parte.

Outro passo relevante é a negociação, por parte do Sistema FIEMG, para aquisição de um forno de redução eletrolítica, equipamento capaz de transformar óxidos de terras raras em metais. A máquina deverá operar em uma escala intermediária entre piloto e industrial, considerada crucial para validar processos e reduzir riscos tecnológicos antes de investimentos de grande porte.

Esse movimento é visto como estratégico para consolidar o Brasil não apenas como exportador de concentrado mineral, mas como produtor de metais e componentes industriais de alto valor agregado.

Hub internacional e integração com economia verde

Além das iniciativas em Minas Gerais, a FIEMG também busca ampliar a inserção internacional do Brasil na agenda de minerais críticos. Em dezembro, a entidade negociou, no Reino Unido, a criação de um hub tecnológico voltado para baterias e eletrificação, durante missão liderada pelo presidente da federação, Flávio Roscoe.

O hub deverá reunir centros de pesquisa, universidades, empresas e instituições industriais, com foco no desenvolvimento de soluções para baterias, mobilidade elétrica e economia verde. A proposta inclui integração tecnológica entre América do Sul e Reino Unido, ampliando o acesso a mercados, capital e conhecimento.

Na avaliação da FIEMG, esse conjunto de iniciativas posiciona Minas Gerais como laboratório da política industrial brasileira de minerais críticos, em um momento em que o acordo Mercosul-União Europeia impõe ao país a necessidade de decidir se continuará exportando riqueza mineral bruta ou se assumirá papel relevante nas cadeias globais da transição energética.

Destaques da Semana

Bancada do PT quer nova estatal para atuar no mercado de GLP e logística

Projeto liderado por Pedro Uczai autoriza criação de novas...

ANEEL propõe endurecer regras da geração distribuída e abrir caminho para corte remoto de MMGD

Consulta pública amplia poder das distribuidoras, prevê auditorias obrigatórias...

Artigos

Últimas Notícias